Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

O “menino do gavetão” já tem 100 anos e levou quase metade da vida a pôr a prata na ordem

CEM ANOS DE VIDA Fernando Martinez Moitinho de Almeida, um engenheiro de minas apaixonado pela ourivesaria

Quando o Expresso falou com Fernando Martinez Moitinho de Almeida este completara 98 anos no dia 18 de maio. Vicissitudes da vida dos jornais e jornalistas, impediram a publicação desta conversa, contudo, seria injusto para o protagonista e para o leitor deixá-la na gaveta. Eis o homem que tem em casa milhares de marcas de prata e que quando olha para uma peça desse elemento químico metálico descobre-lhe a história

Anabela Natário

Anabela Natário

Texto

Jornalista

André de Atayde

André de Atayde

Vídeo

Jornalista

Nasceu de sete meses, e o médico disse: “isto é para deitar fora”. Moitinho de Almeida riu-se ao contar o episódio, em 2014, “andava por cá há 98 anos”. Agora, já tem 100 anos e o seu quotidiano continua a processar-se da mesma forma. A sua história merece ser contada não apenas pelo seu século de existência, contrariando o vaticínio médico, nem pelo facto de ser filho do último patrão do poeta Fernando Pessoa, mas, especialmente, por ser o engenheiro de minas que pôs na ordem as marcas de prata portuguesas e brasileiras, desvendando a mais antiga medida de proteção ao consumidor, a contrastaria.

Era tão pequenino que as enfermeiras do Hospital da Estefânia arranjaram uma gaveta maiorzinha, encheram-na de algodão e deitaram o bebé lá em cima. Passados uns anos, em tempos de rapazote endiabrado, foi parar ao mesmo estabelecimento hospitalar de Lisboa, com a cabeça enfiada numa cadeira. Ao ser pronunciado alto o seu nome, veio de lá a enfermeira-chefe que, olhando-o, disse: “Ah este é o menino do gavetão”.

“Tem piada não tem”, diz a rir-se Fernando Martinez Moitinho de Almeida, nascido em 18 de maio de 1916, filho de Maria Adelaide de Senna Martinez e do comerciante Carlos Eugénio Moitinho de Almeida com escritório de comissões e consignações montado no primeiro andar da joalharia Moitinho, na rua da Prata, em Lisboa, onde deu emprego a Fernando Pessoa, desde 1924 até à morte do poeta, quando este contava 43 anos e o "Fernandinho” 18 de idade.

Tirando o facto de possuir o mesmo nome próprio, não se relacionou muito com o “senhor Pessoa”, como todos se referiam ao poeta no escritório. “Quando o via, ele dizia: 'então Fernandinho, como vai a nossa sociedade?' Só por sermos os dois fernandos. Mas nunca tivemos uma conversa grande”, conta, relembrando que era “muito miúdo” e a diferença de idades fazia-se sentir, bastante. (A conversa com o Expresso, em 2014, foi no escritório da sua casa de Lisboa, onde as paredes estão forradas de caixas de arquivo, com marcas da prata, que Moitinho continuava a manusear com alguma desenvoltura).

Foi no ano da morte de Pessoa, em 1935, que tiveram um encontro mais prolongado, embora pontual. “Andámos os dois a fazer documentação para o passaporte e para a licença militar”, diz Moitinho de Almeida, isto porque os seus pais estavam a passar uma temporada no Algarve e havia um curso de rotário que ele tinha de frequentar. O seu pai era rotário e “gostava imenso daquilo”, o irmão mais velho já tirara o mesmo curso na Suíça. A pesquisa foi um processo demorado, enquanto não se lembrou que o facto de ter nascido na Estefânia fazia com que o registo do nascimento estivesse no arquivo dos hospitais e não na respetiva freguesia.

Fernando é o mais novo dos três filhos (dois rapazes e uma rapariga) de Maria Adelaide e de Carlos Eugénio. Desenvolveu uma personalidade diferente do irmão, não na vontade de fazer, mas na postura perante a vida. Luís Pedro Senna Martinez de Moitinho de Almeida, nascido em 1912 e desaparecido em 2005, com 93 anos, foi um advogado dinâmico, autor de livros de direito, mação, presidente da Liga dos Direitos Humanos, presidente dos Rotários... Era um homem público, Fernando sempre foi mais recatado, estudioso, solitário.

Apesar de mais parecido no feitio com o poeta, é o seu irmão Luís, mais velho quatro anos, quem ganha intimidade com o “senhor Pessoa”, correspondente comercial, conhecedor da língua inglesa, indispensável à efetivação de negócios internacionais, que escrevia cartas e anúncios à máquina, a mesma de que se serviu para criar parte do Livro do Desassossego (o patrão Vasques é o pai dos Moitinho de Almeida) ou a Tabacaria, entre outras prosas e poesias. Mas também diversos slogans como, em 1928, “Primeiro estranha-se. Depois entranha-se” para a Coca-Cola. “A mercadoria começou a vender-se em ritmo animador, mas o slogan de Fernando Pessoa ajudou à morte da representação da Coca-Cola por meu pai”, contou Luís, num artigo que escreveu em 1982 para o “Jornal de Letras”.

