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Jornalista de “O caso Spotlight” só escreve com documentos e fontes citáveis

MIGUEL A.LOPES/Lusa

Michael Rezendes, o lusodescendente que participou na investigação à pedofilia na Igreja Católica, em Boston, espelhada no filme “O caso Spotlight”, afirmou esta quinta-feira, na abertura do 4º Congresso de jornalistas, em Lisboa, que nunca avança com uma notícia que não tenha por base documentos. O jornalismo de investigação é rentável, defendeu

"Nunca escrevo nada sem documentos. Nunca escrevo nada com base em fontes anónimas", afirmou o jornalista do "The Boston Globe", esta quinta-feria em Lisboa, na abertura do 4º Congresso de Jornalistas, a decorrer no São Jorge até ao dia 15 de Janeiro.

Michael Rezendes era um dos quatro jornalistas da equipa de investigação do "The Boston Globe", que em 2002 revelou os casos de pedofilia na Igreja Católica, praticados por membros desta comunidade, naquela cidade conservadora norte-americana, e durante anos encobertos, inclusive pelos media. "Não devemos publicar nenhuma informação sobre a qual não tenhamos a certeza", frisou o jornalista de investigação, prémio Pulitzer de Serviço Público em 2003. Até porque explicou com a investigação envolve sempre temas sensíveis tem de ser inatacável.

"Nunca publico nada sem documentos, mas isso não quer dizer que não fale com as pessoas. Eu quero ouvir todas as pessoas, todos os rumores. É importante desenvolver relações com fontes", precisou depois Michael Rezendes, em resposta a uma estudante de jornalismo presente no Congresso. É fundamental, esclareceu o jornalista lusodescendente, desenvolver e aprofundar relações com fontes, com pessoas que estão em contato direto com os assuntos e que possam contar histórias e dar acesso a informação.

Rezende, 62 anos, acrescentou ainda que nunca se envolve numa investigação que afete uma só pessoa, mesmo que tenha simpatia pela história. O seu objectivo, esclareceu, é sempre investigar assuntos que sejam sistémicos para a sociedade e afetem um conjunto de cidadãos, também porque uma investigação envolve vários meses. "Só investigo histórias que sejam sistémicas para a sociedade e que sejam importantes do ponto de vista do serviço público", sublinha.

Michael Rezendes defendeu também, perante a sala principal do São Jorge repleta de jornalistas, que o jornalismo de investigação é rentável, porque as pessoas querem e gastam mais tempo a ler as notícias mais aprofundadas e de marcado interesse público. E estão dispostas a pagar por elas. "O jornalismo de investigação tem importância económica, porque faz aumentar as subscrições", defende. A título de exemplo explicou que a equipa de investigação do "The Boston Globe" aumentou de quatro para oito jornalistas com a publicação da história sobre a pedofilia na Igreja Católica. E acrescentou que as métrica usadas para medir o interesse dos leitores mostra que o tempo que passam a ler notícias de iinvestigação é muitíssimo superior ao que gastam nas outras.

E quais são as características de um jornalista de investigação? "Tem de ser um bom ouvinte e ter uma enorme curiosidade. Tem de estar ali porque se importa com a defesa do interesse público, e tem de ter a capacidade de se indignar com o que a história que lhe está a ser contada, é essa motivação para avançar", sublinhou Michael Rezendes.