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“Abacates de sangue”

Há quem lhes chame os novos “diamantes de sangue”. No México, onde o mundo do crime é dominado pelos cartéis de droga e de tráfico de armas, os abacates estão a tornar-se o centro de uma nova guerra

Sempre que comemos um delicioso abacate, seja na sua versão de fruta ou em 'guacamole', a sua versão gastronómica mais popularizada, pensamos na riqueza do seu sabor, no facto de ser saudável, até um "superalimento". Mas certamente nunca pensamos que este fruto possa estar no centro de uma vaga de criminalidade. Pois bem, fique a saber: desde que a procura do chamado "ouro verde" disparou no mundo inteiro (em Espanha, em 2015, consumiram-se mais de 81500 toneladas de abacate, nos EUA esse número ascende a uns impressionantes 1,9 mil milhões de toneladas), o valor deste fruto passou a chamar a atenção de grupos criminosos. Ainda em 2013, a produção mundial de abacate tinha sido de 4.717.102 toneladas.

No México, o maior produtor de abacate – o país garante 33% da produção mundial -, vive-se uma verdadeira guerra entre cartéis que disputam o domínio das plantações de "ouro verde". A região de Michoacán, onde se concentra a maioria das plantações, é a mais afetada.

Um apanhador de abacates na região de Michoácan, no México, a principal área das plantações abacateiras

Um apanhador de abacates na região de Michoácan, no México, a principal área das plantações abacateiras

© STR New / Reuters

O cartel de drogas "Cabelleros Templarios" (Cavaleiros Templários) infiltrou-se no sector e controla agora todo o comércio local, da produção à distribuição. Os lucros estimados deste negócio eram de 152 milhões de dólares (144 milhões de euros) ao ano – o que permite entender porque é tão cobiçado. Os agricultores são obrigados a pagar avultadas maquias aos cartéis, que ameaçam de morte as suas famílias. Assim, veem-se forçados a agir à margem da lei, escondendo os abacates entre as árvores, deflorestando hectares de terra sem fim ou ateando incêndios para plantar depois o fruto.

Membros do cartel de drogas "Cabelleros Templários" apanhados pela polícia. Este é o principal cartel que se apoderou do negócio dos abacates no México, extorquindo os agricultores

Membros do cartel de drogas "Cabelleros Templários" apanhados pela polícia. Este é o principal cartel que se apoderou do negócio dos abacates no México, extorquindo os agricultores

© STRINGER Mexico / Reuters

Além de se ter tornado num bem de luxo, o cultivo massivo de abacates tem ainda enormes implicações ambientais, já que este necessita de quantidades muito elevadas de água - 242 litros para cada quilo de fruta, mais precisamente. A sua produção desenfreada conduz ainda à desflorestação de 600 a 1000 hectares de bosque no México, a cada ano.

Mas não é só no Mexico que se registou criminalidade relativamente ao abacate. Na pacata Nova Zelândia registaram-se este ano mais de 40 assaltos a plantações deste. Nos supermercados do país, cartazes avisam os ladrões de que à noite não fica dinheiro na loja... nem abacates.

Quanto a si, o que pode fazer na hora de consumir abacates? Perceber o país de origem, evitando comprar abacates mexicanos para conseguir reduzir os lucros deste negócio criminoso. E esperar que um selo de certificado ambiental seja colocado no mercado, garantindo que alguns abacates não contribuem para a destruição do meio ambiente.