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A Visita

José Caria

Uma visita por semana faz a diferença na vida de uma pessoa. Sobretudo se essa pessoa for idosa, se sentir só e precisar de atenção. Tocar no coração dos mais velhos é o objetivo d‘ “A Visita”

Eva é Doutora Palhaço há oito anos. Há oito anos que se "habituou" a ver crianças carecas sofrer e algumas morrer vítimas de cancro. Aquele que para muitos seria um quotidiano de pesadelo, para ela é um privilégio, assegura. O de poder oferecer àqueles meninos e meninas alguns momentos de brincadeira, de evasão... de palhaçada. Com o nariz vermelho a proteger o ator, "o que fica são situações bonitas – porque é isso que o clown provoca", explica Eva Sarmiento, de 44 anos. Em toda a sua experiência de IPO (Instituto Português de Oncologia), a primeira vez que Eva chorou foi com uma idosa e não com uma criança. "Era uma senhora fina, de Cascais ou assim, que estava atada à cama, para não constituir um perigo para si mesma. E que pedia a quem passava que chamassem o seu motorista, que estava à espera cá em baixo." Aquela cena tocou-a profundamente. Sentiu a dignidade da senhora ferida e começou a matutar num projeto em que pudesse ajudar os mais velhos, essa faixa etária cada vez maior da nossa sociedade e tão desprotegida - neste momento, há mais de 2 milhões de idosos em Portugal e até 2050 o número deverá triplicar. Eva começou a levar o seu "clown" para os lares e a interagir com os idosos mais carenciados, alguns sem visitas por longos períodos. E em janeiro deste ano nascia "A Visita".

"Mais do que artistas", Eva procurou "pessoas especiais". Encontrou sete, "positivas, com sentido de humor", todas com formação de ator - e de clown, especificamente. "O palhaço trabalha no erro, no ridículo, na fragilidade", explica Eva. O nariz vermelho permite brincar com situações difíceis à partida, torná-las risíveis, sem ofender. Depois, constituíram-se as personagens da Família Rialto – Lola (Eva), a tia, Júlia Mayor, sua sobrinha e os restantes membros vestidos "à anos 50", com as pérolas da avó, as malinhas e o pó de arroz, os objetos da idade de ouro daqueles idosos, quando um dia foram novos.

Quatro palhaços da equipa d’A Visita vestem as personagens da família Rialto para animarem um lar de idosos em Lisboa

Quatro palhaços da equipa d’A Visita vestem as personagens da família Rialto para animarem um lar de idosos em Lisboa

José Caria

Sexta-feira 25 de novembro, 11h, Residência Sénior Professora Maria Ofélia Neto, em Alcoitão. Na linha de Cascais, os lares de idosos dão lugar às "residências", um nome menos marcado. Guida Murteira, animadora da residência há 8 anos, desde que esta abriu, alerta a equipa de palhaços para esse facto: é muito mais difícil obter a adesão de uma população de classe alta, que toda a vida teve empregados e mordomias, do que num lar com pessoas de menores rendimentos. Eva e Carolina, a dupla de hoje, anotam o recado. Começam a vestir-se. Da mala da avó de Carolina salta uma combinação (que será crucial): um vestido vermelho, luvas de camurça e uma minicarteira dourada, com baton e pó de arroz incorporado. A "menina Júlia" está vestida, com o nariz vermelho a completar o visual. A tia, Dona Lola Rialto, acaba de passar o blush na cara. Seguem para a sala de convívio, onde se encontram "os utentes mais dependentes". "Em regra, quem está bem refugia-se nos quartos", explica Guida. No salão, há de tudo: idosos a dormir, a ler, a fingir que dormem para não serem incomodados - e a maioria calada, quieta, entregue aos seus pensamentos.

