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Mudar de vida por Deus

MUDANÇA. Fernando Ribeiro que deixou Engenharia Agrária para se dedicar aos jesuítas

marcos borga

No dia em que é apresentado o mais recente filme do realizador norte-americano Martin Scorsese, “Silêncio”, centrado na odisseia de dois padres jesuítas portugueses no Japão, no século XVII, reproduzimos o artigo publicado no Expresso de 8 de agosto de 2015 sobre jovens portugueses que dedicaram recentemente as suas vidas à Companhia de Jesus. São cada vez menos, mas a variedade de percursos académicos, o silêncio e a capacidade de mudar a sociedade ainda atraem

Antes de entrar para a Companhia de Jesus, Duarte tocou na primeira parte de um concerto dos Azeitonas. Fernando deixou Engenharia Agrária, Pedro trocou a economia orientada para o lucro pela ideia da partilha. E João pensou que, para ser padre, teria de abandonar a Faculdade de Belas Artes, mas, afinal, a ordem religiosa precisava de um padre escultor.

Num tempo em que as notícias são a diminuição das vocações - em média, a cada ano, são ordenados metade dos padres que morrem - há jovens que, mesmo com caminho profissional aberto, optam pelo sacerdócio. Não querem paróquias nem a pura contemplação. Na rua, passam incógnitos, de polo de cores garridas e calças de ganga. São sacerdotes jesuítas, mas não se importam de ser tratados pelo primeiro nome.

"Chama-me Pedro!". Pedro McDade, 41 anos, conta que estudou Economia, no Porto, e desenhara um plano de carreira claro: "Ganhar dinheiro." Começou na banca, Santander e Barclays, com a tarefa de analisar o risco, ou seja, encontrar razões para que não emprestassem dinheiro a quem lhes pedia. Passou por uma empresa, até que, com 27 anos, "a comida perdeu o sabor" e foi assaltado por grandes dúvidas. Os amigos estavam a casar-se mas Pedro não percebia o que o preencheria.

PEDRO MCDADE. Aos 27 anos, “a comida perdeu o sabor”

PEDRO MCDADE. Aos 27 anos, “a comida perdeu o sabor”

marcos borga

"Nunca fui convidado a entrar para a Ordem e ainda bem, caso contrário teria fugido", confessa. Confrontou-se com a ideia do sacerdócio e decidiu recomeçar: "Foi a melhor decisão da minha vida." Desde então, com a Companhia de Jesus, já visitou quase todos os continentes e viu potenciadas as capacidades intelectuais.

Estuda Ética da Economia, no âmbito do doutoramento de Teologia na Universidade de Warwick - "é importante que tenhamos pessoas, com um pé na doutrina social da Igreja, capazes de dialogar com as forças económicas" - e participa no projeto de revitalizar a "Brotéria", revista cultural da Ordem.

A capacidade de aproveitar os percursos académicos dos candidatos estará na origem do interesse de alguns jovens pela Companhia. Em 2014, foram ordenados em Portugal seis padres da Ordem, o dobro deste ano. Existem 18 mil jesuítas,160 são portugueses e, destes, 23 estão em formação. "Se todos os anos ordenássemos três sacerdotes seria ótimo. Houve anos em que não ordenámos ninguém", confessa Miguel Almeida, delegado da provincial para os jesuítas em formação. O "efeito-Francisco" - aumento de vocações na sequência da eleição do primeiro Papa jesuíta - não se fez sentir e nem a crise económica empurrou mais candidatos para o sacerdócio.

Questionado sobre a influência do percurso académico na opção pelo sacerdócio, o reitor do Seminário Maior de Lisboa, com responsabilidades na seleção e formação dos candidatos do Diaconado Permanente e na animação vocacional do Patriarcado de Lisboa, responde que "a profundidade e as decisões de fé não dependem da literacia".

José Miguel Pereira explica que "nos tempos de hoje, onde o exercício do ministério sacerdotal tem exigências maiores no diálogo com a cultura e no acompanhamento de muito mais pessoas com formação escolar e académica, a literacia acaba por condicionar tanto o itinerário de formação como a aferição das reais capacidades para abraçar a vocação sacerdotal".

A idade mínima para entrar na Ordem são os 18 anos e os candidatos com mais de 50 são aceites com autorização superior. Até serem ordenados, terão de passar, em média, por 12 anos de formação. O primeiro passo são dois anos de noviciado, em Coimbra.

