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Sociedade

Número de bebés volta a aumentar

Diagnóstico de 25 doenças genéticas é feito na primeira semana de vida

Rui Ochoa

80.399 testes do pezinho já feitos são mais do que em 2014 e 2015. “Parentalidade foi descongelada”

O ano está a terminar e a ‘cegonha’ foi generosa com os portugueses. Pelo número de testes do pezinho feitos aos bebés nascidos nos primeiros onze meses do ano, verifica-se que, em média, nasceram por dia mais oito crianças do que no ano passado. Ao todo, foram rastreados 80.399 recém-nascidos, mais 2760 do que em 2015 e mais 4946 do que há dois anos.

Apesar de a natalidade em Portugal continuar abaixo dos 90 mil nascimentos anuais, o número de crianças está a aumentar pelo segundo ano consecutivo. A tendência é demonstrada quer pelo volume de testes do pezinho, feitos pela Unidade de Rastreio Neonatal, Metabolismo e Genética do Instituto Ricardo Jorge (INSA) a todos os bebés que nascem em Portugal, quer pelos dados da Pordata e do Instituto Nacional de Estatística.

Pelos registos do INSA, os 75.453 rastreios feitos em 2014 aumentaram para 77.639 em 2015 e para 80.399 durante este ano, de janeiro a novembro. Já no balanço para a totalidade do ano, 2014 terminou com 83.100 testes e 2015 com 85.056. O histórico permite ainda aferir que, em média, no mês de dezembro são habitualmente rastreadas perto de 7500 crianças, pelo que, a manter-se a tendência, 2016 terminará com 87.899 recém-nascidos. Por outras palavras, o saldo final será o mais elevado desde 2014.

Os cálculos demográficos mostram o mesmo fenómeno de crescimento da natalidade pelo segundo ano consecutivo. Os 82.367 bebés nascidos em 2014 — o valor mais baixo de sempre — aumentaram para 85.500 no ano passado e este ano, pelas indicações do teste do pezinho, será também ligeiramente mais elevado. Mas mesmo com mais nascimentos, Portugal continua a ser um país envelhecido. Tem a segunda pior taxa de natalidade da Europa, com 8,3 nascimentos por 100 mil habitantes, apenas superada pela Itália, com 8,0. Na média da União Europeia a 28, o valor é melhor: dez bebés por cada 100 mil pessoas.

Para os especialistas, o aumento dos nascimentos é um sinal de que a crise económica já passou. “No período entre 2010 e 2013, em que a severa crise económica e financeira mais se fez sentir no nosso país, o declínio da natalidade que se vinha verificando agudizou-se em consequência de um crescente adiamento dos nascimentos. A inversão da tendência e a recuperação da natalidade estão relacionadas com a recuperação desses nascimentos adiados”, explica Maria Filomena Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Demografia.

A demógrafa Maria João Valente Rosa fala mesmo no ‘descongelar’ da parentalidade. “A tendência para o declínio dos nascimentos em Portugal foi reforçada pela conjetura. Deu-se, assim, um certo ‘congelar’ de intenções de parentalidade e a recuperação dos anos 2015 e 2016 é muito reflexo dessa transferência no tempo do projeto de ter um filho.”

Maioria sem pais casados

A investigadora salienta ainda a importância que o filho único tem já na estrutura demográfica portuguesa. “A idade média das mulheres ao nascimento do seu primeiro filho é de 30,2 anos em 2015, em 2000 era de 26,5 anos, e isso leva ao adiamento da chegada de outros que, em cada vez mais casos, nem chegam a aparecer. O filho único em Portugal está a adquirir uma importância muito assinalável, mesmo no quadro europeu”, diz Maria João Valente Rosa.

Igualmente cada vez mais comuns são os meios-irmãos — “em 2015 em um em cada cinco nascidos os pais tinham filhos anteriores não comuns, quando no ano 2000 era um em cada dez” —, e os filhos de pais não casados (51%), o que “coloca Portugal, no contexto da União Europeia, próximo de países como a Suécia ou a Dinamarca”, salienta.

A investigadora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas não tem dúvidas: “Nascer hoje em Portugal nada tem que ver com o nascimento há algumas décadas.” Desde logo, “as mães são menos jovens, mais escolarizadas e mais ativas; os irmãos biológicos são menos, os contextos familiares em que se vive podem ser múltiplos e as composições familiares deixaram de respeitar um único padrão”.