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Os casos de extorsão sexual com a utilização de ferramentas digitais aumentaram 70% em Portugal. Os números de um relatório oficial mostram claramente como os portugueses estão encadeadas pelo brilho das câmaras dos smartphones

Há dois anos o ator Bill Murray ESCREVEU NO TWITTER: “You can tell how boring a person is by the lack of fear in their eyes when someone is flipping through photos on their phone.” Longe de nós, todos, sermos vistos como chatos. Por isso, toca a usar as câmaras dos telefones para dar fulgor ao Sá Leão que, ao que dá a perceber, está adormecido dentro de muita gente.

Donde vem esta conversa? Dos números referentes à criminalidade anual em Portugal revelados agora pelo Gabinete Coordenador de Segurança. O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) revela que a sextorsion (extorsão sexual com recursos a ferramentas digitais) cresceu 70% no nosso país. É a consequência imediata da revolução sexual possibilitada pelo advento da internet móvel e da massificação dos smartphones. E são também dores de crescimento. Neste caso, típicas da ingenuidade da turba que acredita que as fotos e vídeos nunca vão sair dos seus dispositivos. Pior: acreditam que se partilharem uma foto com alguém… esse alguém não o vai partilhar com outros.

Meus caros: qualquer escritor de novelas sabe que o amor e o ódio são sentimentos muito próximos. Demasiado. Os namorados que partilham fotos íntimas entre si acabam por descobri-lo da pior forma. A relação acaba e lá está ele, ou ela, embora seja mais eles, a partilhar fotos e vídeos com alguma, muita, promiscuidade.

Faz agora um ano que um homem foi condenado a uma multa de 10 mil euros por não guardar em segurança um vídeo pornográfico que tinha feito com a ex-namorada. A consequência? O vídeo foi partilhado na Internet expondo a privacidade de ambos. Este não foi um caso de extorsão sexual. Os motivos, embora não tenham ficado provados em tribunal, estariam relacionados com uma vingança pelo fim da relação.

ESTE CASO, que remontava a 2007, prova bem o quanto as forças de segurança e a própria Justiça não estão, ainda, bem preparadas para lidar com este tipo de criminalidade. Aliás, segunda-feira, NO DN, que publicou uma antevisão ao relatório, o presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo vem confirmar que as polícias que tratam estes casos têm de ter pessoas “especialistas na matéria”.

E é aqui que reside um dos problemas na luta contra estas formas de cibercrime. Se as empresas não conseguem captar e manter talento na área da tecnologia, como vão as forças de segurança fazê-lo? O sector privado paga bem, dá boas condições de trabalho e, a qualquer momento, estes profissionais saem para organizações localizadas em qualquer local do mundo. Vantagens competitivas claras em relação às forças de segurança.

A Sextorsion não é fácil de provar e pode ser - e é, na maior parte dos casos - praticada por alguém que não pertence ao círculo de conhecidos da vítima. Piratas informáticos entram em computadores alheios; roubam identidades para entrar no perfil dos utilizadores das redes sociais; utilizam apps para aceder a dados nos telefones. Fazem-no utilizando, na maioria das vezes, a imprudência das pessoas. Os que usam o nome do cão como palavra-passe para entrar no Facebook, os que escolhem “12345” para a password do e-mail ou, por exemplo, os que nem se lembram de bloquear o smartphone com um código. E, ao contrário do que possa pensar, esses não são a exceção: são a regra!

Há milhões de pessoas que não percebem a importância do que têm guardado dentro do smartphone. Nem no computador. Aliás, nem entendem que a câmara que está a olhar para eles, para nós, o dia todo, pode ser usada por um pirata informático sem se aperceberem. É por essas e por outras que o DIRETOR DO FBI TAPA SEMPRE A CÂMARA DO PORTÁTIL.

Finalmente, existe muita gente disponível para se despir em frente a uma câmara. Na segurança do lar, estão convencidos que ninguém vai ver as imagens. Serão persuadidos (ou fazem-no por vontade própria) a tirar a roupa num qualquer jogo de sedução. Mas como está postulado na primeira regra de utilização do ciberespaço: “Uma vez na Internet, para sempre na Internet.” Seja por vontade do destinatário do show privado, seja pela forma incauta como protege os dispositivos… as imagens podem ser tornadas públicas e arruinar a vida de alguém.

Aqui, os encarregados de educação têm um papel a desempenhar. Não na vertente da proibição, mas na da sensibilização. Infelizmente, há muitos, demasiados, casos que podem servir de exemplo para assustar (o termo é mesmo este) os miúdos a terem cuidado com aquilo que gravam com os telefones.

No relatório RASI do próximo ano, o sextorsion vai continuar a ser um dos destaques. Afinal, ainda há muita gente que não percebeu tudo o que pode fazer com a câmara de um smartphone. Como dizem os jogadores de póquer na Internet: “A cada segundo entra um novo papalvo na mesa para jogar.”