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“O senhor não me mace!”. Ou como a crise do jornalismo também é culpa dos jornalistas

A presidente da Comissão Organizadora do 4º Congresso dos Jornalistas Portugueses, Maria Flor Pedroso

Marcos Borga

Os crescentes atropelos à deontologia em nome dos cliques e das audiências, as discutíveis opções editoriais na hierarquização da “informação”, a falta de cultura nas redações e a cedência à perspetiva empresarial na gestão editorial têm sido alguns dos pontos mais focados pelos jornalistas nas auto-críticas ao exercício da profissão. O 4.º Congresso dos Jornalistas, que decorre em Lisboa desde 5ª feira, termina este domingo

A crise existe e tem várias causas. Muitas delas exógenas ao exercício da profissão: o contexto económico em que atuam os grupos de media, as fortes quebras publicitárias ou as radicais mudanças de hábitos dos consumidores são as razões mais invocadas. Mas o 4.º Congresso dos Jornalistas tem servido também para colocar no centro do debate as culpas próprias que os profissionais têm no atual estado do jornalismo.

Porque apesar de todos reconhecerem que ainda há bom jornalismo em Portugal, a voragem dos tempos parece ter feito desvanecer em boa parte das redações alguns dos princípios mais elementares a que os jornalistas estão obrigados no plano ético ou deontológico. E que não cumprem. Porque não conseguem e porque não querem. Ou porque não sabem.

Numa das comunicações mais aplaudidas no terceiro dia de congresso - este sábado - o jornalista José Pedro Castanheira (num texto lido por Adelino Gomes), abordou a questão com recurso a um exemplo concreto: a forma como os jornalistas fizeram, em 2014, a cobertura mediática a algumas visitas de Mário Soares a José Sócrates na prisão de Évora. E onde, segundo Castanheira, os jornalistas se comportaram "que nem abutres" na abordagem ao ex-Presidente, quando já deviam ter percebido que este "deixara de estar no pleno domínio de algumas das suas faculdades".

E depois da exibição de dois vídeos com directos dessas visitas - num dos quais, perante as insistentes perguntas de um repórter, Soares pede ao jornalista: "O senhor não me mace" - , Castanheira sentenciou: "Acossados pela lógica desumana da concorrência, vergados à ditadura do directo, apanhados no ciclo infernal da informação-espectáculo, sujeitos à pressão dos cliques, dos likes, das visualizações e das audiências, os media não quiseram (não querem) saber de conceitos ultrapassados como o decoro, o respeito, o bom senso ou a decência. Ignoraram algumas das regras básicas da deontologia profissional".

Embora acredite que " haverá sempre lugar para o verdadeiro jornalismo", José Pedro Castanheira - que presidiu há 19 anos à comissão organizadora do 3.º Congresso dos Jornalistas - lamenta que os jornalistas estejam a transformar-se em "simples pé de microfone" e que as chefias se demitam da sua função de editar, "um trabalho que parece haver cada vez menos nos nossos média - sobretudo no online, nas rádios e televisões, onde o que mais importa é ser o primeiro, mesmo que à margem das regras mais elementares".

Também o jornalista António Marujo se debruçou sobre alguns "suicídios do jornalismo", usando a sobre-exposição do futebol na agenda informativa como exemplo de erros que a classe tem alimentado. "Já dei conta de noticiários na rádio ou na televisão abrirem, dois dias antes dos jogos – dois dias antes! –, com as declarações dos treinadores sobre as suas expectativas, que são sempre iguais e sempre as mesmas", ilustrou.

Um problema que extravasa, no entanto, o mero domínio do futebol. "Matamos o jornalismo e o melhor de nós, também, pelo facto de não querermos saber, muitas vezes, da vida das pessoas. Saúde, educação ou justiça, por exemplo, interessam, na maior parte dos casos, mais pelas decisões políticas do que pelos efeitos para cidadãos e utentes", prosseguiu, criticando ainda a "forma como abdicamos de ser jornalistas e entregamos esse papel a comentadores que mais não são que políticos ou economistas com interesses a defender".

