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O espetáculo mais triste do mundo

GUERRA O menino sírio de 4 anos que olha o mundo após um ataque aéreo em Alepo

Aleppo Media Center/DPA/ Zuma press

Este não foi um ano fácil e chega ao fim ainda mais difícil. Recordar 2016 é olhar para a festa do circo e ver o que lá não está

O verdadeiro artista nunca desiste. Entra, agradece, faz meia dúzia de habilidades e guarda para o final o número mais arriscado, aquele que deixa o público com o coração nas mãos. É quase sempre aqui que algo corre mal. Um salto que falha, um prato que cai, uma mão que, lá no alto, escapa por entre os dedos de outra. Só que o verdadeiro artista não desiste, mesmo que todos à volta já tenham desistido de acreditar. Inevitavelmente, a coisa acaba bem para o artista, que agradece entusiasmado os aplausos da bancada. Esta é a história do circo e é por isso que, embora cansados, não podemos ficar descansados. Falta um dia para o fim, apenas um dia, mas não têm faltado números arriscados em 2016 - o ano que mais parecido foi com um circo.

Há duas semanas, num parque de Lisboa (mais dia menos dia, e mesmo sem perder a bela vista que tem, o parque arrisca-se a ser batizado com o nome de um festival de música), havia famílias inteiras a caminhar na pequena aldeia de Natal nascida à volta de uma enorme tenda de circo. Nada inspira mais o espírito de balanço do que o espírito natalício, ou não fosse o 25 de dezembro uma antecâmara do fim do ano – e isso, claro, não é um exclusivo de 2016. No entanto, há por estes dias algo diferente no ar. A última semana tem sido rica nos ditos balanços, um pouco por toda a parte e aqui no Expresso Diário também. Balanço do ano na justiça, na educação, na política internacional, na economia, no desporto...Balanço e mais balanço, como se tudo não passasse de um enorme carrossel que às vezes assusta e outras faz rir. Quem caminhasse pela pequena aldeia de vista bela tão depressa ouvia gritos como gargalhadas. Caminhar, porém, não chega.

Em meados de dezembro, a caminho da tenda do circo, e já a pensar no fim do ano que acaba, o mais fácil seria olhar para a roda gigante com os mesmos olhos que contemplam o carrossel e ver em ambos a vida de hoje. Sempre a mesma volta, sempre igual e sempre diferente. Um dia após o outro. Mas a grande lição do ano prestes a acabar, mais do que qualquer outra, é que há sempre algo mau a acontecer. Um dos divertimentos mais concorridos nas feiras, e a de Natal não é exceção, é o canguru - que além de andar à volta mete uns saltos pelo meio. Salto e sobressalto.

CAMINHO A estrada é lisa e limpa, mas cheia de sobressaltos

CAMINHO A estrada é lisa e limpa, mas cheia de sobressaltos

JUSTIN TALLIS/AFP/Getty Images

O Funchal está a arder? É o fim da Madeira. A Dilma foi destituída? É o fim do Brasil. O Brexit ganhou? É o fim da Europa. A extrema-direita avança? É mesmo o fim da Europa. O Trump ganhou? É o fim do mundo. E é assim, com medo de tudo - da economia débil, da natureza feroz e de políticos incendiários - que os pais levam os filhos pela mão.

Ninguém repara que com as letras de Alepo também se escreve apelo

O medo dos outros talvez seja a única coisa que não causa medo - o que ajudaria a explicar a indiferença com o que o mundo olha para a Síria, mesmo quando ela o olha de volta no rosto ensanguentado de um miúdo sentado numa ambulância. Como se fosse um jogo de guerra, batalha ganha, cidade perdida, depois reconquistada. A guerra está lá, depois já não está. E no meio de tudo ninguém repara que com as letras de Alepo também se escreve apelo.

GUERRA Destruição e morte na Síria

GUERRA Destruição e morte na Síria

SANA / HANDOUT/ EPA

Falta uma hora para o circo e há filas para tudo. Quase tudo. A vida não está fácil para a casa do terror. Aliás, nunca pareceu tão acolhedor o pequeno carrinho de ferro a avançar pela escuridão. Teias de aranha, gritos, vampiros, fantasmas e mulheres sem cabeça. O que é isso comparado com o que 2016 deixou do lado de fora? Estavam quase esquecidos os atentados terroristas de Bruxelas, em março, os ataques de lobos solitários em vários locais da Europa e dos EUA, sempre em nome do Daesh e de algo que parece incompreensível. Parecia tudo demasiado distante e, num instante, o camião atirado contra uma feira de Natal em Berlim leva tudo de volta a Nice e aos corpos estendidos no chão. Nisso, o carrinho cá de fora é igual ao da casa do terror. Começa e acaba no mesmo sítio, sem nunca descarrilar.

