Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

O ano em que o Sol vai girar em torno da Terra

d.r.

Eis o resumo do futuro do mundo: terrorismo, crise dos refugiados, ressurgimento da xenofobia, protecionismo comercial, aparente escalada nuclear e implosão dos sistemas partidários. E algo de bom? Sim, claro. Vamos estar longe de tudo isto. Como sempre estivemos

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Ser português em 2017 pode ser um pouco como estar numa festa de passagem de ano em que não se passa nada de muito extraordinário, com a certeza de que lá fora é que está tudo a acontecer, numa mistura extrema de euforia e desvario, animação desenfreada e ressacas imensas. Por um lado, temos a convicção de que, no sítio onde estamos, a nossa vida segue sem grandes sobressaltos ou agitações, com uma estranha, mas precária, sensação de segurança. Por outro lado, sabemos que o que nos rodeia — Europa, mundo, avanços tecnológicos e científicos, tendências demográficas e choques económicos — está a mudar de forma extraordinária, com tudo a ser posto em causa rápida, inesperada e inexoravelmente.

Qual é o melhor sítio para se assistir a uma revolução? O centro dos acontecimentos, uma sala de comando, uma bancada com vista ou algum lugar mais recatado, onde as notícias do mundo nos chegam a grande velocidade, mas onde a vida parece mudar devagar? Se gosta mais da última hipótese, então está no lugar certo. Para o bem e para o mal contamos pouco e Portugal continuará a ser notícia pelo crescimento do turismo, pelo número de estrangeiros que cá compram casa, pelos estudantes vindos de outras paragens, pelo aparente multiculturalismo, pela falta de tensões religiosas. E, claro, por ter o melhor jogador de futebol do mundo, o Presidente que tira selfies com tudo e todos, o novo secretário-geral das Nações Unidas, a Web Summit e o Papa em Fátima.

Não são coisas más para sermos falados ou conhecidos. De todos os temas dramáticos e incertezas que assolam o mundo — do terrorismo à crise dos refugiados, do ressurgimento da xenofobia ao protecionismo comercial, da aparente escalada nuclear à implosão dos sistemas partidários —, nós parecemos escapar a quase tudo. Pelo menos, parecemos escapar à primeira vaga dessas mudanças mundiais. Das grandes alterações e crises do mundo ocidental, Portugal continua a ser um dos campeões num único sector, o dos países altamente endividados e com crescimento baixo da zona euro, uma “subespécie” outrora próspera, mas que passou a ser considerada em vias de extinção na ressaca da crise financeira de 2008.

Os anos passam, mas o lastro dessa longínqua crise financeira continua bem presente debaixo dos nossos pés e a ameaçar fazer o céu cair sobre as nossas cabeças. Em certas datas ficamos a olhar para o que a DBRS diz sobre nós. É meio bizarro que o futuro de um país esteja dependente do que decreta uma pequena agência de rating canadiana, mas a arquitetura do euro assim o determinou. O BCE só pode comprar dívida que tenha o selo mínimo de garantia e esse selo é da responsabilidade de quatro agências. Três não acreditam em nós, mas uma — a DBRS — vai optando pelo benefício da dúvida. Enquanto isso acontecer, o barco vai andando, navegando à vista, sem poder escolher rotas de longo prazo, mas avançando e sem afundar. Foi isso que vimos e vivemos em 2016 e, com bastante probabilidade, é o que veremos e viveremos em 2017.

É muito inspirador ou mobilizador viver assim? Não. Diz-nos algo de muito concreto sobre o que pode ser Portugal a médio prazo? Também não. Mas as coisas são o que são, e foi este clima que marcou a política e a sociedade portuguesa em 2016 e deverá prosseguir em 2017, até ao momento que haja um escândalo político ou algo falhe numa de duas equações: a que liga o BCE e a DBRS ao nosso serviço de dívida ou a que amarra o Governo minoritário do PS aos partidos que o suportam à sua esquerda. Muitos políticos e comentadores atravessaram 2016 a antever quebras nestas duas frentes e é natural que o continuem a fazer em 2017. Mas não se vislumbram sinais graves de alerta em nenhuma das equações que fizeram Portugal girar no ano que agora termina.

