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Morreu o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman

TONI ALBIR/EPA

Nasceu na Polónia, viveu na Rússia, Israel e EUA, mas foi em Leeds, no Reino Unido, que se fixou. É o criador do conceito de “modernidade líquida” que define as ligações entre as pessoas nos tempos atuais. Sobre isso disse, em entrevista ao El País que “tudo é mais fácil na vida virtual, mas perdemos a arte das relações sociais e da amizade”. Tinha 91 anos

O sociólogo e filósofo polaco Zygmunt Bauman morreu esta segunda-feira, aos 91 anos, noticiou o jornal polonês Gazeta Wyborcza. Segundo a socióloga polaca Aleksandra Kania, sua antiga colaboradora, Baukan morreu "na sua casa de Leeds, junto à família", cita a Lusa.

Considerado um dos principais pensadores do século XX, Bauman foi o criador do conceito de “modernidade líquida”, nos anos 90, que aliás é o título de uma das suas muitas obras. Para ele, este conceito é o que melhor define as ligações entre as pessoas nos tempos atuais, muito marcados pelo fenómeno da internet e das redes sociais virtuais. Ou seja, para Bauman, as relações são cada vez menos duradouras e frequentes e existe uma fluidez do tempo e da identidade que faz com que as relações entre indíviduos seja fraca, tornando mais fáceis as separações.

Aliás, apesar da sua idade avançada, Bauman foi sempre atento à modernidade. O El País reuniu uma série de frases suas, retiradas de várias entrevistas que fez ao sociólogo e filósofo, e muitas se referem à vida virtual e às redes sociais.

1. “As redes sociais são uma armadilha”

2. “Tudo é mais fácil na vida virtual, mas perdemos a arte das relações sociais e da amizade”

3. “Esquecemos o amor, a amizade, os sentimentos, o trabalho bem feito. O que se consome, o que se compra, são apenas sedativos morais que tranquilizam seus escrúpulos éticos”; “Os grupos de amigos ou as comunidades de bairro não te aceitam sem dar razão, mas ser membro de um grupo no Facebook é facílimo. Você pode ter mais de 500 contatos sem sair de casa, você aperta um botão e pronto”.

E outras que se referem à atualidade:

4. “O movimento [espanhol] de 15 de março é emocional, carece de pensamento”.

5. “A possibilidade de que o Reino Unido funcione sem a Europa é mínima” (disse em 2011, muito antes do Brexit se concretizar em 2016).

Bauman ficou ainda conhecido pelos pensamentos sobre o trabalho e a precariedade, assumindo-se como defensor dos pobres. Aliás, foi um dos estudiosos da qualidade de vida e de como se chegar a ela num mundo globalizado e onde impera o capitalismo.

A esse propósito, o El País destaca também algumas das suas frases:

7. “O velho limite sagrado entre o horário de trabalho e o tempo pessoal desapareceu. Estamos permanentemente disponíveis, sempre no posto de trabalho”

8. "Foi uma catástrofe arrastar a classe média à precariedade. O conflito não é mais entre classes, é de cada um com a sociedade”

9. “As desigualdades sempre existiram, mas de vários séculos para cá se acreditou que a educação podia restabelecer a igualdade de oportunidades. Agora, 51% dos jovens diplomados estão desempregados e aqueles que têm trabalho têm empregos muito abaixo das suas qualificações. As grandes mudanças na história nunca vieram dos pobres, mas da frustração das pessoas com grandes expectativas que nunca se cumpriram”.

Quem era Bauman?

Zygmunt Bauman nasceu em Poznan, na Polónia, a 19 de novembro de 1925, no seio de uma família judia.Em 1939, com o início da II Guerra Mundial, mudou-se para a antiga União Soviética, em fuga às forças nazis de Hitler. Alistou-se no exército polaco, que se aliou à frente russa, e acabou por regressar ao seu país, no final do conflito, tornando-se professor de Filosofia e Sociologia na Universidade de Varsóvia.

Contudo, a sua ligação ao Partido Comunista, onde se filiou aos 19 anos e ao qual se manteve ligado até 1967, tornou-o alvo de perseguição política durante 15 anos, tendo de deixar a universidade e sido proibido de publicar livros, atividade qie iniciou logo nos anos 50. Aliás, em 1968, Bauman e a mulher, Janina, perderam o trabalho na Polónia e partiram para o exílio, em Israel, onde o filósofo passou a lecionar na Universidade de Telavive.

Seguiu-se o ensino em universidades dos Estados Unidos e Canadá, antes de se fixar no Reino Unido, em 1971, acabando por entrar no corpo docente da Universidade de Leeds, onde deu aulas durante mais de 30 anos.

A carreira de escritor

A carreira de escritor de Bauman começou nos anos de 1950 e ficou caraterizada por uma sociología crítica que abordava temas como as classes sociales, o socialismo, o Holocausto, a hermenêutica, a modernidade e a pós-modernidade, o consumismo e a globalização.

Em Portugal tem várias obras publicas pela Relógio d'Água, nomeadamente "Confiança e medo na cidade", "Cegueira moral", "Estado de crise" (com Carlo Bordoni), "A vida fragmentada", assim como "A sociedade sitiada", pelo Instituto Piaget.

Entre os seus livros destacam-se ainda "A modernidade líquida" (2004), "Amor líquido: acerca da fragilidade dos vínculos humanos" (2005), "Europa, uma aventura inacabada" (2006), "Ética pós-moderna" (2006), "Tempos líquidos" (2007), "Vida de consumo" (2007) e "Liberdade" (2008).

No seu último livro, "Viver com o tempo emprestado", que publicou em 2009, analisou o estado atual e os desafios que enfrenta o mundo globalizado, em que tudo - a natureza, o ser humano - se converteu em mercadoria.

A crise dos refugiados, a perda de direitos e a construção de muros nas fronteiras, em vez de pontes, dominam o último ensaio de Bauman, publicado no final de 2016, "Estranhos batendo à porta", no qual analisa o impacto das atuais vagas migratórias. Nessa obra, Bauman culpa os políticos que se aproveitam do medos dos “deserdados e dos pobres” e assegura que a política de construção de muros está destinada a fracassar a longo prazo.

Entre outras distinções, Bauman foi galardoado com o prémio Amalfi de Sociologia e Ciências Sociais (1992), o prémio Theodor W. Adorno (1998) e venceu ainda o prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação em 2010.