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Jancis Robinson: “Sou grande adepta 
do vinho 
de mesa português”

É um dos nomes mais respeitados e mais influentes no mundo dos vinhos. Autora, jornalista e crítica de vinhos há mais de quatro décadas, é igualmente a provadora favorita da rainha Isabel. Numa conversa com o Expresso, na sua casa de Londres, confessou ter admiração pelos vinhos de Portugal

Paulo Anunciação

Paulo Anunciação

em Londres

Correspondente em Londres

d.r.

Os comentários de Jancis Robinson nas páginas cor de rosa salmão do “Financial Times”, no Twitter (onde tem 260 mil seguidores) ou no seu website pessoal fazem tremer de ansiedade os produtores e colecionadores de vinho um pouco por todo o lado. A inglesa, de 66 anos, é a guru-mor do vinho mundial, a First Lady of Wine, como gostam de dizer os fãs no outro lado do Atlântico. Robinson escreve livros e crónicas sobre vinho há mais de 40 anos, sempre com o seu estilo divertido, cheio de energia e entusiasmo pelas coisas do vinho. Desde 1984 ela pode usar, igualmente, as iniciais MW — de Master of Wine —, olhadas com reverência nos círculos do vinho. Ser MW significa ocupar um pedestal uns degraus acima de todos os outros. Nas últimas seis décadas, apenas 391 pessoas alcançaram a distinção MW. A lista não inclui, por enquanto, qualquer português (apesar de haver presentemente alguns portugueses candidatos).

Quando descobriu que tinha esta paixão pelo vinho?
Não cresci num ambiente onde se bebia vinho. Cresci num canto da Inglaterra onde o vinho só aparecia na mesa pelo Natal. Mas apaixonei-me [pelo vinho] enquanto estudante na universidade de Oxford, por causa de uma garrafa muito especial de Borgonha: um arrebatador Chambolle-Musigny Les Amoureuses de 1959. Foi uma experiência verdadeiramente estética. Na altura, eu nada sabia sobre vinho. Mas naquele copo descobri não só um enorme prazer sensual como também a noção de que — combinado num mesmo copo — havia um pouco de história, de geografia, de psicologia, de ciência e de mão humana. A beleza daquele vinho acendeu a chama do meu fascínio pelo vinho. Para sempre.

E quando é que se deu conta de que além da paixão também tinha um talento especial para apreciar e analisar o vinho?
Primeiro, dei conta de que tinha um grande interesse [pelo vinho] e só depois reparei — ou tornou-se mais ou menos óbvio, depois dos exames que tive de fazer — que também tinha o talento.

Esses exames foram os do curso de Master of Wine (MW)?
Mesmo antes do MW. Para se chegar a MW é preciso ter o diploma final dos cursos do Wine and Spirit Education Trust. Recebi o prémio de melhor aluno nesse diploma, em 1978. Não fiz o MW de imediato porque na altura não aceitavam pessoas sem ligações à indústria [vinícola]. Quando finalmente fiz os exames de MW, alguns anos mais tarde, passei todos à primeira, o que é bastante raro. Depois convidaram-me para ensinar prova e degustação aos novos alunos, por isso imagino que deva ter tido notas muito boas na secção de prova de vinhos.

Você foi a primeira jornalista, ou melhor, a primeira pessoa sem qualquer ligação à indústria vinícola, a receber o título de MW. Tem orgulho nisso?
Fui a primeira, sim. Mas primeiro eles tiveram de alterar as tais regras de admissão. Não tinha pressa em chegar a MW. Na verdade, seria mais feliz se me tivessem poupado todo o trabalho árduo a que tive de me submeter.

O curso de Master of Wine é realmente complicado?
Muito, muito trabalhoso. E de certa forma está cada vez mais difícil.

Porquê?
Não quer dizer que eles queiram excluir mais pessoas. É mais difícil porque simplesmente o mundo dos vinhos está cada vez mais complicado. Quando eu fiz os exames MW todos os vinhos da Califórnia sabiam a vinhos da Califórnia. Todos os vinhos australianos sabiam a vinhos australianos. Agora, toda a gente, no mundo inteiro, persegue o mesmo tipo de arquétipos.

