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Bom para a Google, mau para o iPhone, horrível para a Samsung: o balanço tecnológico

O patrão do Facebook, Mark Zuckerberg, com o diretor da divisão de mobile do conglomerado sul-coreano Samsung, na apresentação do modelo Galaxy 7 no Mobile World Congress, em Barcelona, em fevereiro

LLUIS GENE/ Getty Images

Este é o último Ruído Na Rede do ano. Altura ideal para olhar para trás e ver o que nos deixa 2016 nas áreas da tecnologia e da ciência

Para começar é preciso alertar que este não foi um ano particularmente excitante em termos de lançamento de novos dispositivos. Pela negativa fica o iPhone 7, que veio provar que a Apple passa, mesmo, por uma crise de inovação. O topo de gama daquela que já foi a empresa mais valiosa do mundo não surpreendeu ninguém (a não ser pelo facto de já não ter uma entrada padrão para auscultadores) e a Apple viu, pela primeira vez, a sua cash cow a perder a capacidade de gerar o dinheiro esperado – seja pela administração seja por aquilo a que se convencionou chamar os “mercados”. Aliás, as vendas de iPads e de Macbooks também continuam em declínio.

Calma, a Apple não está à beira da falência ou algo que se pareça. A empresa continua a ser das que mais dinheiro tem disponível para investir. Quanto? Qualquer coisa como 200 mil milhões de dólares em caixa. Este ano comprou algumas empresas na área da Inteligência Artificial (a Turi e a Emotient, por exemplo) e ainda se chegou a falar que poderia comprar a McLaren – rumor que veio alimentar todos os que sonham com o tal “Apple Car”, o carro da Apple. Das compras que fez, a mais curiosa pode ser a série da NBC “Carpool Karaoke” (a que leva celebridades a cantar dentro do carro e dá origem a vídeos altamente virais), e a mais pertinente, pelo menos para mim, é a Emotient: uma empresa que desenvolveu uma plataforma para que as câmaras consigam interpretar as EMOÇÕES NOS ROSTOS DAS PESSOAS (http://www.businessinsider.com/how-emotient-ai-works-2016-1).

Bom, certo? Mas o melhor do ano foi a atitude pública que a empresa tomou na defesa da privacidade dos utilizadores quando se recusou, e bem, a dar ao FBI acesso ao iPhone de um alegado terrorista. As autoridades acabaram por conseguir quebrar a proteção do smartphone (recorrendo, alegadamente, à ajuda de uma empresa israelita), mas ficou clara a posição de Tim Cook sobre a prioridade que é necessário dar à proteção dos dados pessoais dos clientes.

O annus horribilis da Samsung

Tudo estava bem encaminhado, a empresa tinha recuperado o lugar número 1 no mercado de smartphones nos EUA e o seu novo topo de gama era aclamado pela crítica e pelos utilizadores. Agora, era preciso antecipar-se ao lançamento do iPhone 7 com um telefone que era, mesmo, o melhor de todos os tempos. A Samsung cruzou a meta com o Galaxy Note 7 e ganhou o título. Este phablet esgotava na Europa e conquistava os Estados Unidos. O pior veio depois. O Note 7 começou a sobreaquecer e a explodir, literalmente. Um pesadelo que arrasou a credibilidade da empresa, que se orgulha de fabricar quase todos os componentes dos seus terminais. O caso culminou com a retirada do telefone do mercado e com um grande silêncio sobre qual será o futuro da marca “Note” no portefólio da Samsung.

Semanas depois de reconhecer que tinha falhado com o novo topo de gama, o fabricante sul-coreano foi obrigado a recolher 2,8 milhões de máquinas de lavar. Por incrível que pareça, o motivo para a recolha era o mesmo invocado para o telefone. Sim, as máquinas de lavar também estavam a explodir. A Samsung foi alvo de milhares de paródias na Internet e andou o resto do ano a lavar a imagem.

Tal como a Apple, também a Samsung foi às compras. As aquisições mais importantes foram a Viv (uma empresa que desenvolve sistemas de Inteligência Artificial) e a Harman (a empresa reconhecida por fazer dispositivos de áudio e que tem mais de 60% do mercado de áudio nos automóveis).

O melhor e o pior do ano

Depois das duas maiores empresas dos dispositivos móveis nada como ver, rapidamente, como foi 2016 para o resto da indústria.

Google: carros autónomos, inteligência artificial e telefones de marca própria. Este é um bom ano para a Google. O seu sistema Deep Mind deu uma valente tareia (4-2) ao campeão do mundo de “Go” – um jogo que tem milhões de variáveis e do qual os cientistas diziam que teríamos de esperar mais uma década para ver uma máquina a ganhar a um humano. Pois não foi preciso esperar 10 anos, a Inteligência Artificial conseguiu-o este ano. Curiosamente, não foi o iPhone ou um Galaxy o maior lançamento de smartphones de 2016. O Google Pixel, o primeiro telefone desenhado, pensado e “fabricado” pela Google; foi o que mais atenção recebeu por parte dos especialistas. Ainda não há em Portugal, mas chega no ano que está quase a começar.

Desde 2009 que a Google desenvolve um carro autónomo. Os veículos da empresa norte-americana já fizeram mais de 2 milhões de percursos e agora fala-se que a Google está em vias de concluir acordos com fabricantes de automóveis para licenciar tecnologia. A Honda é só o mais recente rumor.