Eppur (non) si muove

A normalização foi a grande mudança na política portuguesa de 2016. É estranho aplicar o termo “normalização” a algo que decorreu de um processo que conteve duas “anormalidades”, inéditas na jovem democracia portuguesa: primeiro, a coligação que venceu eleições não conseguiu fazer passar o seu governo no Parlamento; segundo, o Partido Socialista decidiu negociar à esquerda a passagem de um governo minoritário, apoiando-se no Bloco de Esquerda e no PCP, numa das mudanças mais estruturais da política do pós-25 de Abril. Além disso, não foi um processo isento de opções ideológicas, pelo contrário, com várias reversões de medidas do Governo anterior e a aceleração daquilo que ficou cunhado com a expressão “devolução de rendimentos”.

A primeira pessoa a detetar e assimilar esta “normalização anormal” foi Marcelo Rebelo de Sousa, quando ainda era candidato presidencial. Fez uma campanha sem qualquer apoio partidário, afastou-se de todas as críticas que PSD e CDS faziam na altura ao Governo socialista e não tomou as dores de nenhum dos partidos que, em teoria, ocupavam a sua base natural de apoio. Mais do que escolher um caminho para a vitória, o que o então candidato estava a fazer — ao descolar de PSD e CDS — era trilhar um caminho para o que seria o estilo da sua Presidência. Na altura, Marcelo enfureceu muitas pessoas que procuravam vingar a ressaca das eleições legislativas e que queriam que ele encarnasse esse discurso. Mas não é seguramente por acaso que Marcelo tem a fama de ser o melhor analista político do pós-25 de abril. Se há algo que liquida qualquer mandato presidencial é a dessintonia com o país e Marcelo não estava nem está disposto a isso.

Improvável. Marcelo Rebelo de Sousa chegou à Presidência de uma república governada por uma coligação impensável há poucos anos; António Guterres chega ao cargo mais alto da ONU num período histórico de grande incerteza

Improvável. Marcelo Rebelo de Sousa chegou à Presidência de uma república governada por uma coligação impensável há poucos anos; António Guterres chega ao cargo mais alto da ONU num período histórico de grande incerteza

foto José Carlos Carvalho

foto Mohammed Elshamy / Getty images

Entramos em 2017 com aquele que é, segundo as sondagens, o Presidente mais popular de sempre. A popularidade, em Marcelo, é um modo de vida, no sentido em que quase não precisa de intermediação, porque anda por todo o lado e é intrinsecamente eclético. Mas a popularidade é também um instrumento que o Presidente manobra em seu proveito, com cuidado e inteligência, a pensar nos tempos agitados a que nenhum mandato presidencial escapa. Na altura em que precisar de tomar decisões difíceis, Marcelo terá uma arma suplementar à da legitimidade do voto direto de qualquer Presidente da República: uma popularidade extrema, que atravessa o espetro partidário, social, regional ou etário.

Este facto não é um pormenor irrelevante para os vários partidos. Não há memória de tal popularidade ter sido detetada na jovem democracia portuguesa, sendo o melhor paralelo a segunda metade do primeiro mandato de Mário Soares. Nessa altura, entre 1989 e 1991, Soares tinha extrema popularidade e Cavaco Silva percebeu que a melhor solução era tentar uma coexistência pacífica entre a sua primeira maioria absoluta — a do PSD, assegurada nas legislativas de 1987 — e a primeira presidência civil — a de Soares —, a ponto de apoiar a sua recandidatura. Mas o caso de Marcelo é muito diferente, não só pelo facto de a popularidade ser muito mais alta, mas por ter um percurso anterior à presidência completamente diferente. Apesar de ser quase fundador do PSD e ex-líder do partido, a legitimidade de Marcelo não é partidária ou governativa, é comunicacional e direta e faz-se no Palácio de Belém.

Simplificando, a verdadeira carreira política de Marcelo Rebelo de Sousa começou com a sua entrada no Palácio de Belém e vai acabar no último dia em que cruzar a sua porta. Ao contrário dos seus antecessores civis, sobretudo Mário Soares ou Cavaco Silva — mas também, em menor medida, Jorge Sampaio —, Marcelo não tinha um currículo político que lhe garantisse qualquer lugar na história. Era um brilhante professor de Direito e um brilhantíssimo jornalista e comentador político. Mas a sua marca política era um pormenor ao lado do peso histórico e do papel transformador da sociedade portuguesa de Soares ou Cavaco. Ao mesmo tempo, o seu calculismo e a forma como foi derrotado nas autárquicas de Lisboa ou se demitiu da liderança do PSD, contrastavam com a coragem e determinação que levaram Jorge Sampaio a vencer em Lisboa e depois a Presidência, apesar de ter sido copiosamente derrotado por Cavaco e afastado por Guterres. Marcelo sabe isto tudo de cor. A Presidência são o alfa e o ómega da sua vida política. E isso obriga os partidos a estarem em sentido, a não ser que se queiram meter em trabalhos desnecessários.