Quando fez os exames MW teve de estudar os vinhos portugueses?
Tive de aprender imensa coisa sobre o Vinho do Porto, mas muito pouco sobre os vinhos de mesa portugueses. As aulas [sobre vinho de mesa português] duraram talvez cinco minutos [risos]. Agora, claro, sei muito mais sobre o vinho português. E o vinho agora está muito melhor. Recordo-me daqueles vinhos do Dão no início da década de 80, tão cheios de taninos. Eram vinhos feitos em adega cooperativa e pouco simpáticos, sem qualquer fruta que se pudesse vislumbrar.

Esse talento para a prova de vinhos é um talento nato ou pode aprender-se?
Boa pergunta. [pausa] Acho que quem está genuinamente interessado e apostado em aprender poderá desenvolver esse talento. Existe uma percentagem muito pequena da população — penso que à volta de três por cento — que está excluída por razões de ordem física, por ter os sentidos diminuídos. A percentagem [de incapacitados] poderá subir com a idade, já que haverá mais possibilidades de as pessoas terem algum vírus terrível ou acidente que rompa os sensores vitais.

Numa prova cega de Vinhos do Porto, por exemplo, os especialistas conseguem identificar a marca, o ano da colheita, um determinado produtor, uma quinta, por vezes uma mera encosta de certa propriedade à beira do Douro. Está a dizer que esse dom pode aprender-se?
Pode. Mas é preciso querer aprender, ter paixão.

Você raramente falha nas provas cegas?
Bom, espero bem que sim! Mas eu acho que a prova cega é um pouco como uma modalidade desportiva e é preciso estar em forma.

O que quer dizer com isso?
É preciso treinar e estar em forma. Dois meses antes do exame MW, eu fazia uma prova de vinhos cada semana. Reunia-me com os outros estudantes para exercitar e fazíamos provas cegas de 12 ou mais vinhos. Um mês antes do exame fazia talvez uma prova por dia. Na semana antes do exame, eu tinha duas provas de vinhos por dia para praticar.

E a maior parte das vezes acertava.
Sim, claro [risos]. No início da minha carreira, toda a gente estava à esperava que eu falhasse [nas provas cegas] e por isso só se lembram das vezes em que acertei. Agora, no estado atual da minha carreira, toda a gente está à espera que eu acerte nas provas. E só se lembram quando eu falho.

Em 2014 e 2015, mais mulheres do que homens passaram nos exames de MW.
É verdade. A proporção de mulheres MW continua a aumentar.

E porquê?
[pausa] Porque na verdade as mulheres são melhores provadoras do que os homens. Não sou eu quem o afirma — são os cientistas. Quando eles medem a exatidão e consistência na degustação, as mulheres têm sempre melhores resultados do que os homens. É impressionante.

Você também é melhor provadora do que o seu marido?
Não estou a falar no meu caso pessoal, mas penso que as mulheres são provadoras muito, muito boas. Talvez tenha a ver com a evolução humana. Com o facto de já há milhares de anos serem elas a cozinhar e terem de saber se os ingredientes estavam ou não em condições. Existem também os chamados “hiperprovadores” — pessoas com um número anormalmente grande de papilas gustativas na língua. Aparentemente, as mulheres caucasianas têm uma probabilidade [de ser hiperprovadoras] mais de duas vezes superior à dos homens.

O nariz e os olhos não são igualmente importantes no mundo do vinho?
Sim, há uma conjugação. A visão poderá ajudar numa prova cega de vinhos. Mas eu conheço um vinicultor muito bom que é cego. Olhar para o vinho ajuda, mas não é indispensável.

Você vive num mundo quase sempre associado aos homens.
A crítica de vinhos, sobretudo no Reino Unido, tem uma longa tradição feminina. Eu estive longe de ser a primeira mulher a escrever e a falar sobre vinhos. Poderia citar seis, oito, talvez dez mulheres que foram críticas de vinhos profissionais antes de mim.

Jancis Robinson foi, durante anos, a consultora de vinhos da British Airways (o cargo incluía, entre outras coisas, a seleção dos vinhos de luxo para os voos Concorde). Ela é, desde 2004, uma das seis pessoas que integram o restrito Royal Household Wine Committee — o Comité de Vinhos da Família Real, que dá conselhos sobre os vinhos que devem ser comprados para as caves da rainha Isabel II e — mais importante, ainda — que vinhos devem ser servidos aos convidados da família real britânica. A profissão dela envolve viagens constantes e provar enormes quantidades de vinho. “Mas o melhor [da minha profissão] é a possibilidade de visitar e conhecer os dedicados produtores de vinho no mundo inteiro. Em geral, gente fascinante”, diz ela.