Perante o slogan, Ricardo Jorge que era, à data, diretor de Saúde de Lisboa, entendeu — contou ainda Luís, no mesmo artigo, atribuindo a fonte ao próprio Pessoa — que este era o “próprio reconhecimento da toxicidade do produto, pois que, se primeiro se estranha e depois se entranha, isso é precisamente o que sucede com os estupefacientes que, embora tomados a primeira vez com estranheza, o paciente acaba por adquirir a sua habituação”.

Desse episódio ou de outros ligados ao poeta de a “Mensagem”, Fernando Moitinho de Almeida não tem qualquer recordação, é ainda criança, em contrapartida lembra-se de os seus tempos de escola serem “maus”. A instrução primária foi feita em casa, mas na quarta classe, como tinha de ser sujeito a um exame, passou para a Escola Académica, onde apanhou “várias vezes com a asinha... E o menino chumbou”. Perante o facto, não teve férias, o pai mandou-o para um colégio e lá acabou por conseguir passar para o liceu.
“Não fui brilhante no liceu. A partir do 5.º ano tive um professor de geologia que era bom e que eu apreciava e comecei a apreciar geologia. E fui mais longe do que julgava”, admite Fernando que também teve algumas dificuldade ao cursar a faculdade, já que, a dada momento, foi mobilizado para a tropa, e viu-se obrigado a “faltar uma quantidade de tempo”. Então, decidiu matricular-se na cadeira de que mais gostava, como aluno externo, e assim saiu engenheiro, o primeiro da família.

Durante quase 50 anos, Moitinho de Almeida não pensou em dedicar-se à contrastaria, ou seja, à avaliação de metais preciosos e joias, muito embora a ourivesaria já tivesse interessado o seu bisavô Luís Pinto Moitinho.. A sua formação foi feita no Instituto Superior Técnico (IST), onde se licenciou em engenharia de minas em 1943, e foi, até 1949, assistente do professor Ernest Fleury, suíço radicado em Portugal, desde que o convidaram em 1913 para lecionar as cadeiras de Geologia e de Paleontologia, no IST.

Tem 33 anos de idade quando deixa o Técnico e ingressa na Direção-Geral de Minas e Serviços Geológicos de onde só sairá em 1982, para se reformar. Mas não para ficar parado. Cerca de dezasseis anos antes, começara a interessar-se pela prata, pelas datas e contrastes, origem, autor... A “culpa” foi de um tio da mulher — Maria Luísa Gomes de Abreu Baptista, com quem se casou em 1945 e teve sete filhos que já lhe deram 16 netos e 13 bisnetos —, de quem herdou uma peça que lhe despertou o interesse para uma área que ocuparia meio século dos seus tempos livres.

“Vi que isto tinha duas marcas mas eu estava habituado, porque a família dizia que a prata antiga tinha bicha, e esta não tinha essa incisão que fazem para tirar um bocadinho de prata para ver se tem o teor que se deseja”, conta o homem que há de escrever a “bíblia” para as avaliações de ourivesaria, mas também a primeira “Carta Geológica do Concelho de Lisboa, na escala de 1/10 000”, publicada em 1986, além de um livro dedicado a “Os peixes miocénicos portugueses”. E por duas vezes mereceu louvor público, a primeira em 1957, pela atividade realizada para os Serviços Geológicos, durante a erupção do Vulcão dos Capelinhos; a segunda, em 1966, pela colaboração prestada ao “Gabinete da Ponte sobre o Tejo”.

A falta da bicha na peça herdada fez com que desatasse à procura de outras para poder fazer comparações e, quem sabe, descobrir a sua origem. Na sua busca, feita primeiro na prata da casa, literalmente, viu que “havia coisas diferentes” e letras cujo significado desconhecia. Intrigado, foi consultar a “internet” da altura, isto é, a Enciclopédia Luso-Brasileira, obra que se consultava quando se pretendia conhecer melhor algo. “Encontrei uma coisa com bonecos... A contrastaria. E eu nem sabia que havia”, e quando percebeu por onde começava a caminhar, recorreu a outro instrumento precioso à data: “Fui à lista telefónica para ver onde haveria contrastaria. Havia em Lisboa e no Porto. Fui à de Lisboa, mostraram-me um livro do senhor Vidal [Marcas de Contrastes e Ourives Portugueses, de Manuel Gonçalves Vidal]. Vi então que havia várias coisas”, conta Moitinho de Almeida que se dirigiu de seguida à Faculdade de Belas Artes, no Chiado, e teve “tanta sorte” que falou com Reinaldo dos Santos, o professor que tinha publicado o livro “A Ourivesaria Portuguesa nas Coleções Particulares”.