Habemus crise?

Desde outubro de 2015 que a pergunta se faz nos bastidores políticos, embora a intensidade tenha esmorecido seriamente, com um ou outro lampejo: há ou não uma crise política? Esta ideia de precariedade acabou por ser, sem que a oposição o tenha percebido, uma das principais armas do Governo. Cada semana que passou sem uma crise, um Plano B, um Orçamento por aprovar ou sanções de Bruxelas por aplicar foi uma vitória. Do ponto de vista tático, esta foi a opção mais absurda da oposição, porque ficou colada a um desejo de crise e de sanções externas, que não aconteceram, enquanto o Governo transformava a sua simples existência numa vitória política.

Uma vez mais, foi Marcelo a traçar o calendário das crises e acontecimentos, ao decretar com grande antecedência que nada se passaria antes das autárquicas. Estas eleições não costumam ser motivo de grandes dramas, apesar de dois governos — o da AD e o de António Guterres — terem caído na sequência de autárquicas. Não era seguramente nestes casos, cujos desfechos decorreram de desgastes governamentais, que Marcelo Rebelo de Sousa estava a pensar quando “atirou” qualquer questão política para o outono de 2017. O que fez o Presidente traçar essa linha no calendário foi o facto de estar a meio da legislatura. Nessa altura, com dois anos quase corridos de solução governamental, é natural que todos os partidos comecem a pensar no que podem ou devem fazer até às eleições ou se, em caso extremo, ganham com a sua antecipação.

O PCP arrumou a questão, interna e externamente, no seu recente Congresso. Não só manteve o secretário-geral que deu a cara por esta solução histórica como fez uma reunião magna sem críticas sérias ao Governo. Mas, ao mesmo tempo, deixou claro que a sua rota é autónoma e diferente da do PS ou do Bloco de Esquerda e que, no dia em que houver alguma incompatibilidade, seguirá o seu caminho. Com a passagem do tempo, a razão que permitiu unir PS, Bloco de Esquerda e PCP ficará mais distante. Na altura, o motivo foi claro e distinto: impedir PSD e CDS de governar. Se 2017 mantiver estes dois partidos com pouca força nas sondagens, o motivo de união tende a ficar mais distante e fraco. Por si só, não é suficiente para destruir a solução governativa, mas vai deixando de ser a razão da sua existência.

As autárquicas são, assim, uma espécie de paradoxo político. A esquerda deseja que corram especialmente mal ao PSD e ao CDS (embora este partido tenha pouca expressão municipal), mas sabe que um resultado mau pode levar a eventuais mudanças políticas no PSD, que acabariam por ter efeito em todo o sistema partidário. Uma parte do cimento da atual solução governamental depende de Pedro Passos Coelho ser o líder do PSD. Como rosto e responsável absoluto do Governo anterior e da chamada política da troika, representa aquilo contra o qual o atual Governo nasceu. Se porventura Passos Coelho saísse — o que, tendo em conta a sua determinação política, capacidade de resistência e profundo conhecimento do aparelho, é tudo menos óbvio — esse “cimento” desaparecia.

O Bloco de Esquerda continuará em 2017 a seguir a sua pista, que, na verdade, são duas. Como em 2016, vai querer estar envolvido em soluções orçamentais e legislativas, cortando com a imagem de partido de protesto e colocando claramente a questão de poder vir a ter ministros num governo futuro. Mas vai querer esticar a corda em áreas que define como suas, podendo ter menor margem de cedência. Enquanto o crescimento, mesmo baixo, se mantiver e os números do emprego melhorarem, tal como a reposição de rendimentos e de prestações sociais, é difícil que algum partido à esquerda tome, isoladamente, a decisão de interromper esse processo, sob pena de ficar com o ónus de abortar uma solução política inédita que estava a funcionar num ambiente de normalidade.

