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#Árbitros. Uma bala para o homem do apito

O treinador do Sporting, Jorge Jesus, mostra a sua indignação junto de um árbitro assistente no final do jogo com o Setúbal, da Taça da Liga, que o Sporting perdeu com um penálti no último minuto

mIGUEL A. LOPES/LUSA

Em Portugal, a arbitragem é o bode expiatório dos insucessos no futebol. Somos todos cúmplices deste ambiente de terror

Não é fácil a vida de um árbitro em Portugal. Agora foi o Artur Soares Dias, 37 anos, o melhor árbitro português da atualidade: esta quinta-feira, enquanto se preparava para o jogo entre o Paços de Ferreira e o FC Porto, terá sido ameaçado por dois alegados elementos dos Super Dragões, claque afeta ao FC Porto. Antes tinha sido o Pedro Proença, hoje presidente da Liga, melhor árbitro português de todos os tempos, agredido à cabeçada por um adepto do Benfica no Centro Comercial Colombo, em Lisboa. Antes tinha também sido o Manuel Mota, que viu os talhos de que é proprietário vandalizados com frases como "Se os mouros ganharem, para ti e para a tua família uma bala deve chegar". E o Duarte Gomes, alvo de ameaças quando estava acompanhado da filha de três anos. E o João Capela, que teve de chamar a PSP depois de ser incomodado por adeptos do FC Porto enquanto jantava com a sua equipa no Funchal. E ainda o Jorge Sousa, aterrorizado durante meses por adeptos do Benfica.

Esta é só a ponta do icebergue. A lista de árbitros alvo de pressões, injúrias e ameaças é extensa e o fenómeno repete-se todas as semanas, de norte a sul do país, nas divisões profissionais e nas amadoras. Os árbitros de futebol são, em Portugal, o bode expiatório para todos os insucessos. Erram, e vão continuar a errar, porque são humanos – mesmo as máquinas errariam. Mas porque há de um árbitro ser mais escrutinado e mais penalizado do que o jogador que falha um golo fácil ou o guarda-redes que não segura um remate inofensivo? Porque há de ser o álibi das más decisões dos treinadores? Porque há de desviar as atenções dos fracassos dos dirigentes?

Bastaria o Bryan Ruiz não ter desperdiçado de forma inacreditável aquele golo no Sporting-Benfica da época passada e os de Alvalade seriam agora campeões nacionais, 14 anos depois do último título. Houve, por causa desse falhanço, alguém que ameaçasse a integridade física do jogador? Ainda esta quarta-feira, em Setúbal, André, avançado brasileiro do Sporting, falhou dois golos cantados, um dos quais com a baliza deserta. Se tivesse marcado um deles a equipa não estaria agora a lamentar o penálti assinalado no último sopro do encontro e que tanta polémica gerou. Parece existir mesmo um toque de Douglas no avançado Edinho, embora o lance não seja tão inequívoco como o puxão de Coates dentro da área do Sporting, aos 72 minutos, que daria um penálti para os sadinos. No futebol português, a honestidade intelectual é uma treta.

Nesta história não há inocentes: os três "grandes" têm todos responsabilidades no clima de terror que se criou em redor dos árbitros, embora sejam hoje as lamúrias de FC Porto e Sporting aquelas que se fazem ouvir com mais frequência. Esta época os lamentos começaram cedo. Logo à segunda jornada, depois do Benfica empatar em casa com o Vitória de Setúbal, Luís Filipe Vieira não calou a revolta com a arbitragem quando se encontrava na tribuna presidencial da Luz. Acabou punido com 60 dias de suspensão, pena que foi depois suspensa pelo Tribunal Arbitral do Desporto. Estávamos em agosto e Bruno de Carvalho, que tinha sido um crítico acérrimo do anterior Conselho de Arbitragem, liderado por Vítor Pereira, enchia-se então de elogios ao novo responsável, Fontelas Gomes. Parece ter passado uma eternidade, mas foi há cinco meses.