“Depois, foi à procura de peças por todo o lado”. Começou também a frequentar leilões e a policia do regime ditatorial, desconfiada de tudo e de todos, chegou a perguntar-lhe o que é que ele andava para ali a fazer. Não se ralou, importava-lhe o passatempo que estava a descobrir e que haveria de concretizar também em diversos livros, a convite do escritor Ruben Andersen Leitão que quando era diretor da Casa da Moeda lhe lançou o desafio. “Você anda a fazer isto? quer colaborar connosco?”, perguntou-lhe e a resposta do 'engenheiro de contrastaria' saiu pronta: “Vou com uma condição, que publiquem dois livros, um com marcas antigas e outro com modernas”.

“Mas era um hóbi, mesmo. Fazia à noite”, recorda Moitinho sobre a atividade que desenvolve há 50 anos. Fernando recolhia elementos sobre peças aqui e ali, na sua maioria, em catálogos que transformava em fichas, arrumando-as na secção de notícias e publicações. As marcas arquiva-as em caixas de “slides”. E ainda faz apontamentos para juntar ao arquivo, sobre alguma peça erradamente catalogada ou uma ou outra que desconhecia. Até há dois anos, ainda lhe levavam lá a casa peças para ele avaliar e descobrir proveniências, assim como amostras geológicas para descortinar.

“Nunca recebi um tostão da colaboração prestada, a única, em dinheiro, foi das publicações na Casa da Moeda. É uma questão de orgulho. Se pusesse dinheiro nas coisas não me satisfazia”, diz Moitinho de Almeida que tem em casa milhares de decalques em papel de estanho com marcas de prata, o que significa que pelas suas mãos passaram outros tantos milhares de peças.

Ao fazermos uma busca na internet sobre ourivesaria ou prata, um dos nomes que surge invariavelmente é o de Fernando Moutinho de Almeida, apesar de este nem sequer ser um utilizador da rede global. Mas o seu trabalho, a sabedoria adquirida pelas análises desenvolvidas ao longo de meio século dão-lhe um lugar de destaque no estudo da contrastaria iniciado por José Alves Carneiro, que publicou em 1892 “O Auxiliar do Fabricante de Ourivesaria”, e continuado em 1927 por Laurindo Costa com “As Contrastarias em Portugal”.

“Cada um destes autores criou a sua própria numeração para as marcas que divulgou, fazendo os seus próprios desenhos, tentando dar-lhes uma cronologia e, na medida do possível, atribuir nomes que correspondessem a essas mesmas marcas. Muitos erros foram cometidos, o que é perfeitamente aceitável tendo em conta os escassos meios técnicos e humanos, bem como o desconhecimento da imensa quantidade de documentos perdidos nos mais diversos arquivos”, afirmam os peritos de prata e joias Henrique Correia Braga e Sofia de Ruival Ferreira.

“Com Fernando Moitinho de Almeida, é dado o passo definitivo na estruturação de uma base de dados dos ourives da prata, numerados por cidades e descrevendo os objetos em que as marcas tinham sido observadas, ficando com um arquivo das mesmas que possibilita saber se uma determinada peça já foi inventariada ou não”, salientam os mesmos peritos no seu site Ourivesaria Portuguesa.

A descoberta do tinteiro

O pretexto do encontro com Fernando Moitinho de Almeida começou por ser um tinteiro de prata que se sabia antigo, mas sobre o qual não se conhecia absolutamente mais nada. Ao mostrar-lhe a peça, herdada do meu avô ourives, o especialista começou por procurar o contraste mas já desconfiado de que não se tratava de uma peça vulgar.
Antigamente, chamava-se a este tipo de peça “escrivaninha”, disse para afirmar que, na certa, se tratava de uma miniatura, coisa que lhe dava a entender ter a prata sido usada com outro fim que não o de depósito de tinta para molhar a pena e escrever.
Nessa altura, os seus 98 anos de idade não o impediram de procurar a marca que sabia dever estar no pé do tinteiro nem tão pouco a correspondência das letras gravadas na prata, decalcando-as em papel de estanho, com a parte de mate virada para cima, usando depois um tecido felpudo, como sempre fez. Apenas precisou de ajuda para retirar da prateleira a caixa arquivadora com os seus apontamentos sobre o ourives que a concebera a dita miniatura de escrivaninha.

Logo ali, foi dizendo que a peça saíra das mãos de António Fernandes, ourives registado em Lisboa que deu os primeiros passos, como de uso e costume, aos nove anos, no seu caso na confraria de Nossa Senhora da Assunção, tendo por mestre José da Silveira. Dias depois, Moitinho de Almeida, com a ajuda de uma das filhas, enviou um email com o historial da peça, por si escrito e assinado.

Graças a Fernando Moitinho de Almeida, conhecem-se hoje milhares de marcas de prata, milhares de histórias de peças. E ficou a conhecer-se a miniatura com que António Fernandes, que chegou a ser o administrador do cofre da Confraria de Santo Eloy (a associação dos ourives da prata) conseguiu tornar-se ourives de profissão aos 16 anos de idade.