Mesmo ao lado está uma piscina improvisada, meia dúzia de enormes bolas cheias de ar com crianças lá dentro. Miúdos descalços que caminham sobre a água. É o impossível tornado possível, tão natural como um carro sem condutor ou uma máquina capaz de fazer algo parecido com pensar. Algoritmos, redes sociais que adivinham o que pensa e aquilo de que precisa o utilizador. Frigoríficos inteligentes, relógios e telefones tão avançados como frigoríficos, ainda que alguns possam explodir, televisões grandes, cada vez maiores, inteligência artificial e Internet das coisas.

Peças de um puzzle interminável e permanentemente em construção, sedutor na beleza e simplicidade que aparenta, mas capaz de esconder algo bem menos bonito: o trabalho sem condições de milhões de pessoas em cidades com nomes estranhos. Mas é assim mesmo, porque os miúdos também não reparam na alcatifa suja e molhada à volta da piscina nem no cigarro apagado ao canto da boca do homem que empurra as enormes bolas cheias de ar – e uma delas tem um remendo de fita adesiva azul.

VITÓRIA Os campeões europeus de futebol regressam a casa

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José Oliveira

Cheira a farturas e a noite chega às seis da tarde. Há luzes por todo o lado e música no ar. A estrada que leva ao circo tem as bermas cheias de felicidade. Um sinal de que mesmo num ano vestido de mau pode sempre haver algo diferente. Em 2016 foi aquela noite de julho, aquele 10 de junho que veio com um mês de atraso. A noite que foi o Dia de Portugal, da forma mais improvável, com um golo tardio do meio da rua que trouxe o país inteiro para a rua. Um mar de gente nas bermas para ver passar o autocarro onde vinha a taça. O júbilo nacional repetir-se-ia meses mais tarde com a eleição de António Guterres para o cargo de secretário-geral da ONU. Primeiro a Europa, depois o mundo.

Há uma razão para a pista do circo ser redonda. Não é a mais politicamente correta do mundo de hoje, que clama por um circo sem animais, mas a verdade é que era mais adequada para pôr os cavalos a correr. Além disso, permitia maximizar o número de espetadores na bancada e garantir que a vista era igual de todos os lugares. Hoje são cada vez mais raros os circos com animais e, para efeitos de balanço, deste balanço em particular, é importante notar que a pista é redonda precisamente para ser mesmo parecida com o mundo.

E às sete e cinco da tarde, havia mais lugares vazios do que ocupados na bancada, sinal claro de que a humanidade não está particularmente interessada no que se vai passando no mundo – uma espécie de triunfo da abstenção que este ano marcou várias eleições e baralhou um número bem maior de sondagens. Como em tudo, decidem os que estão.

2016 está pois na pista, em todo o seu esplendor, mas está também na cara de cada pessoa na bancada. Para umas terá sido um ano excelente, para outras o seu contrário. Celebraram nascimentos, alguns, choraram mortes, outros. Uns encontraram emprego, outros deixaram de o ter. Pode ter sido o melhor ano da suas vidas, e o pior também. Um 2016 por cada um, todos diferentes. Apenas iguais porque olham na mesma direção, à espera que duas mulheres com um microfone atravessem a cortina e lhes anunciem que vai começar o maior espetáculo do mundo. A metáfora do ano. Aplausos (pouco entusiasmados).

Os mais atentos terão reparado que o miúdo de óculos que dança à frente de um grupo de rapazes e raparigas é o mesmo que estava à entrada, atrás da mesa onde se vendem águas e chocolates. Será também ele que, no fim, acenará em jeito de despedida. É o quarto espetáculo do dia, porque o espetáculo não pode parar e no circo, como cada vez mais na vida e num mercado de trabalho em transformação, fazer apenas uma coisa não chega. Mesmo que pareça impossível fazê-la.

SOLUÇÃO António Costa, o primeiro-ministro de um Governo improvável

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Luis Barra

Colocar um homem aos ombros de outro, que por sua vez tem os pés nos ombros de um terceiro, e esperar que uma mulher seja atirada lá para o alto, para o último andar... Eis algo que parece tão possível como formar um governo minoritário num país da União Europeia cuja moeda é o euro com o apoio de partidos de esquerda que, entre outras coisas, desconfiam de ambos. Apesar de dois saltos falhados, a coisa acaba por funcionar e o público aplaude a mulher que, lá de cima, sorri com a mesma satisfação e alívio de alguém que, mantendo o Diabo ao longe, tivesse conseguido aprovar dois orçamentos e já pensasse no terceiro.

Os números sucedem-se no palco feito mundo. O malabarista vai somando argolas às que tem na mão e no ar, indiferente a tudo à sua volta. Quatro, cinco, seis... As peças vão subindo e descendo, todas iguais e sempre em movimento. O ritmo é frenético, quase presidencial no sentido Marcelo Rebelo de Sousa do termo. Mais uma, mais outra e agora são oito, ou nove... Já ninguém está a contar e, mesmo que caia uma no fim, o homem sai em glória porque, quem olha de fora, percebe que não deve ser fácil.

