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As 8 soluções para o problema da falta de água no curso dos Comandos

ESFORÇO Treino antes da Instrução de Tiro durante o último curso, 127, dos Comandos

Tiago Miranda

O problema da água, ou da falta dela, no curso dos Comandos foi dissecado pelo Expresso no relatório da Inspeção Técnica Extraordinária do Exército. Dois militares morreram em setembro, vítimas de um golpe de calor

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

O racionamento de água parece ter os dias contados nos próximos cursos de Comandos. Pelo menos é o que aconselha a equipa “inspetiva multidisciplinar” que durante dois meses realizou a Inspeção Técnica Extraordinária ao Curso de Comandos, a pedido do Exército. Estes especialistas deram como exemplo alguns grupos de militares norte-americanos que chegaram a beber 15 litros de água por dia “para repor as suas necessidades hídricas”, algo diferente do “mínimo diário obrigatório de 5 litros de água” para cada um dos 67 instruendos do curso 127 durante o primeiro dia da Prova Zero, realizada no início de setembro.

A inspeção — que durou dois meses e decorreu paralelamente à outra investigação interna do Exército e à do Ministério Público/PJ Militar — alerta os Comandos que devem rever algumas condutas nos próximos cursos (que permanecem suspensos até ao total esclarecimento das investigações internas). E avança com oito sugestões para resolver o problema da água, ou da falta dela no curso de Comandos. Em primeiro lugar, aconselha os futuros instrutores a fixar períodos de descanso para os formandos (o objetivo é o de repor os líquidos no corpo). Pede também que se façam refeições equilibradas “para o estabelecimento do equilíbrio hidroeletrolítico”. Outra sugestão simples é a de se acrescentar pequenas quantidades de sal às bebidas. Bem como hidratos de carbono (exemplo? Pão, bolachas, massa ou batatas). Em quinto lugar, pedem que se promova a ingestão voluntária de água fresca, “especialmente em ambientes quentes e trabalho intenso”. Na lista, inclui ainda que os Comandos garantam que estejam “disponíveis quantidades de água potável adequadas” e que os militares disponham de tempo para beber durante os exercícios. Por último, educar os militares “sobre a importância da hidratação”.

Tiago Miranda

Em suma, “a hidratação é um ponto vital” neste tipo de cursos, uma vez que em condições extremas e em esforço máximo, um instruendo pode perder até três litros por hora. “Estas perdas hídricas têm necessariamente de ser repostas, sob o risco de provocar um quadro de desidratação, com todas as consequências orgânicas, nomeadamente de lesão renal, que poderão evoluir até uma falência multiorgânica e à morte”, ressalva o relatório a que o Expresso teve acesso. Em Alcochete, numa tarde com temperaturas a ultrapassaram os 40 graus Celsius, os jovens militares Hugo Abreu e Dylan Silva desmaiaram e morreram, vítimas de um golpe de calor.

Água dá “robustez psicológica”

Baseando-se em relatórios médicos e militares, os especialistas garantem que a desidratação acima dos 2% da massa corporal compromete o desempenho físico, “tendo efeitos negativos sobre o moral e vontade de trabalhar”, reduzindo ainda “a tolerância à tensão do calor”. Aconselham por isso que sejam “incluídos intervalos de repouso programados e refeições adequadas para proporcionar tempo para hidratar”.

Um dado assente pela inspeção técnica é o de que o racionamento de água “imposto durante a realização do curso” é “altamente desaconselhado” devido à carga física exigida durante as provas físicas e “às consequências irreversíveis que pode provocar na saúde”. O consumo de líquidos pelos aspirantes a Comandos “é um elemento de robustez psicológica”, enfatiza o documento.

Tiago Miranda

Não faltam também conselhos para tratar os próximos militares que venham a ser vítimas de um golpe de calor: imergir o doente numa fonte (caso haja uma num local próximo), em gelo ou com mantas térmicas geladas são algumas das sugestões avançadas. Os inspetores enumeram uma extensa lista de material clínico que deverá estar à mão da equipa médica de modo a evitar crises semelhantes às da Prova Zero do curso 127.

No entanto, segundo os depoimentos de pessoal médico do último curso feitos à PJ Militar, logo após as mortes de Hugo Abreu e Dylan Silva, algum deste material estava em falta na tenda de enfermaria onde foram socorridos simultaneamente 22 militares. E nas ambulâncias do Campo de Tiro. Nessa tarde de 4 de setembro, tudo o que teria para correr mal, correu mesmo mal.

  • Mais do que permitia a força humana

    O Expresso esteve lado a lado com os recrutas do 127º Curso dos Comandos. Dos 67 homens que começaram, apenas 23 resistiram. Dois morreram. Durante mais de 12 semanas, foram levados além do limite. Mais do que permitia a força humana