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2017 tem feriados e pontes para dar e vender

tiago miranda

Ano generoso para o lazer e o descanso, 2017 oferece cinco pontes, com feriados nacionais às terças ou quintas-feiras e outros tantos fins de semana prolongados com feriados às sextas e segundas-feiras. O tempo livre não vai afetar a produtividade, mas vai custar quase 200 milhões à economia

Em 2017 a vida laboral dos portugueses vai ser mais leve. Os feriados e as pontes vão permitir que os 22 dias úteis de férias a que todos têm direito se possam a alargar a muitos mais dias de descanso. Pois é, este ano há cinco possibilidades de fazer ponte, com feriados nacionais a terem lugar a terças e quintas-feiras, e mais cinco feriados a calhar à segunda ou sexta-feira. Fins de semana prolongados e miniférias vão ser um elixir para os trabalhadores.

Em fevereiro, a terça-feira de Carnaval, seja ela definitivamente um feriado, como reclama o PCP, ou mantendo-se como tolerância de ponto, permite fazer a primeira ponte de quatro dias, de 25 a 28. Em abril, a sexta-feira santa, dia 14, dá azo ao habitual fim de semana prolongado, com o domingo de Páscoa a fechar o ciclo a 16. Avançando no calendário, mas ainda no mês de abril, o Dia da Liberdade pede também umas miniférias — acontece a uma terça-feira. Já em maio, o Dia do Trabalhador começa o mês com um fim de semana prolongado, calhando a uma segunda-feira.

Em junho, o Corpo de Deus celebra-se na quinta-feira, dia 15, mais uma ponte de quatro dias para a maioria dos portugueses e umas boas miniférias para os lisboetas que queiram descansar mais uns dias. É que dia 13, dia de Santo António, calha na terça-feira da mesma semana, por isso, com três dias de férias, podem gozar nove dias de lazer. Falando em feriados municipais, note-se que a 29 do mesmo mês, o São Pedro, numa quinta-feira, vai dar ponte aos concelhos de Évora e de Sintra. Já o São João, no Porto, calha no sábado, dia 24...

Em pleno verão, o 15 de agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora, é mais uma terça-feira. Em outubro, a Implantação da República permite mais uma ponte, uma vez que ocorre a uma quinta-feira. O Dia de Todos os Santos, a 1 de novembro, chega a meio da semana, numa quarta-feira, sendo contabilizado apenas como feriado.

Mas a fechar o ano, o mês de dezembro é pródigo em fins de semana prolongados. Dia 1, a Restauração da Independência é a uma sexta-feira, bem como o dia da Imaculada Conceição, a 8. E o Natal celebra-se numa segunda-feira.

Perante um calendário tão generoso vale a pena pensar antes de marcar as suas férias. Com jeitinho, o seu ano pode dar-lhe muito mais tempo livre do que imagina. Quer uma ajuda? Se gosta de calor, praia e sol opte pelas férias em junho e em agosto. Os seus 22 dias de férias aumentam num instante. Tire férias de 10 a 16 de junho e goze nove dias de descanso. Ainda lhe sobram 19 dias úteis. Aproveite e gaste nove dias, a começar a 14 de agosto e a acabar a 25 — terá 14 dias de lazer. Se precisar de mais tempo ao pé do mar, gaste mais cinco dias em agosto e só volte a trabalhar a 4 de setembro. Com os cinco dias úteis que ainda tem em carteira, sugerimos que aponte o resto das férias para outubro. Meta férias a 2 e regresse ao trabalho a 10 e desfrute de dez dias de bem bom.

Mas se preferir o frio, a lareira e as quadras familiares é melhor escolher tirar férias em abril e em dezembro. Faça o seguinte: comece por tirar férias a 17 de abril. Sugerimos que gaste nove dias úteis dos seus 22. E regresse a 2 de maio. Vai voltar ao trabalho com 18 dias de descanso bem aproveitados. Depois, volte a marcar férias de 5 a 22 de dezembro, gasta 13 dias e goza 21.

Outra opção ainda é mesmo ir tirando férias às pinguinhas e aproveitando todas as pontes e semanas com feriados. Ausenta-se mais vezes do trabalho mas não goza períodos prolongados de férias.