Esta redação multimedia é a ligação do IV Congresso dos Jornalistas Portugueses à Universidade: uma redação que funciona em tempo real com alunos de vários cursos de todo o país

Esta redação multimedia é a ligação do IV Congresso dos Jornalistas Portugueses à Universidade: uma redação que funciona em tempo real com alunos de vários cursos de todo o país

Marcos Borga

A ignorância e o jornalismo low cost

O jornalista Frederico Duarte de Carvalho aproveitou a sua intervenção no Congresso para chamar ao palco outro problema da profissão: a falta de cultura geral dos jornalistas e das redações. E citou o jornalista britânico Nick Davies - no livro "Flat Earth News". "Historicamente, sempre houve um elemento de ignorância no jornalismo, apenas porque tenta registar a verdade à medida que esta acontece. Agora, isso é ainda pior. É endémico. A ética da honestidade foi ultrapassada pela produção massiva de ignorância.”

Partindo desta análise, Frederico Duarte de Carvalho sugeriu que a atual falta de cultura geral "faz com que pessoas que estudaram jornalismo, formaram-se depois em jornalismo, cumpriram o estágio e obtiveram a carteira profissional de jornalista e assinam como sendo jornalistas, não façam depois jornalismo". "O problema é ainda mais sério e grave quando essas pessoas acreditam honestamente que fazem jornalismo e não sabem que não o fazem", concluiu.

O jornalista José Manuel Mestre constatou igualmente que "o jornalismo, enquanto jornalismo, parece condenado e vive um imenso pesadelo face à evidente erosão do modelo empresarial que o suporta". Um problema que está na origem de sucessivos cortes em busca de equilíbrios financeiros que têm um efeito domino: empurram a profissão para um "low cost journalism" que "conduz a uma imparável degradação da oferta que há-de condenar de vez o verdadeiro jornalismo". Ou seja, a profissão "ou morre do mal, ou da cura".

Propondo que se reflicta sobre a viabilidade de criar "uma nova geração de meios de comunicação sem fins lucrativos, rigorosamente independentes e rigorosamente profissionais, orientados para os novos suportes de jornalismo digital" - suportados por associações cívicas, universidades, fundações, empresas, entidades sem fins lucrativos ou movimentos locais e regionais - José Manuel Mestre instou ainda os jornalistas mais jovens e os estudantes de jornalismo a não terem medo.

"Jovens jornalistas, jovens candidatos a jornalistas: não tenham medo. "O futuro do jornalismo começa na vossa independência e na coragem para exercê-la. Trabalhar 10 ou 12 horas por dia como 'porta-microfone', 'fazedor de leads', 'embrulhador de fait-divers' ou 'publicador multimédia' a troco de 600 euros por mês, sem condições para ter vida própria ou qualidade de vida, amedrontado e sem se questionar… não é ser jornalista", sublinhou.

O crescente peso da perspectiva empresarial no exercício jornalismo - e a aceitação dessa realidade por parte dos jornalistas - foi ainda apontada por Augusto Freitas de Sousa como um dos males da profissão. Porque a gestão dos jornais "progressivamente passou a ter um papel cada vez mais importante" no quotidiano das redações. "Ou porque os temas eram mais vendáveis, ou porque havia uma tendência dos leitores para determinados assuntos, ou porque aquele ou outro órgão de comunicação tinha enveredado por um caminho que lhes trouxe mais vendas e publicidade. Hoje os jornalistas já nem se atrevem a propor trabalhos que, por muito meritórios que fossem, são considerados não vendáveis. E isto atingiu níveis alarmantes em que nós somos forçados a tratar assuntos apenas pela percepção, tantas vezes errada, de que aquela matéria vende", sustentou.

Segundo Augusto Freitas de Sousa, outro consequência nefasta desta deriva empresarial nas redações foi o facto de em boa parte dos meios, "em detrimento de quem trabalha a sério nas redacções", o número de "generais" ter passado "a ser muito próximo dos soldados, quando não são mais". Com o problema acrescido de que os atuais "decisores", sejam eles diretores ou editores, se estarão a tornar cada vez mais parecidos com "o público, leitores, espectadores e ouvintes". "Se antes o jornalista era quase um intelectual, ou pelo menos uma pessoa de cultura e academia acima da média, hoje chega fazer uma leitura daquilo que os consumidores mais gostam, mais compram, e apresentar-lhe um leque de possibilidades que até podem ser medíocres ou não notícias", porque "é disso que eles gostam".

  • "Hoje, há medo nas redacções. Ou alguém tem dúvidas?"

    A precariedade no jornalismo, a qualidade da informação na era do imediatismo e o contra-senso de haver uma audiência cada vez maior e que cada vez menos valoriza o trabalho dos jornalistas foram alguns dos temas em debate no segundo dia do 4.º Congresso dos Jornalistas, que decorre até domingo em Lisboa

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