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A minha vida é um shopping

tiago miranda

Nas semanas que conduzem ao Natal, os portugueses praticam um autêntico culto do consumo. Este ano, o volume das compras atingiu níveis pré-troika. O Expresso juntou-se à turba e recorda pequenas histórias de uma grande romaria

Lia Pereira

Lia Pereira

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotojornalista

os homens encostam-se ao gradeamento frente a uma das maiores lojas de roupa do Centro Comercial Colombo, esperando. Estão resignados: algures no interior do estabelecimento estarão as suas mulheres, procurando presentes e oportunidades a duas semanas do Natal. De jornal debaixo do braço e alguns saquitos de papel aos pés, os amigos tentam relativizar a sua sorte: “Até estava à espera de mais gente”, suspira um. “Amanhã é que vai ser mais complicado”, corrobora o outro, lembrando que a PSP até emitiu um comunicado sobre a confusão que se previa para um domingo em que, na mesma Lisboa castigada por obras e trânsito, confluiriam três fenómenos extra: o advento comercial do Natal, acenando a sua mão gananciosa no final do calendário de dezembro, o jogo entre Benfica e Sporting e o concerto de Elton John, na sala que em tempos conhecemos como Pavilhão Atlântico. “Está esgotado, e só há poucos dias é que soube que ele vinha cá”, confessa um dos homens, acompanhado por uma pré-adolescente que se entretém jogando um jogo no telemóvel, sentada no chão. Para passar o tempo, recordam dias mais felizes (aquela viagem a Castelo de Vide para comer leitão!) e traçam paralelismos entre o espetáculo da velha raposa do showbizz e a visita de estrelas pop como Justin Bieber, por quem as fãs aguardam dias — e noites — ao relento, ignorando desconforto e cansaço, frio e chuva. Aqui, dentro do centro comercial com mais lojas em Portugal (são 340 os estabelecimentos do C.C. Colombo), os consumidores não estão expostos a condições climatéricas adversas, mas estes dois amigos parecem mais perto do que possam imaginar dos pais que, ainda há poucas semanas, se plantaram à porta da Meo Arena, fazendo companhia e protegendo os filhos, na longa via sacra até ao concerto do jovem Bieber. “Éramos para vir amanhã, mas mudámos para hoje para fugir à confusão”, repetem, como numa ladainha, à porta do gigante do pronto a vestir. Podia estar pior, é a ideia que mais exploram, mas ainda assim não se atrevem a abeirar-se da entrada da loja, olhando as vagas de gente que entram e saem da mesma como quem, em dia de tempestade, fita o mar revolto. O respeitinho é muito bonito, parecem pensar, e deixam-se ficar longe da zona de rebentação.

Se o Natal é das crianças, e muitas conservam até tarde a crença num homem barbudo que, de 24 para 25, as surpreenderá com prendas no sapatinho, muitas outras vão com os pais nas expedições aos centros comerciais, participando eventualmente na escolha dos presentes mais desejados. “As crianças exigem mais”, concorda Maria Ilda, que espera sentada que os netos tirem fotos com o Pai Natal, poucos dias antes da consoada. Acompanhada pelo marido, a avó partilha a impressão de que, este ano, há mais gente nos centros comerciais. “Anda tudo a esbanjar dinheiro — é uma festa do consumismo!”, exclama, antes de fazer a devida ressalva: “Mas a terceira idade não tem dinheiro. Só damos aos netos”, explica esta fã das iluminações de Natal da baixa de Lisboa, que não perde a oportunidade de elogiar.

Pausa. Na vertigem da caça pelos melhores presentes, feita de sucessivas investidas ao interior das lojas, os sofás colocados nos corredores são uma promessa de sossego e descanso

Pausa. Na vertigem da caça pelos melhores presentes, feita de sucessivas investidas ao interior das lojas, os sofás colocados nos corredores são uma promessa de sossego e descanso

tiago miranda

A intuição de Maria Ilda, avó experimentada nas artes do Natal, é confirmada pela frieza dos números. A 27 de dezembro, a SIBS, gestora da rede de multibancos, anunciou que, este ano, os gastos dos portugueses com o Natal voltaram aos valores pré-troika. No mês que antecedeu o Natal, os levantamentos e pagamentos na rede multibanco ascenderam aos €5,675 mil milhões, o que representa um crescimento de 7,3% face ao período homólogo de 2015. Para a maior desenvoltura na hora de digitar o verde/código/verde parece ter contribuído a reposição de parte dos cortes feitos nos salários da Administração Pública com a entrada da troika em Portugal, em 2011. Os portugueses estão mais confiantes, apontam todos os estudos, e gastaram, nas transações e levantamentos multibanco, mais €380 milhões este Natal no que no de 2015.