A PRODUTIVIDADE

Este aumento dos dias de lazer significa menos produtividade do trabalhador? Não necessariamente, responde o psicoterapeuta ocupacional Ricardo Vargas. De facto, diz o psicoterapeuta, “os feriados e as pontes não têm qualquer relação com a produtividade de cada indivíduo”. Primeiro, “porque não são dados pela empresa”. Em segundo, “porque não são um estímulo ou uma recompensa pelos resultados obtidos”, continua Ricardo Vargas. No entanto, o tempo livre acrescido e o bem-estar que lhe está subjacente podem mesmo aumentar a motivação dos profissionais. “Os trabalhadores cuja realização passa pela atividade profissional, ao vivenciarem mais tempo livre, tendem, como consequência, a fazer melhor e mais trabalho. Mas aqueles cuja atividade pessoal está no centro das suas vidas não verão no lazer um estímulo para produzir mais.” Num caso a recuperação de energia é aplicada no trabalho, no outro serve para equilibrar a vida pessoal.

Infografia CARLOS ESTEVES

Para o psicoterapeuta, o que faz com que o tempo de trabalho resulte em produtividade é sobretudo a forma como o processo produtivo está desenhado em cada empresa. Depende da qualidade do processo de gestão, das tecnologias de suporte e da cultura da empresa, ou seja, se valoriza o indivíduo ou o coletivo. Se estes processos não estiverem afinados, se se mantiverem “caducos” e baseados no sistema financeiro e salarial da empresa, e se resumem a sua atividade a processar valores e a preencher burocracia, a produtividade será sempre mais diminuta. A ideia da retribuição salarial por hora de trabalho, diz Ricardo Vargas, é uma noção que vem do século XIX.

“A maior parte das nossas empresas carece de boa gestão de recursos humanos. São empresas que medem o output por hora do trabalhador e esquecem que, para dar o salto em frente, precisam de saber gerir as potencialidades, ter uma noção das competências dos trabalhadores e dar-lhes formação”, adianta ainda Ricardo Vargas.

Duas pessoas que desempenhem a mesma função, na mesma empresa e durante o mesmo número de horas, nunca terão o mesmo nível de produção. Há uma que produz mais 30%, 40% ou 60% mais do que a outra, explica o psicoterapeuta. “É interessante refletir sobre o que faz com que alguém produza mais 60% do que outra pessoa.” A conclusão é normalmente o seu maior nível de competências de qualificações, o seu conhecimento.

No entanto, além disso, as técnicas que utiliza para planear o seu dia são determinantes, assim como a iniciativa que contraria a postura clássica do “quando me disserem o que é para fazer, eu faço”. Nos múltiplos fatores que determinam a produtividade de cada trabalhador há ainda a ter em conta a capacidade de concentração, que beneficia em muito o seu desempenho.

Criar as condições ideais para que a produtividade individual alcance os níveis mais altos é trabalho dos recursos humanos de cada empresa, uma produtividade que passa cada vez mais pela identificação de valores dos trabalhadores e não pelas horas e dias que trabalham, conclui Ricardo Vargas.

CUSTOS PARA A ECONOMIA

Mas é claro que um país parado perde dinheiro. A economia, estima-se, perde por cada dia sem trabalho uma verba na ordem dos 37 milhões de euros. Contas feitas, os feriados e pontes de 2017 vão custar quase 200 milhões de euros.

Os sectores da metalurgia, da metalomecânica, dos têxteis e afins são os que mais sofrem financeiramente com os dias de descanso. Já os sectores do turismo, hotelaria e restauração são beneficiados pela maior quantidade de dias de lazer. São ocasiões privilegiadas para as pessoas viajarem, pernoitarem e fazerem refeições fora de casa.

Tema quente e polémico é pois a colagem de feriados a fins de semana. Não está na agenda do Governo, mas o assunto já veio à baila no final do ano passado, colocando o ministro do Trabalho e da Segurança Social, Vieira da Silva, no topo da discussão, depois de este ter admitido que não se oporá à discussão da matéria se esse for o entendimento dos parceiros sociais.

A CGTP rejeita totalmente a revisão dos feriados. E a UGT diz ter uma posição de princípio contrária à alteração das datas de celebração dos dias feriados, mas apresenta-se disponível para discutir a matéria em sede de concertação social. Já as confederações que representam as entidades patronais (CIP, CPP) veem com bons olhos o regresso ao debate.

Artigo publicado na edição dso EXPRESSO de 7 de janeiro de 2017