Felipe e Brahimi, do FC Porto, protestam com o árbitro do Moreirense-FC Porto, Luís Godinho, depois de este ter dado ordem de expulsão ao jogador argelino

Felipe e Brahimi, do FC Porto, protestam com o árbitro do Moreirense-FC Porto, Luís Godinho, depois de este ter dado ordem de expulsão ao jogador argelino

JOSÉ COELHO/LUSA

Quando, uma semana depois do empate do Benfica, o Sporting recebeu e venceu o FC Porto, foram os "dragões" a torcer o nariz aos homens do apito. Iniciavam então uma estratégia que não era nova e que tinha sido já testada – sem grande sucesso – durante a passagem de Julen Lopetegui pela Invicta: a cada semana que passa, as atenções viram-se para os árbitros, para, por um lado, condicionar a atuação destes, e, por outro, lançar cortinas de fumo para os eventuais insucessos da equipa. Na newsletter “Dragões Diário” vai-se fazendo a contabilidade dos penáltis que o clube considera não terem sido assinalados, alguns deles imaginados, outros sem qualquer influência no resultado. Esta quinta-feira, na antena da TSF, o diretor de comunicação dos "dragões", Francisco Marques, deu um passo em frente: defendeu que a culpa de todos os males do FC Porto era do Benfica, "a eminência parda" que exerce poder sobre os árbitros. Uma declaração destas seria impossível no pré-"Apito Dourado", quando Marques era jornalista e outras eminências dominavam o futebol, e a arbitragem, em Portugal.

Sem surpresa, em Alvalade, a lua de mel com os árbitros durou até os primeiros desaires surgirem, que é o mesmo que dizer que durou pouco. O Sporting chega a janeiro tendo vencido apenas metade dos jogos que disputou se forem descontados os três com equipas de escalões inferiores (Famalicão e Praiense para a Taça de Portugal, Varzim para a Taça da Liga), o que contrasta com os mais de 80% de vitórias do Benfica em 2016 (91% nas competições nacionais), o melhor aproveitamento de toda a Europa. Está em quarto lugar do campeonato, a 8 pontos dos rivais da Segunda Circular, ficou fora das competições europeias depois do desaire com o modesto Légia de Varsóvia, e foi eliminado da Taça da Liga pelo Vitória de Setúbal. O que fez Bruno de Carvalho? Primeiro, chamou de imediato dois jogadores que estavam emprestados ao Setúbal, uma lamentável represália pela audácia que os sadinos tiveram em bater o pé aos leões. Depois, convocou uma reunião de direção para discutir o estado da arbitragem em Portugal. Não consta que tenham discutido a dúzia de reforços contratados no verão, dos quais só Bas Dost se fixou na equipa titular. Alan Ruiz, a segunda contratação mais cara (8 milhões de euros), poderá estar de saída neste mercado de inverno, assim como Elias. Markovic, que brilhou há três épocas no Benfica, continua sem "explodir" como prometeu o presidente dos "leões".

Enquanto Pep Guardiola, um dos melhores treinadores do mundo, elogia o Benfica de Rui Vitória, considerando que este tem "a melhor organização defensiva da Europa", FC Porto e Sporting ensaiam uma narrativa pífia sobre o "polvo" que controla o futebol português. Só que essa narrativa não cola com os factos. O presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, é um antigo vice-presidente do FC Porto, e o presidente da Liga, Pedro Proença, foi apoiado por Pinto da Costa e Bruno de Carvalho (o Benfica apoiou o candidato derrotado, Luís Duque). Jorge Sousa, o árbitro do polémico Benfica-Sporting, de má memória para os sportinguistas, nunca gozou de grande simpatia na Luz e era o preferido de Bruno de Carvalho para aquele jogo, como o próprio viria a admitir.

Depois da Luz, o Sporting perdeu em casa com o Braga, como já tinha perdido, menos de duas semanas antes, em Varsóvia. Três derrotas em 11 dias. Um mês antes, esteve quatro encontros sem somar uma vitória, incluindo empates com o Tondela, em casa, e o Nacional, na Madeira. Alguém se lembra quem eram os árbitros desses jogos?

É fácil perceber a quem interessa este ambiente de guerrilha que está criado em torno da arbitragem. Mas os clubes – os seus dirigentes, os treinadores, os jogadores – não são os únicos culpados. Somos todos nós, os cegos pela clubite que destilam ódio nas redes sociais, os jornalistas-adeptos com as suas crónicas medíocres sobre "colinhos", os comentadores televisivos que percebem pouco de futebol e menos ainda de arbitragem, os órgãos de comunicação social que escolhem o caminho mais irresponsável em favor das audiências. Somos todos cúmplices desta estratégia de terror e desta violência intolerável sobre os homens do apito.

Um dia ainda hão de matar um árbitro em Portugal. Então teremos todos as mãos manchadas de sangue.