Contudo, o dinheiro não saiu só da carteira dos portugueses. O disparar do turismo entre nós, tanto em Lisboa como no Porto, onde a reabilitação urbana tem conduzido a um maior dinamismo do comércio de rua, também veio contribuir para as contas deste Natal. Nos sofás do Centro Comercial Colombo, onde repousam os guerreiros das compras, encontrámos Algis Milius, de 49 anos, e Daisius Milius, de 12. Pai e filho vieram da Lituânia para visitar a irmã mais velha de Daisius, a estudar em Lisboa, e descansam à hora do jantar. “A minha mãe foi comprar sapatos e a minha irmã está a comer”, informa o expedito pré-adolescente, que se prontifica a traduzir para um inglês imaculado as respostas do pai. De férias de Natal em Portugal, a família procura nos quase 120 mil metros quadrados do centro comercial de Benfica “souvenirs para levar para casa”. Na Lituânia, reconhecem, não há shoppings desta dimensão, mas sim lojas individuais mais espaçosas. A boa sinalização do C.C. Colombo, apontam, ajuda-os a orientarem-se na “catedral do consumo”, aberta desde 1997 e um dos espaços mais procurados na época do Natal. Sentada à porta do grande hipermercado que o Colombo alberga, uma mulher ladeada pelos dois filhos parece exausta. Mas as aparências iludem: Luísa, que é portuguesa mas vive em Inglaterra, veio só comprar os ingredientes para a ceia de Natal, e não teve problemas na hora de encontrá-los e pagá-los. Será que, além de mais otimistas, os portugueses estão também mais calmos?

Um oásis, um sofá

Sobretudo no C.C. Colombo, que aposta mais neste tipo de mobiliário amigo, os pequenos sofás ou poltronas que se encontram em praticamente todos os corredores são os heróis de que ninguém fala. No rés do chão, alheado ao bulício que o rodeia, um homem senta-se num desses cadeirões. Ao colo tem um pequeno cão, que protege como se de um bebé se tratasse. A profusão de idosos nestes espaços não é exclusiva desta época e, dada a tradicional má preparação das casas portuguesas para o frio, não nos custa a crer que muitos cidadãos seniores acorram aos centros comerciais em busca de um lugar sentado e, acima de tudo, quente. Na caça pelos presentes, e enquanto um dos membros do casal ou do grupo se afadiga no interior das lojas, o sofá é uma promessa de sossego e descanso. Numa mesma tarde, vimos essas zonas usadas como parque de estacionamento de carrinhos de bebé; como zona de alimentação dos mesmos petizes, a quem são servidas papas pacíficas na confusão do shopping; como ponto de atualização noticiosa, com o wi-fi grátis a permitir que os mais curiosos percebam o que se está a passar no mundo (e naquela tarde, excecionalmente, não houve celebridades a morrer). Há mesmo quem estugue o passo para tentar ocupar o último sofá, encontrando-o já tomado por um jovem rapaz de boné que, pelo carinho e cuidado com que segura um bebé nos braços, parece quase estar a amamentá-lo. O bebé, por seu turno, segura com firmeza um pequeno panda de peluche. Se há tranquilidade nos centros comerciais em época de Natal, é possível que a encontre aqui, nesta espécie de manjedouras modernas.

Pelo sistema de som, chama-se um consumidor perdido à Rua das Caraíbas. À nossa frente, um homem de óculos escuros e cara de poucos amigos tapa (ainda mais) os olhos do sol artificial do C.C. Colombo. Lá fora, neste inverno benfazejo, não estão menos de 20 graus mas, pouco antes das cinco da tarde, inicia-se uma contagem decrescente misteriosa que conduz à queda de neve falsa sobre a praça central do centro comercial. Lá em baixo, as crianças regozijam com o nevão de brincadeirinha. Cá em cima, três amigas encostam-se junto ao gradeamento: “Estão prontas? Mais uma selfie!”

Enquanto para alguns o ideal é entrar numa grande superfície, comprar tudo aquilo de que se precisa e voltar rapidamente para casa, há quem, visivelmente, aprecia a experiência das compras e a registe abundantemente nas redes sociais. É o caso de um homem que, no El Corte Inglés de Lisboa, dispõe quatro crianças no corrimão das escadas que ligam a área comercial à estação de metro de São Sebastião. Preocupados com a segurança dos quatro rapazes, em equilíbrio periclitante nesta insólita encenação, alguns transeuntes chamam a atenção do homem, que controla a situação de smartphone na mão. Pelos gestos elípticos que desenha, está claramente a fazer um vídeo da série mannequin challenge, com as crianças nas escadas. Neste fenómeno viral, as “personagens” têm uma só missão: permanecerem estáticas durante segundos, como manequins. E os rapazes cumprem o desafio, com o “cineasta” a garantir que todos estão em segurança: “Sei o que estou a fazer, passo o dia com eles”, afirma, com um sorriso beatífico.