Combinação à mostra

Dos 60 idosos que estão confiados à instituição, metade vive aqui em permanência e a outra metade está em regime provisório (para um período de fisioterapia, por exemplo). Muitos sofrem de demência, o que torna o desafio de Eva e Carolina (aliás, de D. Lola e Júlia) maior. A média de idades anda nos 80, 90 anos. Mal entram na sala, Lola e Júlia Rialto trazem uma lufada de cor e alegria. Cumprimentam todos, interagem, estabelecem relações individuais. Entabulam-se pequenas conversas, conquistam-se os primeiros sorrisos. Um senhor brinca com Lola a propósito dela se apresentar como tia de Júlia. "É daqui da Linha (de Cascais)?" "Não, sou de Espanha", retorque ela. "Bueno", responde, bem-disposto. Ao lado, Maria Amélia reage: "A minha avó era espanhola..." Está a ler um livro sobre tango. Dois assentos para a direita, uma outra idosa tem uma manta de rosas brancas no colo. "Posso cheirar?", pede a menina Júlia. "Ai, que maravilha." A sua atenção desperta pouco depois para a cor das unhas de D. Leninha. "Verdes, que lindas."

Lola Rialto (Eva Sarmiento) brinca com uma das utentes do lar. A "sobrinha", Carolina, está atrás. Em regra, "A Visita" trabalha com uma dupla de clowns por cada lar de idosos

Lola Rialto (Eva Sarmiento) brinca com uma das utentes do lar. A "sobrinha", Carolina, está atrás. Em regra, "A Visita" trabalha com uma dupla de clowns por cada lar de idosos

José Caria

Lola canta agora uma música para desejar os bons dias. Saca de um instrumento da mala – um ovo com ritmo -, finge que esquece a letra. "Alguém me ajuda? Não me lembro bem." As senhoras aderem. Até que Maria Luísa, uma utente recente, se abeira de Júlia e lhe diz ao ouvido: "Olhe que tem a combinação à mostra. Vá arranjar-se ao quarto de banho". Enquanto Júlia corre para fora da sala, outra idosa sugere o vira. Dança-se o vira.. As cabeças abanam, tímidas... Os gestos exagerados dos clowns atraem e intimidam. "Gosto desta Visita, é divertido", diz Maria Luísa. "É um bocadinho de tempo que aqui se passa.. Aprecio muito a música e ouvir cantar." E começa a desfiar a sua história. "Vivo aqui na Linha praticamente desde sempre. Gosto de estar no campo. Venho para cá muita vez. Leio, faço trabalho de mãos, faço renda." Maria Luísa sofre de uma demência avançada, explicam-nos. "Com o passar do tempo, muitos utentes passam a confundir isto com uma casa de férias onde passam temporadas", conta Guida.

Ao fundo do salão grande piam dois passarinhos, dentro de gaiolas. Os suspiros profundos de alguns idosos enchem o espaço, pesam. Lola entabula conversa com outro senhor em cadeira de rodas. "Tive quatro AVC", conta. "Mas faz coleção?", brinca ela. O senhor ri-se. Partilha que era barítono, cantor de ópera - mas agora "a voz está uma desgraça". Lola puxa por ele, promete que da próxima vez cantarão os dois. No lar ninguém confirma que o senhor tenha efetivamente sido cantor. Manuel está sentado numa poltrona, ao lado. Estava acamado na primeira vez que "A Visita" passou por aqui. Manuel foi chef, trabalhou nos EUA. Lola tinha-lhe falado numa receita de gaspacho andaluz, com cominhos. Hoje trouxe um frasco com esta especiaria, outro com canela. Dá-lhe a cheirar, a ver se as reconhece. Depois, pede-lhe uma receita de uma massa para bolos. Saca do caderninho, pede-lhe a receita. Manuel fala pouco, diz apenas palavras-chave. "Carne, massa, farinha, ovos." Mas cada contacto, cada ligação estabelecida é uma pequena vitória para A Visita. Depois de conhecer bem o público-alvo, a ideia é trabalhar mais de perto com a equipa técnica do lar e os psicólogos, para poder ajudar os idosos mais negligenciados.