E la nave va

A solução política portuguesa é uma raridade europeia e assim deverá continuar. Não num processo de isolamento — porque todas as questões orçamentais, de dívida ou do sistema bancário, só para falar das mais evidentes, continuarão a ser totalmente decididas em Bruxelas e Frankfurt —, mas numa espécie de universo paralelo. Se olharmos para as questões que vão marcar a Europa em 2017, nenhuma está nas prioridades políticas portuguesas. O terrorismo não é, pelo menos para já, uma grande questão nacional. A pressão dos refugiados pura e simplesmente não existe. E a implosão dos sistemas políticos também não dá sinais de existência.

As alterações na Europa são muito difíceis de prever, mas a ressaca do ‘Brexit’ chegará finalmente. A passagem da teoria à prática na negociação mais difícil da história da União Europeia levanta um enorme dilema. Uma solução muito dura, coloca o Reino Unido fora da esfera europeia. Uma solução simpática pode servir de incentivo a outros países, onde a saída do euro ou da UE é discutida amiúde. E se a União Europeia pode resistir à saída do Reino Unido, nunca sobreviverá à ausência de Itália, França, Alemanha ou mesmo Holanda. Será exatamente este último país a iniciar a série de eleições que vão varrer o continente. A votação não tem o mesmo peso das presidenciais francesas ou das legislativas alemãs, mas o crescimento de um partido nacionalista, xenófobo e antieuropeu é evidente e pode condicionar fortemente a governação holandesa.

Neste contexto, Angela Merkel vai-se transformando numa espécie de farol de uma Europa liberal em clara desaceleração. As suas dificuldades políticas internas são, por isso mesmo, a metáfora perfeita dos problemas e dúvidas que assolam a Europa. A chanceler alemã inicia o ano num clima de extrema desconfiança nacional em relação ao terrorismo, com uma sociedade muito dividida em relação ao milhão de refugiados que vive no país e com a certeza de que, pela primeira vez desde 1945, um partido de extrema-direita vai estar sentado no Bundestag.

Merkel deverá conseguir controlar a política interna, sobretudo porque tem várias opções de governação, com os parceiros atuais do SPD e até com Os Verdes. Mas perderá apoios internos e aliados a nível europeu. Depois do surgimento de dois governos iliberais e nacionalistas na Hungria e na Polónia, qualquer mudança na Holanda será um problema e o novo Presidente francês dificilmente poderá optar por uma linha muito europeísta para tentar travar a vitória de Marine Le Pen. Aconteça o que acontecer nas eleições dos dois maiores países da UE, parte do discurso da Europa pós-1945 ficará suspenso ou enterrado.

Poucos analistas admitem a vitória da líder da Frente Nacional nas presidenciais francesas. Mas a sua presença na segunda volta é mais que certa e qualquer atentado terrorista grave, sobretudo com refugiados, pode mudar tudo. A aparente certeza dos analistas não reside nalguma presciência ou profundo conhecimento do eleitorado francês, mas no facto de o sistema eleitoral funcionar a duas voltas. Este sistema obriga a coligações forçadas depois da primeira volta, sendo natural que todos se unam contra Marine Le Pen. Mas, mesmo assim, depois do que se passou com o ‘Brexit’ e com a eleição de Donald Trump, é melhor não arriscar demasiado.

Marine Le Pen não é o rosto de um movimento recente como a Afd (Alternativa para a Alemanha), que faz Merkel estremecer. A tradição de uma certa direita xenófoba, nacionalista e antieuropeia é profunda em França, captou muitos ex-votantes comunistas e foi crescendo com os movimentos protecionistas e antiglobalização. A islamização de França, o terrorismo e os refugiados criaram, a par de uma total redefinição do centro-direita e da quase implosão de Hollande, o caldo perfeito para uma eleição que seria tecnicamente impossível há meia dúzia de anos. A par de todas as razões já elencadas, o ‘Brexit’ deu uma legitimidade acrescida aos movimentos nacionalistas.

A grande rotação

Como há sempre um português em qualquer boa história, vamos ter um no topo do mundo em 2017. Mas o mundo que António Guterres vai pisar pode ser o mais incerto do pós-guerra. Basta olhar, por exemplo, para o Conselho de Segurança das Nações Unidas, o órgão com mais força política na ONU, que pode vetar qualquer decisão crítica. Guterres vai ter neste Conselho um representante de Trump, outro de Putin, um de Pequim, outro de um governo britânico num momento de indefinição, sem saber se alinha com a UE ou não. Falta falar do representante francês, que pode seguir uma linha tradicional ou ser mais russófono — Fillon é muito pró-russo — ou ser um representante de Marine Le Pen.

