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Caso dos Comandos. General mandou cancelar a Prova Zero mas os exercícios continuaram

Tiago Miranda

O Comandante das Forças Terrestres garantiu ao DIAP ter dado ordens para cancelar a instrução depois da morte de Hugo Abreu. Mas na manhã seguinte, os instruendos do curso 127 foram sujeitos a exercícios, ainda que mais ligeiros. Nessa segunda-feira, cinco formandos foram internados no Hospital das Forças Armadas. Justiça investiga se houve desobediência e Exército não comenta o caso

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

A procuradora Cândida Vilar, do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa, recebeu o depoimento do tenente-general Faria Menezes por carta, há duas semanas. O Comandante das Forças Terrestres tinha sido chamado para ser ouvido, como testemunha, no inquérito às mortes dos dois instruendos do curso 127 dos Comandos, mas optou por fazê-lo por escrito, algo a lei o permite dada a posição que ocupa na hierarquia militar.

Na carta, Faria Menezes garantiu ao Ministério Público que mandou suspender todas as atividades físicas do curso para o dia seguinte à morte do furriel Hugo Abreu, a primeira vítima mortal no Campo de Tiro de Alcochete, num domingo em que as temperaturas atingiram os 40 graus. “Sem prejuízo da continuação do 127º curso de Comandos, decisão a avaliar posteriormente pelo Comando do Exército, cancelei toda a instrução prevista em horário do dia seguinte (5 de setembro de 2016), resultando assim no encerramento definitivo da Prova Zero”, escreveu o general na carta de 5 páginas.

O militar, que faz parte da entidade que comanda o Regimento de Comandos e supervisiona o desempenho destas tropas especiais do Exército, liderou a reunião de emergência que ocorreu no campo de tiro, já de madrugada e poucas horas após a morte do jovem de 20 anos e onde também participaram outros oficiais do Exército como o coronel Dores Moreira (comandante do Regimento de Comandos), o tenente-coronel Maia (diretor da Prova Zero e constituído arguido no caso), o capitão Monteiro (comandante da companhia da formação) e o segundo médico do curso, o capitão João Aniceto.

Segundo o Expresso apurou, na manhã de segunda-feira, menos de 24 horas depois do óbito de Hugo Abreu, os instruendos do curso foram sujeitos a pelo menos duas instruções, entre elas ginástica educativa e técnicas de Combate I, que passa por exercícios de progressão no terreno. São todos considerados “exercícios físicos ligeiros”.

Apesar disso, e face às temperaturas altas que continuavam a fazer-se sentir em Alcochete, foram internados nesse dia cinco formandos no Hospital das Forças Armadas. Nenhum fazia parte do grupo de 22 militares assistidos em simultâneo no domingo anterior na tenda da enfermaria dos Comandos em Alcochete.

O DIAP de Lisboa e a PJ Militar estão agora a apurar se houve a prática de um crime por parte dos responsáveis da prova. “Pode estar em causa um crime de desobediência”, garante uma fonte da investigação.

Contactado pelo Expresso, o gabinete de comunicação do Exército, afirma que “considerando que a questão foca assunto ainda em investigação, o Exército não comenta”.

Para o médico João Aniceto, os instrutores estavam “em tolerância zero” de modo a que não se repetissem os erros do dia anterior. No depoimento à PJ Militar, o médico considerou que “não existiam condições clínicas para prosseguirem as provas, face às condições climatéricas adversas”.

Um dos advogados deste processo-crime, que preferiu o anonimato, garante que “não houve desobediência” ao general já que “não foi seguido o guião da Prova Zero”, que passava naquele dia por “exercícios muito duros”. Em vez disso, garante, os responsáveis da prova concordaram que algumas provas mais leves “não fariam mal a ninguém”. Além disso, “não faria sentido levantar o bivaque na noite da morte de Hugo Abreu”, garante. Em vez disso, os instruendos desmontaram as tendas e infraestruturas do curso no final da manhã e regressaram ao Regimento dos Comandos na Carregueira nesse mesmo dia.

  • Mais do que permitia a força humana

    O Expresso esteve lado a lado com os recrutas do 127º Curso dos Comandos. Dos 67 homens que começaram, apenas 23 resistiram. Dois morreram. Durante mais de 12 semanas, foram levados além do limite. Mais do que permitia a força humana Neste fim de semana em que nos despedimos de um ano e nos preparamos para outro, o Expresso republica histórias, reportagens, conversas, narrativas, dúvidas, considerações, certezas e revelações que fizeram de 2016 um ano preenchido. Todos estes artigos são publicados tal como saíram inicialmente