Já esteve com a rainha Isabel?
Sim, algumas vezes. Foi ela quem me deu a medalha de OBE [Oficial da Ordem do Império Britânico, uma das mais altas condecorações britânicas]. Também fui ao jantar, maravilhoso, no Castelo de Windsor, que ela ofereceu ao Presidente Sarkozy e a Carla Bruni. Foi muito divertido.

Os vinhos servidos nesse jantar tiveram a sua bênção? Foram escolhidos por si?
Sim. Também estive numa ou outra receção no Palácio de Buckingham. Mas o mais divertido foi há dois ou três anos, quando fui ao Castelo de Windsor para uma reunião na minha qualidade de membro do Comité de Vinhos. De vez em quando temos provas para selecionar os vinhos da Casa Real. Nesse dia, por coincidência, a rainha estava no castelo e convidou-nos para um almoço, simples e íntimo. Foi adorável, divertido e muito simpático.

Também lhe perguntam a opinião sobre a combinação de determinada ementa oficial com este vinho ou aquele?
Nem sempre. Por vezes, quando há uma visita de Estado circulam alguns e-mails a perguntar a nossa opinião sobre este ou aquele vinho, mas raramente sobre a ementa. As dúvidas, em geral, têm a ver com a escolha dos vinhos mais apropriados para determinado chefe de Estado.

O Vinho do Porto está sempre presente nos jantares oficiais?
Sim, mas sempre no final. Por isso a maior parte acaba por ficar nos copos.

Porquê?
O Vinho do Porto é a última bebida a ser servida. A rainha nunca se demora à mesa, gosta de abandonar os jantares o mais cedo possível — ninguém pode censurá-la por isso, não acha? — e, por essa razão, imenso Vinho do Porto acaba por ficar na mesa. Quando a rainha se vai embora, toda a gente acha que deve levantar-se e ir-se embora também, o que é uma pena.

A Universidade de Oxford, onde estudou — tal como a de Cambridge —, tem uma longa tradição ligada ao Vinho do Porto. Também conheceu o Vinho do Porto nessa altura?
É verdade. Mas não me lembro de nenhuma experiência em particular com Vinho do Porto. Os colleges dessas universidades sempre tiveram muito, muito vinho — em particular Porto, que eles compravam em grandes quantidades porque tem de guardar-se durante tanto tempo. Mas a verdade é que o consumo de Porto caiu muito mais depressa do que eles previram e por isso as caves das universidades estão cheias [de Porto]. Provavelmente alguns dos colleges tiveram de vender garrafas de Porto.

O Vinho do Porto, como a generalidade do vinho doce, deixou de estar na moda?
Infelizmente, sim. Sobretudo a partir do final da década de 80. Mas no final do ano [de 2015] tive de provar muito Porto — muito mais do que faço habitualmente — para preparar as minhas sugestões de Natal. E isso voltou a relembrar-me a maravilha que um Porto Vintage pode ser! O problema é que tem de guardar-se durante mais tempo — décadas, por vezes — do que qualquer outro vinho. Isso é difícil, é algo que os jovens hoje em dia não podem ou querem fazer. Antigamente, quando a inflação no vinho era menos marcada, as pessoas tinham adegas, abria-se um Porto Vintage amadurecido para se beber com um filho ou um neto. Isso deixou de acontecer.

O que acha de Vinho do Porto branco servido como long drink, com muito gelo, água tónica e um raminho de hortelã? Um desperdício?
Um pouco, sim. Não seria a minha primeira escolha como aperitivo, devo dizê-lo. É uma bebida um pouco pesada. Associo sempre essa bebida aos comerciantes de Vinho do Porto, na região do Douro, obrigados a oferecer [um Porto com água tónica] porque sentem que não devem servir um Porto tinto no início da refeição.

Qual é a sua opinião sobre o Vinho da Madeira?
É um vinho que adoro e acho muito agradável. Eu por vezes sirvo Madeira, é um ótimo aperitivo, bem como digestivo. Deixa-me sempre muito fresca na manhã seguinte, o que nem sempre acontece com alguns Vinhos do Porto. Aliás, quando me perguntam que garrafa escolheria se tivesse de viver muito tempo numa ilha deserta, eu digo sempre: uma garrafa de Vinho da Madeira.