Esse simples cenário transformaria as Nações Unidas num órgão totalmente imprevisível. É certo que qualquer pessoa com uma memória fresca da Guerra Fria poderá contrapor que nada se assemelha ao risco de uma crise nuclear. Quem assim argumentar terá toda a razão na escala potencial de destruição, mas não na imprevisibilidade. Um Conselho de Segurança com os EUA isolacionistas e pró-russos, um Kremlin expansionista, um Reino Unido de saída da UE, uma China ameaçada pelos EUA e uma França em profunda mudança política não representa um cenário de destruição nuclear, mas uma enorme rotação no eixo da diplomacia mundial.

Basta ver aparentes pequenos gestos, como a decisão dos EUA de mudarem a sua embaixada em Israel para Jerusalém ou a vontade de denunciar os acordos com o Irão ou Cuba, para percebermos que estamos num período de incerteza. A abertura do Irão foi um dos grandes acontecimentos políticos e económicos de 2016. Além de enorme exportador de petróleo, o Irão tem um potencial de crescimento gigante e uma demografia que atrai as grandes multinacionais para este “novo” mercado.

Estilos. Marine Le Pen está na linha da frente para conquistar a presidência em França, o que provocaria um terramoto só equivalente à eleição de Donald Trump, que toma posse em janeiro. Vladimir Putin, o todo-poderoso Presidente russo, assiste de perto à transformação em curso no mundo ocidental

Estilos. Marine Le Pen está na linha da frente para conquistar a presidência em França, o que provocaria um terramoto só equivalente à eleição de Donald Trump, que toma posse em janeiro. Vladimir Putin, o todo-poderoso Presidente russo, assiste de perto à transformação em curso no mundo ocidental

foto Chesnot / Getty images

foto Jim Watson /AFP / Getty images

foto Mikhail Svetlov / Getty images

O Irão é hoje uma potência militar regional, tendo sido decisivo no rumo que a guerra na Síria tomou, defendendo o regime xiita (alauíta) de Assad, enviando tropas para o terreno, apoiando a milícia libanesa do Hezbollah, e, sobretudo, alinhando com a Rússia. Teerão trabalha em várias frentes regionais, nomeadamente na “guerra esquecida” do Iémen, onde uma coligação liderada pela Arábia Saudita tenta derrotar a revolta da minoria houthi, com apoio iraniano. Além das eternas dissensões com a Arábia Saudita e com Israel — dois dos conflitos potencialmente mais perigosos do mundo —, o alinhamento com a Rússia no conflito sírio é de enorme importância geoestratégica e terá a sua prova de fogo em 2017, com a previsível vitória de Bashar al-Assad e a passividade das potências ocidentais.

O instrumento de política internacional mais importante de 2017 não deve ser um país, uma organização ou uma aliança militar, mas uma conta do Twitter. Seguir @realDonaldTrump é hoje uma obrigação para jornalistas, políticos e diplomatas. Os quase 18 milhões de seguidores de Donald Trump podem ver em direto uma nova fase da diplomacia, sem luvas, de murro direto no estômago. É um discurso desabrido, sem aresta, que choca e prenuncia uma presidência bem diferente na Casa Branca.

A diplomacia dos homens-fortes será um dos paradigmas de 2017: Trump, Putin, Erdogan, Xi Jinping, Nethanyau, Rohani, talvez Modi e Abe. Estes dois últimos deverão ter um papel menor, com a Índia muito focada em ser o mercado emergente que mais cresce no mundo e o Japão a tentar encontrar um rumo para a sua economia. Os jogos dos homens-fortes serão entre Washington e Pequim, as duas maiores potências do mundo, e duas nações que tentam regressar aos seus passados imperiais, a Rússia e a Turquia. Putin segue esse caminho há muito tempo, Erdogan perdeu a vergonha com o golpe de que foi alvo. Não tentará caminhar até às portas de Viena, mas fará tudo para restaurar a autoestima perdida há 100 anos.