De quem foi a ideia?

Lembra-se dos homens que, à porta de uma loja de roupa no C.C. Colombo, previam o apocalipse para o dia seguinte? Estavam certos. No domingo — dia de Benfica-Sporting, dia de Elton John e dia de Natal, como o são todos os dias de dezembro — o Centro Comercial Vasco da Gama assemelhava-se a uma colmeia, com os muitos milhares de frequentadores no papel de abelhinhas diligentes e zumbidoras. Nos seus cerca de 50 mil metros quadrados, este centro comercial da Sonae parecia pequeno, muito pequeno, para a multidão que nele circulava com propósitos distintos: se, frente aos ecrãs de televisão de algumas lojas de telecomunicações, hordas de homens acompanhavam o dérbi, algumas mulheres aproveitavam para serem maquilhadas nos stands de beleza instalados a meio do corredor. O ambiente febril estendia-se ao interior dos estabelecimentos — no interior de uma loja de roupa, cujos tamanhos vão habitualmente até ao 44, uma mulher grita, desesperada: “Não há nada para gordos! Aqui não há nada para gordos!” Apesar de ainda serem sete da tarde, a zona de alimentação encontra-se perfeitamente intransitável. “Mas de quem foi a triste ideia de virmos ao shopping?”, indaga um pai de família, com a mulher e os dois filhos atrás, desnorteados. Acabámos a jantar no exterior, numa das varandas do centro comercial, às escuras — a única iluminação vem da zona da Meo Arena onde, dali a pouco, sir Elton John conferirá alguma dignidade ao serão junto ao rio.

Saldos. As campanhas de redução de preços, que começam antes do Natal, atingiram o seu pico nas semanas após o mesmo e são uma oportunidade de comprar mais barato

Saldos. As campanhas de redução de preços, que começam antes do Natal, atingiram o seu pico nas semanas após o mesmo e são uma oportunidade de comprar mais barato

tiago miranda

Mas nem só de espaços mastodônticos se faz o Natal comercial de 2016. Em Benfica, o centro comercial Fonte Nova, fundado em março de 1985, funciona a um ritmo completamente distinto. Num domingo à hora do almoço, começamos por encontrar um Pai Natal sem “fregueses”, sozinho no seu cadeirão, à porta do shopping cuja área não vai além dos 8250 metros quadrados. Ao cimo da escadaria principal, e fazendo jus involuntário ao slogan do Fonte Nova, ali exposto atrás delas (“Venha ao Fonte Nova abraçar sorrisos”), duas senhoras de idade encontram-se e abraçam-se com emoção. “Oh rapariga, a vida é muito complicada”, começa uma por desabafar. Na pequena zona de restauração, o espaço com mais gente àquela hora, ao contrário das lojas, geralmente vazias, há idosos a resolver puzzles de sopas de letras, senhoras a folhear revistas cor de rosa. Junto à escadaria, alguns adeptos benfiquistas, já trajados a rigor, aguardam a hora do jogo, comendo castanhas assadas das que se vendem num carrinho à porta do centro comercial. Se no Colombo ou no Vasco da Gama sentimos a trepidação por vezes distópica de uma grande metrópole, num shopping como o Fonte Nova, com as suas 60 lojas distribuídas por apenas dois pisos, parece-nos quase estar na praça de uma aldeia. Abandonamos o seu perímetro a tempo de ouvirmos pérolas de sabedoria anciã (“É uma data que todos temos à nascença, mas ninguém sabe qual é”, reflete uma idosa sobre a morte) e de encontrarmos um garoto à procura do Pai Natal, que entretanto deve ter ido almoçar.

