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Sociedade

“Investidores chineses precisam 
de carinho institucional”

António Pedro Ferreira

Fez concurso para a carreira diplomática sem o pai saber. Três décadas depois, o embaixador de Portugal na China, Jorge Torres Pereira, foi distinguido com o prémio “Diplomata do Ano” e acredita que o pai, catedrático de Medicina, que durante algum tempo torceu o nariz à escolha do filho, ficaria feliz se fosse vivo

Recebeu esta semana o prémio Francisco de Melo e Torres, promovido pela Câmara de Comércio. É gratificante ver o seu trabalho reconhecido?
Não é frequente haver reconhecimento de fora. O prémio é organizado pelo exterior e é [uma avaliação] independente. O facto de ter o nome de um diplomata português ainda valoriza mais termos sido distinguidos nesta 4ª edição. O prémio distingue uma equipa, que é muito mais do que o embaixador: são os consulados de Xangai e Macau, a equipa da AICEP, o pessoal todo que está envolvido. Temos um excelente relacionamento, e introduzimos o conceito de coordenação económica: uma vez por ano reunimos em cada uma das [três] cidades. E isso faz com sejamos uma equipa coesa quando somos submetidos a desafios, como foi o caso da visita do primeiro-ministro, em outubro, que passou por estas cidades todas.

É embaixador em Pequim desde abril de 2013. O local onde está facilitou o prémio?
O grande responsável pelo prémio é o mercado chinês, que é o originador fundamental de notícias e desenvolvimentos relevantes. Eu estive no sítio certo e na altura certa.

O prémio ajuda o comum das pessoas a perceberem melhor o trabalho dos diplomatas?
Seguramente. Até porque contraria algumas ideias feitas de que o nosso trabalho tem pouco impacto no quotidiano das pessoas. Este prémio representa aquilo que a rede diplomática na China pode fazer para lubrificar contactos, negócios e perspetivas de investimento que se traduzem na melhoria de indicadores económicos portugueses, oportunidades de intercâmbio científico e tecnológico. Mostra como o nosso trabalho tem uma vocação operacional clara, e não é apenas de representação.

Que tipo de apoio é que os empresários chineses procuram na embaixada?
Em primeiro lugar necessitam de sentir um certo carinho institucional; ao contrário de investimentos noutras paragens, em que são lógicas puramente empresariais [aqui], particularmente no caso das grandes empresas públicas precisam de saber se tudo aquilo em que estão a pensar vai ser bem visto institucionalmente pelas autoridades governamentais portuguesas.

Essa necessidade é uma questão cultural ou tem que ver com o modelo de regime?
É tudo; há um desejo de fazer ensaios gerais antes das decisões finais para evitar surpresas; quando um grande investidor chinês vai a Portugal para se encontrar ao mais alto nível, quer ter uma ideia de qual vai ser a receção às suas ideias. E quer ouvir [isso primeiro] da boca do representante português em Pequim. Dou-lhe este exemplo que não tem que ver com decisões de investimentos: na altura da alteração do quadro regulatório das empresas de energias, foi importante o trabalho de explicar aos investidores chineses os sacrifícios que a população portuguesa estava a passar, o que lhe estava a ser pedido, e que nesse contexto não seria bem visto que não houvesse uma partilha [de custos]. Além disso fazemos o trabalho de lubrificação, de ponte de contactos, certificamo-nos que há seriedade nos projetos.

Quando entrou para a carreira há 30 anos dava-se muito menos importância à diplomacia económica...
Chamando-lhe ou não diplomacia económica, todos os diplomatas faziam diplomacia económica. Com a globalização estamos todos a competir por recursos de investimento...

Licenciou-se em medicina. Nunca se arrependeu de ter preferido ser diplomata?
Venho de uma família de médicos, mas fui o melhor aluno de filosofia no liceu! E gostei de fazer o curso. Quando acabei verifiquei que a ‘clinicologia’ é menos rigorosa do que o estudo. Ainda fiz investigação, mas quando abriu o concurso candidatei-me. E estou satisfeito com a escolha.

Prémio “Diplomata 
do Ano”

A Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa criou o galardão em 2013, quando Paulo Portas era MNE e fez da diplomacia económica uma tónica do seu discurso. A sociedade civil apresenta candidaturas, a partir das quais o júri escolhe o diplomata que em cada ano recebe 25 mil euros do prémio Francisco de Melo e Torres, um diplomata do século XVII que acompanhou Catarina de Bragança quando esta se casou com Carlos II de Inglaterra. O prémio é usado num projeto de agilização diplomática