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Canas, o homem que até na prisão fazia negócios

ÓBITO. Francisco Canas foi um dos arguidos dos processos Monte Branco e Homeland. Não chegou a ser acusado no primeiro caso mas foi condenado no segundo, por branqueamento de capitais

FOTO ANTÓNIO COTRIM/LUSA

O velho cambista da rua do Ouro, cuja morte foi anunciada esta quinta-feira, era uma figura “carismática” mas também “um pouco excêntrica”. Nunca perdeu o olho para o negócio, mesmo nos últimos anos de vida. A sua loja de medalhas na Baixa de Lisboa foi entretanto transformada num hostel

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Encomendas de “chocolate” ou de “televisores” eram comuns nas conversas telefónicas entre os clientes da Montenegro & Chaves, a velha loja de medalhas da rua do Ouro, em Lisboa. Porém, nenhum deles queria saber de chocolates e muito menos ligavam para comprar chaves ou medalhas. Eram palavras de código usadas por empresários, advogados e dirigentes de futebol que recorriam aos serviços financeiros ilegais de Francisco Canas, mais conhecido como “Zé das Medalhas”. Todos desconfiavam que eram escutados pelas autoridades. Tinham razões para isso. A rede, que terá lesado o Estado em 200 milhões de euros, foi desmantelada em maio de 2012 pela equipa de procuradores de Rosário Teixeira, do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP).

Canas, cuja morte foi anunciada esta quinta-feira, herdou o negócio, legítimo, de câmbios da família, tendo licença para operar desde 1975. Era o patriarca de uma família abastada de Lisboa e uma figura considerada “carismática”, mas também “por vezes ambígua e um pouco excêntrica”, por pessoas que lhe eram próximas. O período de bonança financeira terminou em 2005, quando foi proibido pelo Banco de Portugal de realizar “atividades cambiais”.

Nada que o detivesse. Usando os seus contactos privilegiados com pessoas ligadas à banca, em Lisboa e em Zurique e Genebra, tornou-se uma das figuras centrais de uma rede internacional de lavagem de dinheiro. O velho cambista era o homem certo para colocar verbas elevadas fora da mira do fisco, em operações cambiais tão simples como ilegais, utilizando o mais clássico dos métodos de branqueamento de capitais.

Numa rua de muito movimento, as entradas e saídas da minúscula loja de medalhas passavam despercebidas até aos vizinhos mais próximos. Os clientes especiais, pouco interessados em medalhística, chegavam a atravessar a porta com malas ou envelopes cheios de dinheiro. Depois, saíam sem eles. Canas e alguns operacionais tratavam do resto: depositavam o dinheiro em contas de vários países ou transportavam o dinheiro de avião até à Suíça, onde os euros se transformavam em dólares - e todos ganhavam. Os clientes evitavam impostos e Canas cobraria 1% dos depósitos pelas operações financeiras ilegais. Simples e, durante alguns anos, indetetável pelas autoridades.

O esquema de evasão fiscal e branqueamento de capitais terá passado por Lisboa, Suíça e Cabo Verde e contou com pelo menos 180 clientes, entre eles um ex-presidente do Benfica, Manuel Vilarinho, e o galerista Francisco Cabral Moncada, que confirmaram terem tido relações comerciais com o cambista.

Negócios até na prisão

Em abril de 2012 Francisco Canas foi detido, juntamente com os gestores da Akoya, empresa de gestão de fortunas suíça, ficando com as contas congeladas e em prisão preventiva até ao final desse ano.

Os dias no interior do Estabelecimento Prisional da Polícia Judiciária foram atribulados. Utilizou os seus conhecimentos para adquirir um telemóvel pré-pago. O fornecedor era um conhecido traficante de droga de Alfama associado à angariação de correios de droga do Brasil para Portugal. Canas acabou por ser apanhado pelos guardas prisionais com grandes quantias de dinheiro que se destinavam a pagar os serviços prestados pelo recluso de Alfama.

Nos interrogatórios, o cambista negou sempre ter ligações com o submundo do crime. “Não tenho qualquer tipo de esquema”, repetiu incessantemente. Acabaria no entanto por admitir ter movimentado 100 milhões de euros em seis anos, com a seguinte justificação: “É um valor próximo do transacionado com o passe desportivo de Cristiano Ronaldo.”

Quando regressou a casa, a vida não ficou mais calma. Foi condenado a quatro anos de prisão, por branqueamento de capitais no caso Homeland, outro processo complexo que investigou uma burla ao BPN e em que Duarte Lima era figura central. Acabou por ver a pena ser reduzida para 3 anos, em abril, pelo Tribunal da Relação de Lisboa.

Quatro anos e meio depois das buscas na pequena loja de medalhas da baixa lisboeta (que foi entretanto transformada num hostel), a investigação não está ainda encerrada. Francisco Canas morreu com 75 anos.