Porquê?
Por duas razões práticas: em primeiro lugar, o [Vinho da] Madeira bebe-se aos poucos, por isso a minha garrafa iria durar muito tempo; em segundo lugar, a acidez do Madeira poderia refrescar-me nos dias quentes, enquanto o álcool [do Madeira] poderia certamente aquecer-me nos dias frios. Adoro a frescura e a constituição do Vinho da Madeira. Sempre gostei de acidez nos vinhos, aliás. E a ilha em si é um local verdadeiramente extraordinário, não acha? Espero que os portugueses deem conta de que tanto o Porto como o Madeira são vinhos muito especiais e quão importantes são para o património de Portugal.

A imagem do vinho português, no exterior, continua a estar muito associada ao Vinho do Porto. Não acha que isso é um problema para o resto da indústria?
Acho que um problema maior, para a indústria vinícola portuguesa, é o facto de a clientela no estrangeiro assumir — talvez por razões históricas — que o vinho de mesa português tem de ser necessariamente barato.

Acha que a indústria portuguesa é vítima, ainda, de um ‘fator Mateus Rosé’?
O Mateus é certamente um fator. Mas é tremendamente injusto, até porque os custos de produção em Portugal não são assim tão baixos. Eu sei que quem tenta vender bom vinho português enfrenta dificuldades reais em conseguir bons preços. Eu sou uma grande adepta do vinho de mesa português e não hesito em recomendá-lo. A qualidade aumentou imenso nos últimos anos.

Trabalho. Jancis Robinson faz cerca de dez mil provas de vinho por ano. Diz que é uma aptidão que se vai desenvolvendo

Trabalho. Jancis Robinson faz cerca de dez mil provas de vinho por ano. Diz que é uma aptidão que se vai desenvolvendo

d.r.

Jancis gosta mesmo de Portugal e dos vinhos portugueses. Ela tem dito, com frequência, que os vinhos nacionais mereciam ser mais reconhecidos internacionalmente. Em 1999, ela escreveu, inclusive, o livro “Jancis Robinson Prova os Melhores Vinhos Portugueses”, publicado em Portugal pela editora Cotovia. O amor, felizmente, é recíproco. Em 2013, o Governo português condecorou-a com a medalha de Comendador da Ordem do Mérito Empresarial. A medalha — “extremamente bonita”, diz Jancis, com simpatia — foi entregue pelo embaixador de Portugal em Londres, João de Vallera.

Acha que os portugueses devem ter orgulho nas suas castas indígenas?
Sem sombra de dúvida! E tanto nos tintos como nos brancos. Há castas muito boas e são tantas e com personalidades tão marcadas..

Alguns viticultores portugueses, no entanto, não resistiram à tentação de produzir vinho com Cabernet ou outras castas estrangeiras.
Espero que essa moda de plantar castas internacionais tenha chegado ao fim. Curiosamente, um número crescente de produtores em regiões quentes (e estas regiões são cada vez mais quentes, por causa da mudança climática) está interessadíssimo em castas como as do Douro, que reconhecidamente suportam bem as temperaturas altas e mantêm a acidez dos vinhos.

Acha que a mudança climática e o aquecimento global poderão ser um problema, no futuro, para a produção de vinhos em regiões como o Alentejo ou o Douro?
Eu não diria que existem muitas zonas do mundo que já estão afetadas e que se debatem com um problema muito sério. Portugal não é certamente uma delas. Sim, o Alentejo talvez venha a ser mais afetado, mas a maior parte das regiões de Portugal tem alguma influência oceânica.

Ultimamente encontrou algumas modas ou tendências nos vinhos portugueses que ache inquietantes ou irritantes?
Agora não. Em Portugal — como em todos os outros países, aliás —, andaram um pouco doidos com a mania das castas internacionais e com a moda do carvalho novo. Mas isso já passou.

O que pensa do aumento generalizado do conteúdo alcoólico no vinho de mesa?
Portugal não é um dos casos piores. Isso aconteceu um pouco por todo o lado e acho que também em todo o lado começaram já a rever essa posição. Mas penso que os produtores já começaram a cortar [no teor alcoólico] porque sabem que os consumidores não gostam de vinhos muito alcoólicos. Uma coisa que considero muito conveniente — e não vou fazer muitos amigos na indústria corticeira ao dizer isto — são as tampas com rosca. Mas sei que ainda vai passar muito tempo até ver um vinho português com tampas de enroscar.