Depois, fazem os votos perpétuos de castidade, pobreza e obediência. Assumido o compromisso, o destino é Braga, onde, durante três anos, estudam Filosofia e, depois, poderão ser enviados em missão para qualquer lugar do mundo. "Este ano, temos pessoas em Timor e na China", explica Miguel Almeida, ex-profissional de Marketing e Publicidade. Serão professores de Moral ou Filosofia.

MIGUEL ALMEIDA. “Temos pessoas em Timor e na China”

MIGUEL ALMEIDA. “Temos pessoas em Timor e na China”

marcos borga

Até aqui, a formação leva o mesmo tempo que a dos padres diocesanos, mas os jesuítas terão de enfrentar novo curso, desta vez, em Teologia, fora do país e dividido em dois ciclos: Madrid, Roma ou Paris, no primeiro, e Boston, Paris ou Londres, no segundo. Antes de serem ordenados, por duas vezes, terão de confrontar-se com os exercícios espirituais de um mês de silêncio, criados pelo fundador, Inácio de Loiola.
Estarão então aptos a fazer os votos solenes, em que, além dos perpétuos, assumem a obediência direta ao Papa, característica da Companhia, e prometem não aceitar cargos em hierarquias civis ou eclesiásticas, a menos que assim lhes seja destinado.
Fernando Ribeiro é padre jesuíta há menos de um mês, foi um dos três sacerdotes ordenados em 2015 pela Companhia de Jesus em Portugal. Tem 44 anos e a sua formação sacerdotal começou há 11 e ainda não terminou.

Nasceu em Vila Nova de Famalicão e estudou Engenharia Agrária em Viana do Castelo. "Não tinha um projeto de vida claro. Nunca pensei enriquecer e preocupava-me com a relação do homem com a natureza, com o desenvolvimento e a sustentabilidade", conta. Aos 24 anos, enfrentou "uma falta de encontro" consigo mesmo e concluiu que a ideia de Deus "não fazia sentido", até que um anúncio num jornal lhe abriu uma porta. A organização católica Leigos para o Desenvolvimento propunha dois anos de voluntariado em África, o que lhe pareceu uma saída para a "tristeza profunda" que sentia. No dia em que Amália morreu, partiu para Angola, onde deu aulas de Biologia e trabalhou com deslocados de guerra, mas a volta a Portugal trouxe-lhe a dúvida: "E agora?". Aos 32 anos percebeu que "precisava de entregar a vida ao outro".

A opção pela Companhia de Jesus foi simples: "Eram pessoas normais, abertas, que me mostraram que não teria de perder a identidade, pelo contrário, esta seria potenciada". Falta-lhe concluir o curso de Teologia, os primeiros três anos foram em Roma e os últimos levaram-no a Comillas, Espanha. Fernando não faz ideia onde estará no próximo ano, tudo depende da sua "conta de consciência" com o provincial - longa conversa anual que todos os jesuítas têm com o superior nacional. Mas sabe que as inquietações ambientais não serão apagadas, mas colocarão o trabalho sacerdotal no centro do seu percurso, "em coerência com as preocupações do Papa Francisco, autor da primeira encíclica dedicada ao ambiente".

Da banda para o altar

A contagem decrescente para a ordenação de Duarte Rosado já começou. Se tudo correr bem, no ano que vem, a 29 de março, passará a diácono e poderá administrar os sacramentos do batismo e do casamento, mas ainda não poderá confessar nem celebrar missas. Padre, em plenitude, só em 2017. Com 29 anos, Duarte vive este período com grande intensidade, mas reconhece que esta não é uma decisão fácil. Quando contou aos pais, "a mãe sorriu, o pai pediu tempo para se acostumar à ideia". Estudou Psicologia, no Porto, sem convicção, e no Youtube ainda se encontram vídeos do tempo em que cantava canções românticas numa banda.

Desde os nove anos que participa em campos de férias jesuítas, mas, confessa, o sacerdócio esteve sempre longe das suas opções. "Achava que estava bem resolvido com a minha existência, mas, há dez anos, à saída de um acampamento, coloquei-me a 'pergunta proibida': 'Senhor, o que queres de mim?'". Duarte conta que a resposta veio com simplicidade: "Sê jesuíta." Já fez os dois anos de noviciado, quando passou por um retiro de silêncio, viveu num hospital psiquiátrico, numa comunidade terapêutica para toxicodependentes, fez voluntariado no Algarve e trabalhou num bairro problemático na margem sul de Lisboa.