Natal smooth jazz

Fundado no mesmo ano que o Fonte Nova, ou seja, há 31 anos, o Amoreiras Shopping Center foi o primeiro grande centro comercial de Lisboa e atrai até hoje uma clientela numerosa e, em alguns casos, atraídos pela existência de lojas de luxo, para os mais abonados. Antes do Natal, até a seleção musical espelha este posicionamento, apresentando os mesmos clássicos de sempre em versões polidas, dignas de uma estação de rádio dedicada ao smooth jazz. À exceção das grandes lojas de pronto a vestir, frequentadas por turbas insatisfeitas que arremessam peças de roupa pelo ar, na busca pela pechincha perfeita, o ambiente é geralmente mais descontraído. Numa loja de decoração, uma idosa escolhe sentar-se a descansar num cadeirão que, mesmo com 50% de desconto, custa sensivelmente um salário mínimo. Na mesma loja, um pé cor de rosa gigante, feito em acrílico pelo designer norte-americano, Jonathan Adler, está à venda por €1400. Saímos de fininho e, junto a um estabelecimento onde homens e mulheres derramam lágrimas paritárias, enquanto lhes esculpem as sobrancelhas com linha, uma garota de 7 ou 8 anos roga à mãe que a deixe andar num minicarrossel. Entretida com o telemóvel, começa por dizer que não tem uma moeda de um euro para o efeito mas, perante a insistência da filha, acaba por retirar uma do porta-moedas. “A Madalena é que sabe em que carrossel prefere andar”, é a resposta que dá às inquietações a criança. “Espere, princesa, a mãe podia tê-la posto aí em cima!”, aflige-se, quando a miúda salta para o pequeno carrossel em andamento.

Nas lojas de produtos mais dispendiosos, os funcionários até têm tempo para ler livros — foi o que vimos ao balcão de um estabelecimento de malas de viagem. O cenário complica-se quando à azáfama do Natal se junta a época de saldos e promoções: por esses dias, numa loja de lingerie e pijamas, uma mulher percorre freneticamente os cabides. “Olha, este era mesmo bom para a Jéssica, não achas?”, pergunta ao homem que a acompanha, arrastando-se. “Só tenho é medo que lhe esteja grande...”, divaga a senhora. “Ela até lá cresce”, dispara ele, num desespero confirmado em conversa com a empregada da caixa. “Eu, querer despachar-me? Só porque estou há quatro anos neste centro comercial...”, ironiza. “Três horas e meia...”, corrige ela, com um ligeiro rugido.

As campanhas de redução de preços, que começam mesmo antes do Natal, atingindo o seu pico nas semanas após o mesmo, podem por outro lado servir de convite à formação de alianças inesperadas. No El Corte Inglés de Gaia, inaugurado cinco anos depois do de Lisboa, ou seja, em 2006, uma senhora tenta que lhe emprestem um cartão de cliente da loja, para poder usufruir de 30% de desconto na compra de um casaco. A primeira tentativa sai furada: a cliente que escolhe abordar lamenta, mas não quer esgotar o seu plafond. Ao seu lado, uma jovem oferece-se para lhe emprestar o seu cartão. Exultante, a senhora brande no ar quatro notas de dez euros — “Eu pago-lhe já, eu pago-lhe já!” — e promete mundos e fundos, para agradecer a gentileza. “Como é que se chama? Até gostava de lhe dar uma prendinha! Dê cá dois beijinhos.”

Ainda que intuitivamente associemos as compras, sobretudo nas áreas da moda e da decoração, às mulheres, a verdade é que nem todas nasceram com a mesma resiliência para este autêntico safari de lojas. No C.C. Colombo, uma adulta insistia, como uma criança birrenta: “Já me posso ir sentar?”, enquanto a amiga a retinha por um pouco mais: “Mas diz-me, o que achas desta camisola?” Por vezes a franqueza das respostas pode ser algo excessiva: que o diga a rapariga que, no El Corte Inglés, confessou ao namorado sempre ter desejado comprar “um destes casacos de pelo”, de imediato sendo brindada pelo comentário: “Pareces a Cruella de Vil.”

Optar pelas compras online ou esperar pelas promoções nos dias que antecedem o Natal são algumas das estratégias para poupar em época de festas. Mas a tarefa de comprar “uma lembrança“ para o melhor amigo ou aquela tia afastada também pode ser facilitada por um bom conhecimento da área a “atacar”. No dia 22, Henrique, de 22 anos, e Teresa, de 19, circulavam tranquilamente pelo C.C. Colombo, antes de o primeiro rumar ao Coliseu de Lisboa para ver a estreia naquela sala nobre da banda portuguesa Capitão Fausto. Sem stresse, explicam-nos que “conhecer bem as lojas e ter noção do preço” do que se deseja comprar é meio caminho andado para chegar à noite da consoada sem preocupações de maior. O jovem casal tinha acabado de fazer as últimas compras — “sapatos e uma cama para o cão” — e seguiu o seu caminho amorosamente, de mão dada. No centro comercial, que dispõe também de serviços como ginásio ou várias salas de cinema, ficaram a trabalhar até tarde os heróis por cantar desta época de fartura e calor humano. Como Melissa, de sombrinha azul impecável sobre os olhos amigáveis, que perto das dez da noite atende centenas de clientes no hipermercado do C.C. Colombo, sem nunca perder o sorriso ou dispensar uma palavra de simpatia. O Natal também é isto.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 7 de janeiro de 2017