Já existem alguns.
São corajosos!

Mas as rolhas de cortiça não são melhores do que as tampas em termos de envelhecimento do vinho?
Em termos técnicos, as tampas de rosca são perfeitamente boas. Mesmo em termos de envelhecimento. Parece que com as tampas o vinho envelhece, talvez, de uma forma algo diferente, mais demorada. Por isso, se o mundo inteiro adotasse universalmente as tampas de rosca teríamos de fazer uma ligeira reeducação.

A percentagem de rolhas de cortiça que são defeituosas — e que poderão, dessa forma, danificar o vinho — não baixou imenso?
Baixou. Quando o problema atingiu o pico — na Austrália, nas décadas de 80 e 90 — a percentagem terá chegado aos cinco por cento, um valor muito alto. Agora rondará os dois ou três por cento, um número mesmo assim muito incomodativo, sobretudo quando se trata de garrafas de valor incalculável.

Não acha, apesar de tudo, que a tampa de alumínio não tem o mesmo charme e romantismo de uma rolha de cortiça numa garrafa?
[pausa] Tente abstrair-se da discussão e imagine que tem de explicar o que é o vinho a alguém que vem de Marte. Imagine que tem de explicar-lhe que para abrir esta embalagem — a garrafa — ele precisa de usar um instrumento especial. E que o conteúdo desta embalagem está vedado por um pequeno cilindro feito de casca de árvore. O que é que os marcianos iriam pensar?

A sua opinião sobre o vinho português mudou muito na última década?
Oh, sim. Porque o vinho mudou muito, também. Eu tive a primeira experiência — muito proveitosa, diga-se — de vinhos em Portugal muito cedo na minha carreira. Tinha acabado de fazer os exames do Wine and Spirit Education Trust e julgava que sabia muita coisa. Fui ao Porto em 1978 por ocasião do terceiro centenário do Vinho do Porto Croft. Na altura dizia-se que a empresa tinha sido fundada em 1678, mas [o atual diretor geral] Adrian Bridge está sempre a puxar as datas da fundação mais para trás. Eu não estou convencida de que a marca é a mais antiga. Cheguei ao Porto depois do resto do grupo e tive de almoçar sozinha no Grande Hotel do Porto. Pedi a carta de vinhos e nessa altura dei conta de que estava a ter uma experiência igual à da maioria das pessoas que se senta num restaurante e tem uma carta de vinhos nas mãos. Não reconheci muitos nomes ou marcas — talvez o Mateus Rosé e pouco mais.

Qual é presentemente o melhor vinho de mesa português?
Desculpe, mas não quero responder a essa pergunta. Essa questão é um bocadinho política, não? Vou manter a minha resposta em termos genéricos. Os vinhos brancos do Douro, por exemplo, mudaram completamente nos últimos 20 anos e agora sou fã. Adoro. Os tintos também mudaram. Tenho grande admiração por Luís Pato e por tudo o que ele fez. É bom ver que a Filipa [Pato] segue o rumo. Filha de peixe, obviamente. Também gostaria de nomear o verdadeiro embaixador internacional do vinho português: Dirk van der Niepoort, um homem muito popular, cheio de curiosidade, muito cosmopolita, muito generoso, que adora comida, fala muitas línguas e viaja muito.

Quais são os pontos fracos e os pontos fortes do vinho português?
Os pontos fortes são as castas portuguesas e o facto de ser um vinho único e tão característico. Não é uma simples cópia do vinho dos outros. A paisagem local — sobretudo na região do Douro, tão única — também é uma vantagem adicional. Quanto a pontos fracos diria que talvez não seja muito útil manter o Vinho do Porto tão separado dos vinhos de mesa em termos de órgãos de governo e de promoção. Acho que não faz sentido em termos logísticos, de sinergias e da ajuda mútua que poderia acontecer se não houvesse essa separação. Também não sei se existirá uma verdadeira cooperação entre os produtores portugueses, tal como existe na maior parte dos países.

Não lhe parece que em termos de salto qualitativo, os vinhos portugueses acordaram um pouco tarde?
Talvez. Mas se isso aconteceu, também pode trazer algumas vantagens: Portugal manteve muitas, mas mesmo muitas das castas indígenas plantadas no terreno e não as arrancou para dar lugar a Cabernet ou a Chardonnay. Ninguém conseguirá vender um vinho com base no argumento de que é muito melhor do que há cinco anos, porque o vinho de quase toda a gente é melhor do que há cinco anos. O grande trunfo de Portugal é a enorme variedade de castas indígenas. Esse é um fator que está na moda, apesar de muitos dos nomes [de castas portuguesas] serem difíceis de pronunciar ou escrever.

