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Sociedade

As joias 
da Coroa

FOTO LOPO AMORIM

Visita guiada às oficinas e à história 
da Leitão & Irmão, uma das mais antigas casas de ourives do Porto e de Lisboa

Quase passa despercebida a porta em ferro que se abre para um pátio da Travessa da Espera, onde se destaca o cilindro de tijolo de uma chaminé industrial recortado contra o azul do céu. É a única que resta entre tantas que já existiram no Bairro Alto e, assim solitária, parece querer resistir como um símbolo de outro tempo. Também de outro tempo é a oficina que se encontra dentro da casa do pátio e de onde nos chega o som de um rádio.

Entramos e vemos homens concentrados no seu ofício. Cortam, moldam, cinzelam... São artesãos a trabalhar a prata na casa Leitão & Irmão. Alguns estão a produzir, para a Abadia de Westminster, uma coroa destinada a uma Imagem de Nossa Senhora de Fátima que irá peregrinar por Inglaterra e pelo País de Gales durante o ano de 2017.

“Rhinoceros 1515”, uma interpretação em prata cinzelada do original de Albrecht Dürer (2004)

“Rhinoceros 1515”, uma interpretação em prata cinzelada do original de Albrecht Dürer (2004)

No centro da sala, uma grande bancada recebe luz zenital. “Não há luz como a do sol para iluminar as oficinas de joalheiro”, dizem-nos. Esta oficina já cá está há 140 anos. Foi a primeira a ser construída para trabalhar o ouro e a prata e para albergar os bons ourives da capital. Hoje é das poucas que ainda resiste com esta dimensão, empregando 40 artesãos formados na casa.

Objetos com memória

Reis, papas, famílias nobres, ilustres com ou sem brasão, hotéis, restaurantes de luxo, instituições do Estado... Quem nunca comprou uma joia ou encomendou um serviço de prata à Leitão & Irmão? No final do século XIX, a fama da ourivesaria era tanta que, numa das cartas trocadas com o conde de Arnoso, Eça de Queirós terá escrito: “Palavras cinzeladas como uma prata da casa Leitão.”

Presépio constituído por 15 figuras em prata, da escultora Graça Costa Cabral (2000), que se encontra na Fundação Gulbenkian, marcam a iconografia contemporânea da ourivesaria

Presépio constituído por 15 figuras em prata, da escultora Graça Costa Cabral (2000), que se encontra na Fundação Gulbenkian, marcam a iconografia contemporânea da ourivesaria

A indicação é-nos dada pelo atual dono da casa, um dos membros da sexta geração da linhagem. Mas José Leitão não é joalheiro nem herdou o negócio do avô. Por tradição familiar, sempre foi norma que quem quisesse ficar com o negócio teria de comprar a cota aos outros herdeiros. “Esta prática assegura que ninguém tem a possibilidade de estragar o que os outros fizeram, porque teve de se endividar para comprar. Só fica com a casa quem lhe tiver amor.” José Leitão acredita que esta regra é um dos segredos da longevidade do negócio. No seu caso, adquirir a firma foi literalmente a sua conquista de Abril. “Em 1974, a empresa foi liquidada e ficou em autogestão. Em 1981 comprei-a aos trabalhadores. Muitos deles já cá trabalhavam e continuaram a trabalhar. Eu tinha crescido neste meio e não me conformava que acabasse. Na altura tinha 21 anos, e nunca fiz outra coisa. Formei-me aqui, sou um autodidata.”

luís barra

Subimos ao primeiro andar por uma escada íngreme de madeira e entramos novamente numa sala antiga, onde trabalham os artífices das joias. Agora são as pinças que agarram rubis e safiras minúsculos, e o ouro brilha com os reflexos do sol. Observamos uma coleção de moldes com figuras em relevo que ocupam as paredes do ateliê. O que são? “São o BI de cada peça, moldes feitos em gesso de cada uma das joias que aqui foi desenhada”, explicam-nos. “E todas são acompanhadas por uma ficha com o ano da encomenda, para quem foi feita, qual a matéria-prima utilizada e a assinatura do artista que a fez.” Este espólio de moldes e fichas técnicas, que se encontra na Fundação Calouste Gulbenkian prestes a ser catalogado, é o verdadeiro tesouro da Leitão & Irmão. No relevo moldado do gesso está impressa a memória da casa. “São quase duzentos anos de história da sociedade portuguesa”, esclarece José leitão.

Um título pelo império

Em 1822, José Pinto Leitão, um talentoso ourives do Porto — bem casado com uma menina rica, filha de um comerciante de ouro do Brasil —, abre na Rua das Flores a primeira loja-oficina com balcão de venda e onde à vista dos clientes se trabalha a filigrana e as peças de inspiração popular.

Mas serão os filhos do fundador, Narciso e Olindo José, que irão modernizar o negócio, investindo em maquinaria sofisticada e convidando os melhores artífices a assinar a prata. São eles que criam a marca Leitão & Irmão, levando-a até Londres e Paris, onde abrem duas lojas. Em 1872, quando D. Pedro II, imperador do Brasil, lhes concede o título de Ourives da Casa Imperial, a Ourivesaria Leitão adquire definitivamente a sua identidade incontornável. Em meados da década de 70 do século XIX instalam-se em Lisboa, no Largo do Chiado, o centro cosmopolita de então, com o objetivo de estarem mais perto da Casa Real. Entre as tradicionais boas ourivesarias que existiram no Chiado, a Leitão & Irmão é a única que ainda se mantém.

No dia do seu casamento (4 de setembro de 1913) com D. Manuel II, a princesa Augusta Vitória usou o diadema produzido pela casa

No dia do seu casamento (4 de setembro de 1913) com D. Manuel II, a princesa Augusta Vitória usou o diadema produzido pela casa

A união definitiva à Casa Real dá-se no dia 1 de dezembro de 1887, por determinação de D. Luís, que atribui à Leitão & Irmão o título de Joalheiros da Coroa. Com este privilégio exclusivo, os ourives da casa tiveram a possibilidade de desenhar e conceber a vasta coleção de joias, pratas e objetos pessoais dos últimos reis portugueses e que hoje faz parte do acervo do Palácio Nacional da Ajuda.

Na vasta lista de obras produzidas pelas oficinas encontramos peças memoráveis que marcaram a prataria e a joalharia nacionais, como a famosa “Baixela Barahona”, assinada em 1900 por Columbano Bordalo Pinheiro; o cálice oferecido por D. Luís ao Papa Leão XIII e com que este celebrou a missa do seu jubileu, em 1888, que hoje pertence ao Vaticano; o faqueiro Belle Époque desenhado em parceria com René Lalique, que ainda hoje se produz; ou a coroa de Nossa Senhora de Fátima feita em ouro e pedras preciosas, onde durante meses 12 artesãos moldaram a joia que seria oferecida ao Santuário de Fátima em agradecimento pelo facto de Portugal ter sido poupado à II Guerra Mundial. Nesta obra, considerada o maior ex-líbris da Leitão & Irmão, aloja-se a bala que atingiu João Paulo II a 13 de maio de 1981 e que foi oferecida a Fátima pelo Papa.