Para muitos idosos acamados em lares, a passagem da Visita é o único momento divertido da semana. Nem todos recebem visitas da família

Para muitos idosos acamados em lares, a passagem da Visita é o único momento divertido da semana. Nem todos recebem visitas da família

José Caria

Um encontro emocional

No piso de cima, onde se encontram as utentes acamadas, Lola e Júlia cruzam-se com uma senhora de cadeira de rodas, Gabriela. Ácida, atira, mal as vê: "Mas agora é Carnaval?". De classe alta, não há um dia que passe que não acuse o pessoal do lar de lhe roubar joias, cartões de crédito, objetos. Verifica cada papel que vai para o cesto do lixo. Tudo tem de ser mostrado, até os lenços de assoar. "Mas qual é a vossa ideia, chocar?", pergunta, empertigada. E começa a falar inglês, francês, ao perceber o sotaque espanhol de Lola. Aos poucos, alinha na brincadeira. Lola pede para lhe dizer um poema. "Diga lá..." Depois, retribui com outro em francês. E despede-se, seguindo para o almoço. Acamada noutro quarto está Virgínia, antiga professora primária. Tem olhos azuis translúcidos, mantém a lucidez. Lola e Júlia cantam-lhe a música "Você é linda", de Caetano Veloso. Virgínia adora flores no cabelo. Já na posse dessa informação, Lola trouxe uma flor amarela no chapéu para lhe oferecer. A flor é da cor da colcha e isso dá logo azo a uma canção, uma paródia. Sem gancho para prender a flor, esta é colocada no cabelo da senhora. Lola apressa-se a pedir: "Não dance agora, D. Virgínia". E tiram uma fotografia, para que esta se possa ver.

Passaram duas horas e meia quando dá por finda A Visita. As clowns garantem que não estão cansadas, apesar do improviso permanente, da atenção constante. "Nós recebemos muito mais do que damos", diz Eva, já despida da pele de "Lola". O seu objetivo – dar qualidade de vida à reta final dos idosos - começa a consubstanciar-se. Com três lares visitados, entre Lisboa e Porto, esperam arranjar parceiros e mecenas para poderem oferecer aos lares este serviço. Para que estas visitas de palhaço tenham quase tanta importância como as visitas de médico. E para serem levadas a sério.

Em 2014, segundo dados do Instituto da Segurança Social, mais de 78 mil idosos viviam em lares em Portugal. Segundo um outro estudo da Organização Internacional de Trabalho, de 2015, Portugal é dos países da Europa onde as pessoas idosas são mais abandonadas. Apesar de ser das nações com a percentagem mais alta de idosos do mundo, dedica apenas 0,1% do PIB aos cuidados com a chamada "terceira idade". É para alterar esta situação que projetos como A Visita querem contribuir. Grão a grão vão fazendo o seu papel, para tornar a velhice num deserto menos árido.

"A Visita" inspira-se no programa "Elder Flowers", nascido em 2001, na Escócia

"A Visita" inspira-se no programa "Elder Flowers", nascido em 2001, na Escócia

José Caria

As origens d' A Visita – o projeto Hearts & Minds Elder Flowers

Criado em 2001, o programa "Elder Flowers" (Flores mais Velhas, em tradução livre) usa as artes da 'performance' para melhorar a qualidade de vida dos mais velhos e das suas famílias nos cuidados hospitalares na Escócia. São a única organização do Reino Unido a providenciar este tipo de cuidado.

Chegar às pessoas por trás das doenças e trabalhar para ajudar a resolver questões complexas, melhorando a felicidade dos mais velhos, é o objetivo do programa. Treinados para perceber quais os interesses e o humor das pessoas, e reagir em consequência, os Elderflowers têm um leque vasto de possíveis reações. Pode passar por brincadeira, ou simplesmente por comunicação não verbal. À medida que as demências aumentam entre os idosos, é fundamental que estes continuem a ser estimulados, encorajados a interagir e a rir, defendem.

No Canadá, um projeto semelhante dá pelo nome "La belle visite".