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Espelho meu, espelho meu: será que toda a gente quer o mesmo que eu?

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

(texto)

Jornalista

Rita Isabel Pardal

(infografia)

Infografia

VikaValter

Todos os anos seguimos as tendências que o mundo nos impõe e nem damos por elas. Vestimos o que está na moda, sentimos que precisamos de um novo aparelho de alta tecnologia, fazemos o desporto que toda a gente pratica e adotamos os comportamentos da maioria. Claro que há outsiders que não fazem nada disto, mas mesmo esses vivem na antítese daquilo que lhes é imposto. Faz parte do mundo em que vivemos.

Comecemos pelo individualismo, pelo domínio técnico e pelo autocontrolo. Os termos são conhecidos, mas talvez não tenhamos noção de que estão inseridos na forma como encaramos o dia a dia de forma tão vincada. Tratam-se das “Novas Rotinas de Autoestima”, identificadas no último ano e que este ano voltam a ser analisadas — uma vez que vão continuar a marcar as nossas escolhas em 2017. A sociedade está cada vez mais estetizada, e a tendência não se resume ao consumo. Já lá vamos. A estética está cada vez mais ligada ao nosso corpo.

No último número do estudo “Tendências de Mudança do Consumidor”, lançado este ano pelo The Consumer Intelligence Lab (C-Lab), torna-se percetível que, mais do que seguir a ditadura das tendências de moda, estamos a caminhar para um tempo marcado pela ditadura do corpo. De acordo com o universo de consumidores analisado, agora a tendência é “melhorar aquilo que intrinsecamente se é”. Não vale de nada adornar um corpo que não reúne as características que cada um considera certas. O trabalho é constante, e os resultados podem ser conseguidos das mais variadas formas. Depois de uma época em que as principais despesas pessoais estavam ligadas ao vestuário, à cosmética e ao cabeleireiro, chegou a vez de novos produtos tomarem a dianteira. Hoje, estão em voga os consumos relacionados com a manutenção da boa forma física, com o combate ao envelhecimento e com a alimentação saudável. “O desporto, os cuidados alimentares e os cuidados com o peso surgem como os aspetos mais consensuais para se conseguir atingir ou manter uma boa aparência”, lê-se.

Há tendências que se mantêm — não mudamos tanto assim com o virar do ano —, mas ganham sempre novas dimensões. A prática desportiva continua a fazer parte da sociedade portuguesa — e é bom que continue a crescer, mas está diferente. Mais de metade (59,2%) dos inquiridos pelo C-Lab refere fazer (cada vez mais ou como sempre fez) desporto ao ar livre, ao passo que 39% optam por praticar desporto no ginásio. O desporto deixou de constituir uma atividade de tempos livres e passou a ser parte integrante do estilo de vida de cada um, sempre com uma componente estética associada.

Desengane-se quem pensa que a febre do desporto surgiu sozinha e que o consumo não está associado à prática. Para o bem e para o mal, é também através deste que muitas das alterações têm acontecido. As transformações do lado da oferta estão mesmo a alterar a forma como nós, os portugueses, nos relacionamos com o desporto. A existência de novas atividades desportivas, aliada a uma melhor oferta de ginásios, material desportivo mais acessível e uma maior oferta de roupas e acessórios de fitness tem o seu papel, mas há novos protagonistas que nos despertam a vontade de fazer exercício. Há mais gadgets no mercado e com estes wearables (como os monitores de atividade ou os smartwatches) vêm as aplicações dedicadas — não raras vezes associadas a marcas de retalho desportivo.

A procura de ajuda especializada

Por vezes, o esforço no ginásio e o autocontrolo à mesa não são suficientes e é necessário recorrer à chamada indústria da beleza para corrigir aquilo que de outra forma teria de se manter inalterado. No último ano, e de acordo com a International Society of Aesthetic Plastic Surgery, foram realizados 21 milhões de procedimentos cosméticos (cirúrgicos e não cirúrgicos) em todo o mundo. Por cá, também estamos mais predispostos para melhorar — mesmo que isso implique uma ida a uma clínica ou a tratamentos mais demorados num centro de estética.

Hoje também se aposta mais na personalização, com os piercings e as tatuagens a ganharem terreno, numa tentativa estetizada de fugir às normas. Mas será o desvio tão grande assim? Talvez não seja, uma vez que este tipo de tendências encerra em si uma série de paradoxos. Mesmo que se enfatize o protesto contra a ditadura da beleza, a pressão social para que se cuide da aparência permanece intocável. É verdade que o sentido de belo está cada vez mais lato, mas o corpo é, a cada ano que passa, objeto de um maior número de normas de homogeneização. Afinal, em que ponto estamos? E para onde queremos seguir? “É inegável a procura de validação social dentro dos grupos onde cada um se move”, conclui-se.

