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O fim das rugas?

© Susana Vera / Reuters

Um grupo de cientistas afirma ter descoberto o que pode ser o fim das rugas. Será?

Uma investigação publicada na revista Science, levada a cabo por cientistas da universidade da Pensilvânia, nos EUA, afirma ter identificado uma forma natural de acabar com as rugas. O cerne da questão parece residir na capacidade de regenerar as células de gordura – células adipócitas – que garantem uma pele saudável e jovem. Através do aproveitamento de uma substância de sinalização vital, a proteína morofogenética óssea, retirada de feridas com folículos pilosos (pêlos), conseguiu fazer-se a transformação em células adipócitas. Este novo processo pode agora ser transformado em injeção, como o Botox, ou em creme, abrindo caminho para uma vasta aplicação na área da estética.

Mas também na área das cicatrizes esta descoberta pode ter efeitos relevantes. O cientista principal do estudo, George Cotsarelis, afirmou: "Podemos manipular a cicatrização de feridas de modo a que esta conduza à regeneração da pele, em vez da formação de cicatrizes." A cirurgiã plástica Ana Gonçalves alerta, no entanto: "As rugas da pele são o resultado de inúmeros factores, e não só de um. A gordura debaixo da epiderme vai efetivamente diminuindo ao longo dos anos, sendo uma das causas de perda de suporte, e de aparecimento de rugas. Atualmente, temos ao nosso alcance os preenchimentos faciais com gordura, que dão suporte à pele, e com ácido hialurónico, que leva à produção de colagénio e outras fibras de sustentação, de fácil execução e com resultados excelentes no tratamento das rugas. Estes funcionam como que volumizadores por baixo da pele, corrigindo e prevenindo as rugas". Mas a médica explica que há outros fatores que pesam nesta equação.

As injeções de Botox ou de ácido hialurónico tornaram-se quase banais no mundo ocidental. Só em 2016, dos 20 milhões de intervenções estéticas realizadas no mundo, 5 milhões eram de Botox e 2 milhões de ácido hialurónico (dados da International Society of Aesthetic Plastic Surgery - ISAPS).

As injeções de Botox ou de ácido hialurónico tornaram-se quase banais no mundo ocidental. Só em 2016, dos 20 milhões de intervenções estéticas realizadas no mundo, 5 milhões eram de Botox e 2 milhões de ácido hialurónico (dados da International Society of Aesthetic Plastic Surgery - ISAPS).

© Jim Young / Reuters

"Estamos na era da engenharia genética e o estudo apresentado é uma descoberta nessa área. A estimulação de regeneração de células gordas, chamadas adipócitas, poderá ser uma ajuda no anti-envelhecimento da pele, ajudando à não formação de rugas. Mas nunca será uma solução milagrosa", defende. A cirurgiã justifica: "O processo de envelhecimento da epiderme é o resultado intrínseco de um processo cronológico, hereditário e geneticamente programado, mas também uma consequência de agressões externas tais como exposição solar, poluição, stress, alimentação desequilibrada, tabaco, falta de descanso, entre outros. A pele sofre desgaste e alterações, e envelhece perdendo densidade e elasticidade , surgindo as primeiras rugas e flacidez. As pessoas de pele clara envelhecem mais cedo do que os africanos e asiáticos, que têm a pele mais espessa e possuem mais colágeneo e elastina. Portanto, além da etnia e herança genética, muitos outros fatores externos podem contribuir para o aceleramento do envelhecimento da pele".

"A nossa face é composta por pele, gordura, músculo e osso", continua a cirurgiã plástica. "Todos estes tecidos sofrem envelhecimento – o osso reabsorve, diminuindo de espessura, o músculo vai ficando mais atrofiado, a gordura diminui. A perda de osso, músculo e gordura leva a uma perda de “pilares” de sustentação da pele, contribuindo para o aparecimento de flacidez, rugas, sulcos. Entre outros fatores a ter em conta no envelhecimento da pele e no aparecimento de rugas conta-se ainda o mioenvelhecimento, causado por movimentos musculares repetidos dos inúmeros músculos da mímica facial dia após dia. E o cronoenvelhecimento, que é intrinseco, hereditário e geneticamente determinado, e que não é mais do que um abrandamento da actividade celular, uma diminuição do sistema de defesa contra os radicais livres e uma degradação dos tecidos de suporte da pele, tais como fibras elásticas, fibras de colagéneo, glucosaminoglicanos... Ou o envelhecimento hormonal, que resulta da diminuição de produção de estrógeneos, que leva a um abrandamento da actividade celular e da atividade sebácea ao nível da pele, com consequente aparecimento de rugas."

As rugas são, assim, uma questão multifatorial, não dependente exclusivamente de um só fator. "Penso que a eliminação de rugas e especialmente a sua prevenção terá de ter em conta sempre os factores intrínsecos e factores externos, e como tal, o combate terá de ser dirigido a todos estes, não apenas aos adipócitos", acredita Ana Gonçalves. Mas esta descoberta é um grande passo na direção certa.