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Geringonça? Pós-verdade? Campeão? Venham as palavras do ano

Em Portugal a escolha é previsível, lá fora é inquietante

Luís M. Faria

Jornalista

Pós-verdade

A escolha da palavra do ano é um dos rituais de fim de ano, e tem mais interesse do que se pensa. Uma palavra pode captar o espírito do tempo de forma instantânea, proporcionando reflexões úteis. Este ano, a Oxford Dictionaries escolheu 'post-truth', e escolheu bem. Pós-verdade é um estilo de comunicação em que a 'verdade', definida como aquilo que podemos apurar e discutir de forma racional, se torna menos importante do que as emoções e as crenças das pessoas – aquilo em que elas desejam acreditar. Pelo lado do emissor, a pós-verdade é uma prática ativa de mentira e exagero (em politica, Trump tornou-se o exemplo de escola. A sua campanha vitoriosa este ano foi uma longa sucessão de falsidades, tão descarada, intensa e prolongada que gerou um efeito de impunidade, como às vezes acontece). Pelo lado do recetor – o público, genericamente falando - não se trata apenas de ignorância, embora haja uma ligação íntima com esta. A atitude deliberada, arbitrária, de creditar aquilo que gratifica os nossos preconceitos e descontar o resto é um vício frequente e subestimado.

Na mais banal conversa com um crente ou partidário seja do que for descobrimos elementos dessa atitude. Alarmante é quando ela começa a alastrar. Sempre houve mentira mais ou menos constante nos debates públicos, mas um grau de controlo exercido por uma variedade de instituições, desde a imprensa a organismos oficiais ou não-oficiais de vários tipos, costumava impedir o delírio de ultrapassar níveis perigosos. Mesmo as estatísticas podem ser massajadas, mas só até certo ponto. Contrariar factos consensuais era algo que se fazia com cautela e moderação. Mas quando as instituições de controlo enfraquecem e os políticos entendem poder ignorá-las sem sofrer consequências, as condições do debate público alteram-se, e para pior. Não por acaso, Trump passou a sua campanha a invetivar os media tradicionais, aos quais chamava 'corrupt media' sempre que o investigavam e criticavam. Ao mesmo tempo, multiplicava tweets, lidos e partilhados por milhões de pessoas, com teorias conspirativas sem a menor base visível. O próprio facto de a imprensa lhe apontar erros e contradições reforçava, para muita gente, a ideia de que ela era parcial. A verdadeira verdade, a verdade não manipulada, estava na net.

O problema das teorias da conspiração, segundo explica um livro recente, é que na mente de quem as aceita elas são reforçadas por tudo, até pelos desmentidos. Quem é capaz de acreditar em certas teorias também consegue integrar nelas as informações que as desmentem; ou, no mínimo, o facto de as alegadas informações serem dadas por determinadas pessoas num determinado momento. O debate sobre o Brexit também foi cheio dessas desconfianças que são certezas (sobretudo quando alguém aludia às previsíveis consequências negativas de uma saída da EU para a economia britânica) bem como de promessas obviamente irrealistas que foram desmentidas logo que surgiu o resultado do referendo. 350 milhões de libras extra semanais para o Serviço Nacional da Saúde? Apenas uma de várias mentiras que foram retiradas após cumprirem a sua missão.

Geringonça

Ao pé de questões magnas que implicam o futuro da Europa e do mundo, as pequenas tricas políticas do nosso país são quase insignificantes. Mas temos de falar delas, pois a palavra do ano aqui, ao que tudo indica, vai ser 'geringonça'.

A votação é promovida e gerida pela Porto Editora, que só anunciará o resultado no próximo dia 4. Sabe-se que 'geringonça' vai à frente, seguida de 'campeão', termo cuja pertinência este ano não requer esclarecimento. Com geringonça é mais complicado. Os dicionários explicam que se trata de um aparelho ou artefacto mal-amanhado, de funcionamento pouco fiável. A palavra foi originalmente aplicada à atual solução governativa pelo colunista Vasco Pulido Valente. Paulo Portas retomou-a e deu-lhe circulação geral, com a colaboração entusiástica de outros políticos e dos jornalistas.

Pode-se questionar se o governo de António Costa é realmente tão frágil como o termo sugere, mas isso só o tempo permitirá concluir. O que parece claro é que 'geringonça' adquiriu conotações ambíguas. Para uma boa parte dos eleitores, estará longe de ser uma expressão tão negativa como originalmente se pretendia. A popularidade do governo, somada ao lado ferro-velho/bugiganga da palavra, terão contribuído para dar charme, ou lustro, à geringonça.

Curiosamente, só na nossa língua é que a palavra tem o sentido que tem. Em Espanha, jerigonça significa "uma linguagem de mau gosto, grosseira, complicada, difícil de entender". Pode ser uma língua ou uma forma de codificar a linguagem. A transição semântica é relativamente fácil de adivinhar. De línguas estranhas a máquinas estranhas vai um percurso que não é muito extenso, e talvez tenha passado por ações estranhas ou ridículas.

Para terminar, notemos que 'geringonça' tem parentesco longínquo com 'jargão'. Conforme há anos explicava Sergio Rodrigues na revista Veja, "os dois termos são membros da grande família do radical latino garg (ligado à ideia de gargarejo, som produzido na garganta), que nos deu ainda a garganta e a gargalhada. Mas houve tabelinhas pelo caminho, como costuma ocorrer: jargão se liga ao francês antigo jargon, inicialmente 'canto de pássaro' e mais tarde 'língua incompreensível, língua de ladrões'".