O mundo está a fazer com que as diferenças entre géneros se diluam cada vez mais. O homem e a mulher ainda são seres muito diferentes, mas a tendência é que se aproximem. O sexo masculino está a tornar-se mais consciente de si e a perceber a importância de transformar os seus pontos fracos em pontos fortes. A liderança neste ponto ainda é do sexo feminino — que se controla mais, é mais interessado em aprender novos rituais de beleza e está mais atento aos produtos que consome —, mas as diferenças estão a dissipar-se rapidamente. Os homens já seguem dietas para perder ou controlar peso, tentam escolher produtos de beleza e de higiene de melhor qualidade e estão mais alertados para a sua composição.

Nas camadas mais jovens, as mudanças são ainda mais notórias. O comboio da igualdade não vai mesmo parar e, de acordo com o estudo desenvolvido pelo C-Lab com jovens entre os 10 e os 17 anos no último ano, até vai acelerar. Os rapazes já se preocupam tanto com o cabelo como as raparigas e preocupam-se mais com os dentes e com o calçado do que o sexo oposto. A salientar há uma surpresa: os adolescentes do sexo masculino também já se preocupam com as unhas. Para o futuro, o C-Lab prevê uma sociedade em que “os homens terão condutas mais pautadas pela moda, serão maiores consumidores de cosméticos e frequentadores de ginásios, e mais atentos ao corpo”. Não será já em 2017, mas há tendências que não mentem.

Não é apenas no que toca aos maiores cuidados com a alimentação e com a prática desportiva que olhamos cada vez mais para nós. A realidade rapidamente passa do real para o universo das aplicações móveis, com o fenómeno da selfie — fotografia que cada utilizador tira a si próprio, muitas vezes com o intuito de a partilhar em redes sociais como o Instagram — a tomar as rédeas do nosso ser.

Ao fomentar um novo tipo de exibição em que a tónica está mais sobre a imagem do que sobre a personalidade, a cultura da selfie aguça a consciência da própria aparência e eleva a fasquia da imagem que se quer projetar”, lê-se nas “Tendências de Mudança do Consumidor” deste ano. Os inquiridos do estudo não fogem às regras deste mundo, e é nas camadas mais jovens que a prevalência da selfie se impõe. Na faixa etária dos 20 aos 24 anos, são 62% os que referem tirar fotografias deste tipo, com 48% dos adultos entre os 25 e os 34 anos a seguirem a mesma tendência e a percentagem de respostas positivas a descer para os 38% entre os 35 e os 44 anos. Depois, volta a subir para os 41% entre os 45 e os 55 anos e a descer nos +55 anos, onde são 28% os que tiram fotografias de si mesmos. Trata-se de uma “versão melhorada de quem se expõe, uma autorrepresentação estética que carece de validação, na forma de likes ou de comentários”.

Mesmo que não seja de forma direta, na forma das tão faladas selfies, as redes sociais vão continuar a desempenhar um papel fulcral na construção deste eu em constante mudança. É em espaços como o Instagram, o Facebook ou o Pinterest que se procura inspiração em temas relacionados com a imagem pessoal, com as mulheres a revelarem-se muito mais curiosas neste campo (66%) do que os homens (30%).

Embora pareça, não é apenas o umbigo de cada um que importa, e a consciência do valor de ser português também se está a alterar. Hoje, e depois de vários anos de recessão económica e de uma forte austeridade, olhamos de forma distinta para o nosso país. Parece notório que queremos aproveitar o que nos rodeia. “O Valor de Ser Português”, monitorizado pelo C-Lab desde 2011, altura em que a tendência foi identificada, está diferente. Já não se trata de tentar defender os produtos, empresas e serviços portugueses, consumindo-os, nem da redescoberta do espaço público — identificado no ano passado. Agora estamos a olhar para nós como os estrangeiros nos olham: com olhos de quem vê e quer usufruir de tudo da melhor forma, sendo as principais alavancas deste renovado valor o turismo, a regeneração urbana e a nova classe criativa.

A diferença é grande e bastou um ano para que a percentagem de pessoas que se identificam com a expressão “Sinto que hoje em dia dou mais valor a determinadas coisas no meu país a que dantes não ligava tanto” aumentasse consideravelmente. Em 2015, era de 44,1%, tendo subido este ano para 53,6%. Em 2017 seremos potencialmente melhores do que em 2016 e talvez também sejamos mais portugueses