Entre a pista e as bancadas há uma espécie de lugares VIP. Cadeiras de plástico. Vazias e inacessíveis. O tal um por cento da humanidade, que segundo um estudo conhecido este ano detém a mesma riqueza que todos os restantes, decidiu não comparecer. Alguns miúdos brincam ali perto, chegam até a sentar-se e todos os outros amuam porque os pais não os querem lá. Como é possível? Quem não quereria estar ali a olhar para cima, para a rapariga suspensa por uma enorme fita? Há um instante em que ela larga as mãos e parece vir em queda-livre, o corpo a deslizar pela fita cada vez mais depressa até parar de repente a meio metro do chão. Uma espécie de Brexit. Ou algo parecido com o que terá sentido Hillary Clinton ao perder para Donald Trump.

SURPRESA Contra as sondagens, Donald Trump é o novo presidente dos Estados Unidos da América

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JONATHAN ERNST/Reuters

Já não há magia no circo, talvez porque o mundo parece cada vez menos mágico. A ilusão desiludiu. A economia digital é o mais parecido que existe. Empresas que aparecem do nada e se transformam em gigantes milionários. Negócios capazes de oferecer tudo, ainda que tenham muito pouco. Miúdos feitos estrelas de rock e adorados por miúdos que querem ser estrelas de rock. Basta uma ideia e tudo muda. Parece tão fácil como serrar alguém ao meio e os magos sobem ao placo das summits, não só para mostrar que é possível, como também que é verdade. Os magos aprendizes aplaudem, como se fossem simples humanos espantados por alguém ter tirado um coelho da cartola.

TECNOLOGIA Milhares de pessoas encheram a Web Summit de Lisboa

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Nuno Botelho

Eles, melhor do que ninguém, percebem como o mundo é complexo. E não se entusiasmariam por ali além com as duas raparigas no centro da pista. A sala está completamente escura e elas brincam com uma imensidão de raios de luz verde. Os efeitos sucedem-se. O sabre de laser vem antes das grades da prisão e, pelo meio, existem desenhos semelhantes aos esquemas usados para demonstrar o complicado roteiro das transferências financeiras para offshores – um Panama Papers, sem o papel. Ou os índices da bolsa, ou a saúde financeira dos bancos. O público contempla em silêncio, tão espantado como perplexo. “É o meu número preferido”, comenta alguém na bancada. “É bom, mas é igual há três anos”, responde a pessoa ao lado. Nada é novo.

Vem depois uma contorcionista. Figura após figura testa os limites do corpo humano. A prática é a diferença entre a artista e quem a aplaude. Com treino suficiente, podiam trocar de papéis. Mas como seria se, num instante, o papel onde cabem as suas vidas fosse atirado ao chão? Quem ficaria para aplaudir se a única alternativa fosse fugir? Caminhar para longe, sem saber para onde? Atravessar aldeias, cidades, desertos, oceanos? Como seria ser apenas uma dos milhões de pessoas refugiadas que caminham no mundo? Que vivem em tendas porque perderam a casa, e que depois perdem a tenda também? Que morrem a tentar salvar a vida? Que já não correm atrás de sonhos, mas apenas para fugir a pesadelos?

REFUGIADOS Milhões fogem do pesadelo

REFUGIADOS Milhões fogem do pesadelo

MARKO DJURICA/ Reuters

Há duas maneiras de encarar o palhaço que chega à pista à beira do fim. A tenda está escura, com exceção de um foco de luz que o acompanha. Ele traz um microfone na mão e canta uma das músicas mais famosas de Jacques Brel. “Ne me quitte pas. Ne me quittes pas”, diz ele. Mas é isso que o foco de luz faz. Deixa-o na pista e reaparece na bancada – e o palhaço corre atrás dele e, quando o alcança, pede de novo: “Ne me quitte pas”. Este foi o ano em que muitos deixaram de cantar. Quase todos os preferidos de alguém. 2016 é um ano de mortes. A outra forma de encarar o que vai acontecendo no circo – onde o palhaço tenta subir a uma das torres, sempre atrás da luz - é que este ano acaba sem ter chegado ao fim. Deixa o mundo a meio de qualquer coisa, a correr atrás da esperança e a pedir “Ne me quitte pas”.

Numa noite limpa de inverno, há uma ideia na cabeça de quem leva os filhos pela mão de volta à realidade fora da tenda. Este foi o ano de uma estranha forma de confirmação. O mundo é uma casa e aquele buraco no teto, por onde entra a água da chuva, está cada vez maior. O mais assustador, porém, é que há cada vez menos gente preocupada a discutir a melhor solução para o remendar. E cada vez mais gente a discutir como será perigoso o lago que vai aparecer na sala.