Microsoft: quem diria que haveria um ano em que a Microsoft seria uma das empresas que mais iria surpreender no lançamento de hardware? Foi isso que aconteceu em 2016. O lançamento dos novos computadores Surface com destaque para o SURFACE STUDIO, provou que a empresa que “só fazia software” tem agora uma palavra a dizer na área dos equipamentos. Este foi o ano em o Skype (a aplicação de comunicação da Microsoft) ganhou a capacidade de tradução em simultâneo. Por enquanto, ouve em 8 idiomas e faz a tradução escrita para 50!

Pokémon Go: e de repente o mundo foi para a rua a olhar intensamente para o ecrã do telefone. O “fenómeno” Pokémon Go transformou os smartphones em armas para caçar pequenas criaturas e provou que a Realidade Aumentada tem tanto, ou mais, potencial que a Realidade Virtual. O hype durou meses e tal como um pouco por todo o mundo, também em Portugal pequenos e graúdos passaram dias a caçar Pokémons. A febre já passou. Ainda assim, acabou de ser anunciada uma versão do jogo para o Apple Watch, o relógio inteligente da Apple.

Sony PSVR: é o sistema que tem a capacidade de banalizar a utilização da Realidade Virtual. Não porque seja barato, mas porque estes óculos assentam em cima do maior ecossistema de jogadores de videojogos: a Playstation 4. Chegaram a tempo do Natal e apesar das vendas não impressionarem, o potencial está todo lá. Este é o ano que fez chegar ao mercado os melhores sistemas de Realidade Virtual: o Vive, da HTC, e o Rift, da Oculus (que pertence à Facebook). Aliás, a Realidade Virtual é uma das maiores apostas da Facebook, que fez questão de estar no evento onde a Samsung revelou os seus novos topos de gama.

Assistentes virtuais: a Inteligência Artificial e a Internet das Coisas continuam a entrar no nosso quotidiano e, em 2016, a Amazon juntou ambos os conceitos com dispositivos como o Echo e o Dot. Equipamentos que ouvem (em inglês) o que lhes dizemos e nos dizem a meteorologia, leem as notícias e, acima de tudo, interagem com outros equipamentos. É fácil, por exemplo, que o ar condicionado receba uma ordem destes pequenos assistentes para que se ligue na temperatura ideal mesmo antes de chegarmos a casa.

Os automóveis inteligentes: o ano que agora termina foi muito profícuo na introdução de sistemas de auxílio à condução autónoma nos automóveis. A “Exame Informática” conduziu, em Portugal, mais de uma dezena de carros que andam, praticamente, sozinhos na estrada. Pessoalmente, não esqueço a curva que fiz a 120 km/h sem colocar as mãos no volante. Este é também o ano em que assistimos à massificação do carro elétrico. Já há mais de 25 mil automóveis deste tipo em Portugal e o número vai continuar a crescer à medida que as autonomias forem aumentando. No entanto, o marco mais importante do ano é, sem dúvida, a atualização que a Tesla fez ao sistema Auto Pilot que, de um dia para o outro, tornou autónomos todos os carros da empresa. Infelizmente, pelo caminho, um condutor acabou por morrer quando o sistema não conseguiu distinguir o brilho do céu da estranha cor do atrelado de um camião. Dores de crescimento…

Justin Sullivan/ Getty images

Conquista do Espaço: a sonda Rosetta aterrou num cometa e a Space X, de Elon Musk, conseguiu provar que é possível fazer foguetões reutilizáveis. Algo que vai dar um empurrão interessante à exploração espacial – os foguetões eram destruídos na sua viagem inaugural. Este foi o ano em que se “descobriu” um nono planeta no Sistema Solar e em que uma empresa privada (a Moon Express) ganhou o direito a enviar uma missão à Lua.

As notícias falsas: as redes sociais e o seu poder de influência ficaram na agenda quando os americanos elegeram, surpreendentemente, Donald Trump. Uma análise cuidada às “notícias” vistas no Facebook mostrou que tanto republicanos como democratas usaram a rede de Zuckerberg para passar informações falsas com o objetivo de denegrir os candidatos. A conversa escalou para a Google e para as sugestões mostradas naquele que é o motor de busca mais utilizado na Internet. Foi a confirmação de que não devemos acreditar em tudo o que lemos e a prova de que os órgãos de comunicação e o jornalismo continuam a ser fundamentais como “filtros” da verdade. O debate segue em 2017.

E por cá?

Elvira Fortunato foi primeira investigadora portuguesa a receber a medalha Blaise Pascal, da Academia Europeia de Ciências. São ainda os efeitos da investigação que a equipa liderada pela cientista portuguesa fez (e faz) na área de desenvolvimento dos processadores de papel. A mesma tecnologia valeu-lhe, e ao marido, Rodrigo Martins, um lugar na pequena lista de finalistas ao Prémio Europeu do Inventor 2016.

Lisboa foi a capital da Web Summit numa altura em que o ecossistema de empreendedorismo nacional continua a gerar startups de sucesso. Unbabel, Uniplaces, Veniam, Codacy… e, claro, a Unicórnio, Farfetch, são referências em todo o mundo.

A investigação científica portuguesa termina o ano com três casos de sucesso. A revista “Nature” publicou um artigo da autoria da equipa onde está integrada a portuguesa Carla Ribeiro no qual se descreve o mecanismo que vai tornar células humanas resistentes ao HIV. Na Universidade do Algarve, investigadores descobrem um composto que vai ser utilizado no desenvolvimento de um fármaco para tratar o cancro.

Finalmente, na Fundação Champalimaud, os cientistas descobriram o que leva a que tenhamos a noção que o tempo passa muito depressa quando nos estamos a divertir. Para já, o artigo publicado na “Science” retrata as experiências feitas em ratos. Quem sabe, um dia destes, um balanço anual, como este, feito sob o efeito de uma produção excessiva de dopamina mostre só momentos bons.