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Arquitetos “assaltam” como Robin dos Bosques em busca da história perdida

Paulo Duarte

Arquitetos e investigadores da Universidade do Porto “invadem” edifícios para divulgar a riqueza histórica e arquitetónica de espaços anónimos. O Expresso acompanhou mais um destes assaltos

Um grupo de investigadores e docentes da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP) anda a promover “assaltos”. Mas não se assuste. O caso não é para alarme. Trata-se de uma ação para resgatar a importância histórica de espaços devolutos e anónimos para grande parte dos portuenses. Todos em vias de serem reconvertidos, com o apetite pelo turismo a assumir um papel preponderante na transformação que toma conta da cidade. Durante esta quarta-feira, estes “Robin dos Bosques” do imaginário da Invicta, como se assumem, invadiram uma casa burguesa na Rua de Cedofeita e o Expresso esteve no local de mais uma investida.

O “AsSALTO” surgiu em 2016, inserido no projeto de investigação “A Coleção de Desenhos, Escola de Arquitetura do Porto”, promovido pelo Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo da FAUP.. A coordenação conjunta da iniciativa fica a cargo de Noémia Herdade Gomes, pintora e professora na referida faculdade, e dos arquitetos Carlos Machado e Moura e Rui Neto.

Já com as portas desta casa tradicional do Porto burguês escancaradas, os dois “assaltantes”, Carlos e Rui, convidam os curiosos a entrar e descobrir o edifício de cinco pisos, reconstruído em 1910 pelo conselheiro Eduardo Honório de Lima, reputado industrial da cidade e bisavô de Jorge Nuno Pinto da Costa. Pelo meio, o casa também já albergou o Centro de Cultura e Desporto dos Trabalhadores da Administração Regional de Saúde do Porto, que efetuou várias mudanças arquitetónicas no espaço.

Paulo Duarte

“É aqui o assalto” e esteja à vontade

“É aqui o assalto?”, interroga alguém ao chegar. “É, sim, esteja à vontade”, responde Rui Neto, ao entregar uma folha em branco para que os visitantes possam desenhar e escrever sobre a emblemática e outrora nobre residência, atualmente vetada ao esquecimento. Rui e Carlos até estão a ver a importância histórica do edifício, mas ainda assim pedem para que lhes façam um desenho. “Preferimos a escrita e o desenho como forma de olhar para as coisas com tempo, em contraponto com as fotografias que tirámos rapidamente com o telemóvel sem sedimentar”, conta Carlos ao Expresso.

Depois de terem irrompido num prédio de estilo modernista, edificado nos anos 40 na Rua Sá da Bandeira, e num consultório de oftalmologia de 1927, na Rua Miguel Bombarda, esta foi a terceira incursão destes ávidos “cartógrafos” do património de várias épocas, como se descrevem.

Responsáveis por um projeto destinado para jovens arquitetos, mas também para o público em geral poder descobrir espaços que não sejam sobejamente conhecidos, em favor de monumentos ou pontos turísticos. “O objetivo é fazer com que a investigação não fique fechada na faculdade e condenada a ir para as prateleiras da biblioteca”, começa por explicar Carlos Machado e Moura, para quem o nome da iniciativa com uma componente “clandestina e informal” tem alguma ironia.

Paulo Duarte

“É inegável que há um assalto ao património do Porto. Assistimos a um conjunto de transformações, fundamentais para a economia da cidade, mas que são demasiado apressadas e não dão a devida à importância a elementos patrimoniais”, frisa o arquiteto e investigador.

Reconverter para turismo, mas manter a essência

Os “assaltos” podem ser propostos pela própria equipa ou podem ter como cúmplices os próprios proprietários dos espaços. Ali presente, entusiasmada, está a atual anfitriã da casa, que a adquiriu em 2014 e que no verão de 2018 já deverá estar transformada num complexo de apartamentos para aluguer de curta duração a turistas.

“Logo na primeira visita que aqui fiz fiquei fascinada com a quantidade de pormenores, como as cerâmicas, os tectos ou o jardim de inverno. Tudo isso me apaixonou”, explica Abília Azevedo que comprou o imóvel por um valor a rondar o meio milhão de euros. “Trazer para este século as memórias deste edifício” é o objetivo da proprietária de 51 anos.

Paulo Duarte

Uma das muitas pessoas curiosas que deambula pelo edifício é uma senhora de 63 anos, Maria Aurora Junqueira , maravilhada com tudo o que vê, apesar da degradação. Percorrer as amplas e luminosas salas que lembram outros tempos ou deparar-se com as imponentes escadarias remetem-na para um universo de saudade. “Há coisas que o dinheiro não consegue pagar”, afirma, enquanto manifesta a vontade de que, no futuro, se “respeite a alma e a essência” da construção.

Também o responsável Carlos Machado e Moura alerta para a necessidade de respeitar o legado e o património arquitetónico. “Aquilo que o Porto tem de melhor para oferecer são os espaços que determinam a identidade da cidade e não aquilo que as pessoas também podem ver em Zurique ou em Nápoles”, vinca o investigador.

O próximo “assalto” já tem local e hora marcada, para que ninguém seja apanhado desprevenido, e decorrerá a 13 de fevereiro, entre as 9h e as 12h30, num estabelecimento comercial (n.º14-22) localizado na Praça dos Leões, no Porto.