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“O apelo às emoções está a sobrepor-se aos factos”

Lucília Monteiro

Entrevista a Pedro Jerónimo, professor e jornalista

Adriano Nobre

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Jornalista

Lucília Monteiro

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Fotojornalista

Dezanove anos depois do último congresso, os jornalistas portugueses voltam a juntar-se esta semana, em Lisboa, para discutir a profissão, os seus problemas e desafios. Com a crise económica, a quebra publicitária e os novos hábitos de consumo a alterarem radicalmente o contexto do sector, os jornalistas confrontam-se com novas realidades que colocam em causa a própria profissão. Pedro Jerónimo, jornalista, professor, investigador e um dos oradores no 4º Congresso dos Jornalistas, falou com o Expresso.

O triunfo da pós-verdade é um sinal de que o jornalismo está perder o desafio digital?
Eu não colocaria as coisas a esse nível. Não quero ser tão pessimista. Mas isso não significa que não reconheça que esse fenómeno de diluição das fronteiras entre realidade e ficção, verdade e mentira, tenha crescido significativamente. Isto não é propriamente uma novidade, sempre existiu, a diferença é que antes não ia muito além do domínio dos cafés, salvo seja. Atualmente, na era dos cafés 2.0, como são as redes sociais, tudo se comenta e partilha a uma escala e velocidade vertiginosas. É a cultura do like e do clickbait. E isso é um enorme desafio para o jornalismo, que está a ir na “onda” e a perder terreno.

As redes sociais são apontadas como impulsionadoras de um mundo em que os factos parecem cada vez menos relevantes na formação da opinião pública. O jornalismo e os media têm culpas nessa realidade?
Todos têm, mas no caso dos media noticiosos e do jornalismo a responsabilidade é acrescida. Porque a sua missão é procurar a verdade e publicá-la. Mas será que é isso que está a acontecer? Será que o público consegue destrinçar o que é fruto do jornalismo daquilo que não é? O que vemos é um constante apelo ao imediatismo, às emoções, que se sobrepõe aos factos. Há cada vez mais jornalismo de matilha, em que os media se seguem uns aos outros, sem confirmarem a veracidade do que o vizinho publica. A lógica do confirmar primeiro e publicar depois tem-se invertido com demasiada frequência.

Os problemas do jornalismo resultam mais da crise financeira do sector e da sucessiva precarização das redações ou da incapacidade de adaptar a profissão aos novos modelos de consumo de informação?
Resultam de tudo. A crise tem levado ao emagrecimento das redações, e com isso como fica o jornalismo? Menos jornalistas não fazem, garantidamente, mais e melhor jornalismo. Dou um exemplo: os media regionais. É um sector que sempre se tem debatido com dificuldades e ainda assim tem resistido. O que sucedeu nos últimos anos é que a intensidade da crise económica serviu para fazer uma triagem: uns meios fecharam, outros aí estão. E sabe quem é que mais tem resistido? Quem tem apostado no jornalismo. Ou seja, os conteúdos de qualidade ou diferenciadores.

Um terço dos portugueses consulta notícias nas redes sociais e há estudos que indicam que mais de 40% dos leitores online não sabem a origem das notícias que leem. Como devem os media lidar com isto?
A tendência é a fixação dos utilizadores no Facebook. Até mesmo quando os meios publicam apenas o link para o respetivo site, é frequente que os utilizadores coloquem gosto e partilhem ou até comentem no imediato, lendo apenas o título e o lead. Os media e os jornalistas devem ir contra a corrente. Sei que no contexto atual isso é quase utópico, mas é uma necessidade. Para informações na hora, até já temos robôs que fazem notícias. Agora para pesquisar, aprofundar, cruzar informação ou exercer contraditório, é preciso tempo. Hoje, mais do que nunca, são precisos jornalistas mais fiéis à ética e deontologia de sempre, do que às modas ou deslumbres do momento.

As redes sociais tornaram também o jornalismo muito mais escrutinado. A prazo isso fará melhorar o jornalismo?
Oxalá que sim! Faz falta que os escrutinadores da sociedade sejam eles próprios mais escrutinados. Desde logo porque antes de serem jornalistas são cidadãos. Nem todos os jornalistas lidam bem com a crítica. O mesmo sucede com os políticos. Mas também encontramos exemplos de quem lida bem com o escrutínio, de quem exerce a profissão de forma transparente e leal. Quantas mais pessoas se preocuparem com o que os jornalistas fazem, certamente mais próximos eles vão estar de serem melhores profissionais. E com isso ganhará o jornalismo e a sociedade.