Isso pode ser um problema?
Não acho que seja um problema sério.

Ela começou a escrever sobre vinhos em dezembro de 1975, quando tinha 25 anos. “O vinho, na altura, era romântico e fascinante. Aquecia corações. Mas agora é muito mais fiável e delicioso, além de não cheirar a sulfúrico ou a filtros sujos”, diz. Em 1983, Jancis Robinson foi autora e apresentadora de “The Wine Programme”, a primeira série televisiva sobre vinho no mundo. Ela assina uma coluna semanal sobre vinhos, no “Financial Times”, desde 1990. É autora ou editora de vários livros. “Quantos? Não sei ao certo. O primeiro foi por acidente, como tudo o resto na minha vida.” As obras incluem clássicos como “The Oxford Companion to Wine” ou “The World Atlas of Wine”, além do monumental “Wine Grapes”, um volume enciclopédico de 1280 páginas que pesa três quilos e foi editado em 2012. Os livros estão publicados em todo o mundo, incluindo quatro em Portugal. Agora, ela dedica a maior parte do tempo ao website pessoal JancisRobinson.com (assinatura anual: 85 libras, cerca de 112 euros). Lançado em 2000, o site emprega uma equipa de 12 pessoas, incluindo quatro MW. É atualizado diariamente, muitas vezes pela própria Jancis, que gosta de trabalhar na cama, durante a manhã.

Atualmente existe um interesse enorme pelo vinho, mas esse interesse não se traduz em programas de televisão ou em vendas de livros.
Os meus livros vendem bem! O interesse pelo vinho nunca foi tão grande. Tanta gente faz cursos de vinhos, em particular na América. Mas em termos de televisão, tem razão. Nos anos 80 e 90, eu fiz imensos programas de TV sobre vinhos, talvez mais programas do que qualquer outra pessoa. Tive a primeira série televisiva no mundo sobre vinhos. Mas as audiências nunca são tão grandes como as dos programas de cozinha.

E porque é que isso acontece?
O vinho simplesmente não é visual. Com a comida nós vemos os ingredientes a serem transformados, há o processo do cozinhar, chefes com muita personalidade, que fazem as pessoas chorar. Com o vinho nada acontece. Não há ação. Não queria acreditar quando num dos meus programas o meu operador de câmara ficou incrivelmente entusiasmado quando viu uma linha de engarrafamento. Isto para um crítico de vinhos é a coisa mais aborrecida, mas para ele não.

O papel do crítico de vinho mudou imenso nos últimos anos. Agora milhares de pessoas leem e escrevem em fóruns sobre vinho, em blogues e em websites especializados como CellarTracker ou Vinfolio. Toda a gente dá opinião sobre vinhos. Esta democratização irrita-a?
As coisas evoluíram assim e estou feliz. É inteiramente justo que os leitores agora tenham a possibilidade de responder em caixas de comentários, fóruns, etc. Sempre disse que não queria impor-me às pessoas e dizer-lhes o que elas devem beber ou que vinhos devem preferir. Quero apenas dar confiança aos leitores para que eles possam interpretar as reações e tomar decisões pela cabeça deles. E isso acontece cada vez mais. Deixaram de olhar para pessoas como eu como o grande especialista que tem de ser seguido em tudo o que diz. Os críticos tiveram uma vida muito boa durante muito tempo, mas agora é diferente.

De que forma mudou o seu trabalho?
Trabalho cada vez mais. Só assim conseguimos conquistar o respeito e mantermo-nos na luta. Tenho de fazer escolhas [de vinhos] que as pessoas compreendam e apreciem. As pessoas têm de se sentir felizes por eu as levar a descobrir algo que de outra forma não descobririam.

Ainda faz dez mil provas de vinho por ano?
Não faço contas, mas é provável. Não se esqueça de que quando analisamos os vinhos en primeur [vinho de produção muito recente, ainda não engarrafado ou comercializado] podemos provar facilmente uma centena de vinhos num dia.

