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Qualidade do ar: mau ambiente na escola

AR. Tese de doutoramento confirma estudos anteriores: qualidade do ar que se respira nas escolas é mau

Luis Barra

Salas de aula não arejadas, número elevado de alunos e materiais poluentes são algumas das razões para que o ar que se respira no interior de muitas escolas portuguesas seja de qualidade duvidosa. Um estudo divulgado esta quarta-feira vem confirmar o problema, desta vez em escolas de Coimbra

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Dentro de portas há muitos poluentes nocivos para a saúde e dentro das quatro paredes de uma sala de aulas — onde se concentram diariamente mais de vinte crianças — o ar nem sempre é o mais saudável. Não só porque nesses espaços podem proliferar vírus e bactérias, mas também porque muitas vezes o ar interior é mais poluído que o que se respira no exterior.

Esta é a principal conclusão do estudo desenvolvido por Ana Ferreira, no âmbito da tese de doutoramento em Ciências da Saúde, apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra em 2015. Na tese (agora editada em livro - “Qualidade do ar interior em escolas e saúde das crianças”) a professora da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra conclui que na maioria das 51 escolas do 1.º ciclo do ensino básico do concelho de Coimbra “o ar interior que se respira é de má qualidade”.

A monitorização realizada em 2015 revelou a presença de concentrações de dióxido de carbono, compostos orgânicos voláteis, formaldeído e de partículas respiráveis e inaláveis (PM10 e PM2,5) “em níveis acima dos limites máximos permitidos por lei” o que, acrescenta a investigadora, “põe em causa a saúde, o conforto e o processo de aprendizagem das crianças”.

Na base destas concentrações poluentes está a falta de ventilação ou de arejamento das salas, o pó de giz, os detergentes e os materiais existentes no espaço onde se encontram as crianças e os professores. Diz a literatura científica que níveis elevados de dióxido de carbono (que resulta da respiração das próprias crianças fechadas numa sala) conduzem a desconcentração e dores de cabeça e que a má qualidade do ar interior faz aumentar o risco de doenças respiratórias, alérgicas e cardiovasculares.

Há cerca de um milhar de alunos a frequentar esta meia centena de escolas e a Câmara Municipal de Coimbra tem conhecimento da situação há cerca de um ano, garante Ana Ferreira. E, segundo ela,“ficou de analisar a situação”. Porém, a investigadora não tem conhecimento de que a autarquia “tenha feito qualquer alteração” e questionada agora pelo Expresso, a Câmara não deu resposta em tempo útil.

“O problema persiste e ninguém faz nada”

A concentração de poluentes nas escolas de Coimbra não é caso único. “O problema persiste e ninguém faz nada”, lamenta Eduardo Oliveira Fernandes, investigador da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e consultor da UE nesta área. O professor catedrático critica “a lentidão e displicência” com que as entidades públicas lidam com esta situação e lembra que “a Parque Escolar gastou milhões a fazer escolas ultramodernas, com janelas fechadas e equipamentos de ar condicionado que não têm dinheiro para pôr a funcionar, transformando as salas de aula em autênticas câmaras de gás, devido às elevadas concentrações de dióxido de carbono”.

Vários estudos indicam o mesmo problema em escolas de todo o país. Ainda no ano passado, um estudo da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (“Inairchild”) concluiu existirem quantidades excessivas de gás radão (um radioativo cancerígeno), assim como concentrações de partículas e de dióxido de carbono acima dos níveis admissíveis pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em metade das salas de aula de 58 creches, jardins de infância e escolas primárias analisadas na a Área Metropolitana do Porto e do distrito de Bragança.

Perante os resultados, a reação da Câmara do Porto foi dizer à comunicação social que não tinha autorizado o acesso dos investigadores às escolas e lamentar “informações deturpadas e alarmistas sobre a segurança e qualidade do seu parque escolar”. Bragança garantiu que os estabelecimentos não tinham qualquer risco para os alunos.

Dois anos antes um outro estudo também apoiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia — incidindo sobre 45 creches e infantários geridos por Instituições Particulares de Solidariedade Social, em Lisboa e no Porto (ENVIRH), constatou que a pieira nas crianças está associada ao facto de passarem muitas horas num ambiente fechado, com elevada ocupação humana e consequentemente níveis altos de dióxido de carbono, e que os episódios eram agravados quando se constatavam concentrações de compostos orgânicos voláteis e bactérias. Na altura, o coordenador do estudo, o imunoalergologista Nuno Neuparth, afirmou ao Expresso que “não existiam grandes problemas nos espaços analisados”, e que bastava seguir “recomendações simples” como arejar naturalmente mais as salas de aula.

“Estudos falam da perda de dois milhões de anos de vida na Europa, o que equivale em Portugal à perda de 40 mil anos de qualidade de vida devido à má qualidade do ar interior”, recorda Oliveira Fernandes, “pai” da junção pioneira em Portugal da legislação da qualidade do ar interior com a da eficiência energética.

Mas a legislação que obrigava a auditorias periódicas à qualidade do ar dos edifícios foi revogada em 2013, o que é criticado por Ana Ferreira. “Temos de inverter esta situação e apostar na prevenção de doenças, repondo a monitorização regular da qualidade do ar sobretudo em espaços onde as crianças são expostas durante muitas horas”, sublinha a investigadora. Por seu lado, Oliveira Fernandes lamenta “a inexistência de uma gestão pública responsável” e o facto de “todos estes estudo se terem perdido num saco roto”.

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