Partiu como peregrino a Fátima, sem dinheiro ou pouso certo, sem poder aceitar dinheiro nem dizer que era jesuíta: "Nunca me faltou comida nem teto para dormir." Em Braga estudou Filosofia e fez os votos perpétuos. Agora, Duarte está em Roma, estuda Teologia com mais 57 rapazes de todo o mundo e conta o tempo até ser ordenado. Na Companhia, não há profissões proibidas. João Sarmento prepara-se para ser jesuíta e nos seus sete anos na Ordem já teve tempo para conhecer até um padre espanhol que fazia malabarismos.

Ele próprio tem uma origem académica pouco comum. Quando, aos 20 anos, decidiu ir para o sacerdócio, cumpria o sonho de infância: estudar escultura na Faculdade de Belas Artes do Porto.

A beleza salva?

A mudança de rumo deu-se na sequência de uma prenda de aniversário: um retiro de três dias em silêncio. Até então "era um católico mais ou menos praticante que não tinha encontrado o lugar na salada de frutas que é o grande universo da Igreja Católica".

Mas, naqueles dias, viu "a vida passar à frente dos olhos, de forma renovada" e a força da experiência obrigou-o a tomar uma decisão, que "não foi rápida nem simples". Sempre se vira casado, com filhos, escultor. Sem nenhuma crise existencial, passou a ver-se "a fazer algo pelos outros" e, para cumprir este objetivo, entrou para a Companhia.

Deixou o curso de Belas Artes e foi estudar Filosofia, como manda a Ordem, mas, recentemente, foi surpreendido porque foi-lhe recomendado que retomasse o estudo de escultura. Ainda lhe faltam cinco anos para ser ordenado, mas João não tem pressa enquanto trabalha com a comunidade de Rabo de Peixe, nos Açores.

Reconhece que os jesuítas têm "uma forma profissional muito particular de viver o sacerdócio, que pode ser estranha a alguns", mas explica que tal se deve à opção de "ir ter com as pessoas onde elas estão e falar-lhes nas línguas que elas falam porque nada que esteja fora da sacristia está vedado à Igreja". Quanto à escultura, não sabe se a beleza salva, mas lembra que "há muita gente, com pão na barriga que não está feliz".

HISTÓRIA

Origem
Antes de assumir dimensão institucional, a Companhia de Jesus surgiu da experiência de amizade de um grupo de sete estudantes que se conheceu na Universidade de Paris, no século XVI. Inácio de Loyola, Francisco Xavier e o português Simão Rodrigues foram alguns dos membros iniciais da Ordem, que foi reconhecida como tal pelo Papa em 1540. Na altura, ainda não existiam seminários com o formato atual

Objetivos
O espanhol Inácio de Loyola desenhou a Companhia de Jesus com algumas características específicas, e além da obediência direta ao Papa e da decisão de não aceitar cargos em hierarquias civis ou religiosas quis que a Ordem ficasse marcada pela forte mobilidade apostólica na geografia e pela grande variedade dos apostolados (formas de evangelização)

A Companhia
A Companhia de Jesus tem cerca de 18 mil sacerdotes espalhados pelo mundo, presentes em 112 países, é responsável por mais de 3700 instituições de ensino, entre colégios e universidades. Há três colégios em Portugal (Lisboa, Santo Tirso e Coimbra) e uma Faculdade de Filosofia em Braga. Com o ensino, a Ordem chega a cerca de 2,5 milhões de jovens. Está dividida em províncias, geridas por provinciais, e Portugal foi a primeira província da Companhia em todo o mundo

Refugiados
Em 1980 foi criado o Jesuit Refugee Fund (JRS) para acompanhar, servir e defender os refugiados. Está presente em 50 países e já acompanhou mais de 50 mil migrantes, com uma equipa de cerca de 1400 colaboradores, muitos dos quais voluntários

NÚMEROS

2

Há atualmente em Portugal dois noviços jesuítas e 21 em formação com vista ao sacerdócio

23

Nos últimos dez anos foram ordenados 23 sacerdotes jesuítas em Portugal, todos com mais de 30 anos. A idade média dos padres da Ordem no país é de 63,8 anos

2659

O último "Anuário Católico de Portugal", publicado em 2014 com dados relativos ao fim de 2012, revela que havia 2659 padres diocesanos no país, menos 7,6% do que em 2009

941

O mesmo documento refere como existindo 941 sacerdotes do clero religioso, das várias ordens no país, e 165 seminaristas de Filosofia e Teologia