É este o mundo que espera o português António Guterres. Um mundo onde teremos muito pouco a dizer e onde a lusofonia não passará além de um espaço demográfico e linguístico em crescimento, mas em profunda crise. O maior dos países lusófonos, com quase 200 milhões de habitantes, atravessa uma crise política e judicial sem precedentes e tem uma economia muito fragilizada. Angola espera que o petróleo suba e que o preço estabilize acima dos 50 dólares para poder sair de uma crise dramática, com a Sonangol tecnicamente falida e entregue à filha do Presidente, e fazer uma transição política arriscada, com a saída antecipada de José Eduardo dos Santos, o líder político que está há mais anos no poder em todo o mundo. Na contracosta, Moçambique tentará recuperar a credibilidade internacional, esmagada pela corrupção e por gastos absurdos, feitos à conta da exploração futura do gás natural.

Onde é que eu já vi isto?

Em 2017 comemoram-se os 100 anos da Revolução Russa, os 150 da publicação de “O Capital”, os 50 da morte de Che Guevara e os 500 anos da reforma de Martinho Lutero. Há datas para todos os gostos e o espírito de revolução paira no ar. Há quem faça comparações com 1848, o ano das grandes revoluções europeias. Há quem recorde o período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial. Há quem se centre na revolução bolchevique. Há datas para todos os gostos e tanto o ‘Brexit’ como a eleição de Donald Trump mostraram que os eleitorados são menos previsíveis e estão muito mais dispostos a arriscar e pôr em causa o mundo que conhecem.

Apesar da esmagadora maioria das comparações ser forçada, a forma como os povos escolhem a incerteza tem muitos paralelos com épocas passadas. Há, no entanto, uma enorme diferença, porque muitas das mudanças que começaram em 2016 e devem ocorrer no próximo ano decorrem de eleições perfeitamente democráticas. É claro que já houve casos, como a ascensão de Hitler, em que movimentos extremistas chegaram ao poder por via de eleições. Mas a tendência é agora muito vasta e pode pôr em causa o clássico entendimento de um bloco europeu com os EUA, quer por falta de interesse dos americanos quer por falta de entendimento no Velho Continente. O regresso a uma Europa das Nações parece inevitável em 2017.

Nada será como dantes

No próximo ano, a Europa vai girar à nossa volta, o mundo à volta da Europa, e o Sol à volta da terra. Será um ano em que a Terra voltará a ser o centro do Universo, na fronteira entre um mundo que conhecemos e territórios impensáveis. Com a maior nação do mundo liderada por alguém que faz do instinto, das emoções e do impulso uma forma de governar. Mas também com as estradas a verem carros sem condutor ou algumas lojas a deixarem de ter caixas de pagamento.

O regresso do isolacionismo e das guerras comerciais vai fazer-se a par da explosão da inteligência artificial, que pode derrubar doenças e epidemias ao mesmo tempo que destrói empregos a uma velocidade sem precedentes. A guerra entre taxistas e condutores de Uber espalhar-se-á por muitas cidades, numa aparente revolução dos transportes urbanos, que é o ponto de partida para uma uberização da economia, com tanto de fascinante como de assustador. O capitalismo, ao contrário do que Marx previu, conseguiu ultrapassar muitas das suas contradições, nomeadamente as dos enormes ganhos de produtividade. Mas as novas tecnologias e a inteligência artificial representam um desafio mundial que pode ser muito superior ao das mudanças da Revolução Industrial. É uma revolução de maior escala, que afeta mais sectores em simultâneo e que pode ocorrer em simultâneo em muitas geografias.

Basta olhar para o acontecimento mais importante do mundo em 2016 para vermos o que nos espera ou, na verdade, onde já estamos a viver. Donald Trump foi eleito com uma campanha incrivelmente eficaz, explorando os medos e as linhas de fratura da sociedade, com um perfeito domínio das redes sociais, da forma como notícias (muitas falsas) se propagam nas redes e aproveitando a interferência externa, de hackers russos e da WikiLeaks. Se alguém tivesse dito há cinco anos que em 2017 ia tomar posse um Presidente americano sem experiência política ou militar, que usa o Twitter como principal arma diplomática, e que foi eleito com a ajuda do Kremlin, prometendo erguer um muro na fronteira com o México, colocar uma embaixada em Jerusalém ou negar o aquecimento global, ninguém acreditaria. Pois, mas é mesmo assim que vamos entrar em 2017. Com o Sol a girar em torno da Terra.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 30 de dezembro de 2017