Isso é fisicamente possível? Não é preciso interromper depois de cada vinho de forma a “lavar” a boca?
Quando se entra na rotina é tch, tch, tch [dá estalos com os dedos]. Não é preciso parar ou interromper depois do primeiro vinho. É incrível. Claro que no início eu achava que provar dois vinhos era imenso trabalho, depois pensava o mesmo quando eram três, dez, vinte. Vai-se desenvolvendo a aptidão. Mas parece que à medida que ficamos mais velhos os nossos sentidos vão-se deteriorando. Não sei se isso aconteceu comigo porque não há forma de comparar com o que eu era há 20 ou mais anos. O que eu sei é que a minha concentração está muito melhor. E que agora sou uma chata.

Uma chata?
Acho que tem que ver com o meu site e com o facto de ser paga diretamente pelos assinantes. Sinto que tenho de dar-lhes sempre o máximo. Costumava ir às provas de vinhos e encarava-as como encontros sociais, agradáveis, onde era possível dizer olá, conversar e trocar umas fofocas. Agora sou uma espécie de máquina provadora.

Gosta de atribuir notas a cada vinho que prova?
Detesto! É uma coisa muito americana, uma espécie de mal necessário. Não acho que as notas sirvam muito bem para atestar o vinho. Ao contrário dos americanos, dou notas de 0 a 20 e não de 0 a 100. Prefiro assim.

Como faz a seleção dos vinhos que decide analisar?
Há uma espécie de ritmo ou sequência, ao longo do ano, que acompanha os meses em que os vinhos costumam ser apresentados. Por exemplo, os vinhos do Reno são no final do ano, depois segue-se o Borgonha. No começo de abril provamos o vinho de Bordéus. E depois escolho consoante o que despertar a minha atenção.

Imagino que as ofertas e os convites sejam mais do que muitos. Alguma vez se sentiu pressionada ou hesitou em escrever por razões éticas?
Nunca aceito viagens. Nem encomendas de artigos ou críticas de vinhos propostas por vitivinicultores. Não tenho qualquer ligação comercial com qualquer marca ou produtor. Recuso-me a aconselhar ou dar sugestões sobre cartas de vinhos para restaurantes ou hotéis porque isso poderia comprometer o trabalho do meu marido Nick, que é crítico de restaurantes. Mas acho uma perda de tempo afirmar que nunca aceitaria uma refeição paga por um produtor de vinho, já que muitas vezes as melhores informações que obtive foram recolhidas durante um almoço ou coisa do género. Por vezes encontro-me no meio do nada e sou obrigada a aceitar a hospitalidade de um vitivinicultor.

O seu livro sobre vinhos portugueses não foi subsidiado por Portugal?
Foi uma encomenda da editora, nada teve que ver com institutos ou organizações de Portugal. Se foi, guardaram o segredo muito bem guardado.

Privilégio. A jornalista e crítica dá conselhos sobre os vinhos que devem ser comprados para as adegas da rainha Isabel II

Privilégio. A jornalista e crítica dá conselhos sobre os vinhos que devem ser comprados para as adegas da rainha Isabel II

d.r.

A lista de prémios e distinções atribuídos a Jancis Robinson não tem fim: a medalha de OBE em 2003, os doutoramentos honoris causa, vários prémios de crítico (ou livro) do ano. Em 1999, a revista “Decanter” escolheu Jancis como “(Wo)Man of the Year”. Numa sondagem publicada pela mesma revista, em 2011, ela foi eleita a terceira pessoa mais poderosa no mundo dos vinhos, atrás do crítico norte-americano Robert Parker e do inventor italiano Lorenzo Bencistà-Falorni (em 2004, ela teve uma desavença com Parker por causa da nota atribuída ao Château Pavie de 2003, um dos melhores vinhos de Bordéus; a guerra de palavras e as acusações mútuas duraram meses). Jancis é casada com Nick Lander, um antigo restaurateur que atualmente trabalha como consultor e crítico de restaurantes — tal como Jancis, nas páginas cor de rosa do “Financial Times” (ele foi dono de L’Escargot, no Soho, um dos restaurantes franceses mais antigos do centro de Londres). Jancis e Nick têm três filhos e dois netos e vivem no bairro fino de Belsize na zona norte de Londres, numa casa de quatro andares. “O Château Robinson”, brinca ela.

Entre os milhares de vinhos que já provou ou bebeu, lembra-se de um que foi particularmente marcante? Ou de um momento especial associado a uma bebida?
Muitas vezes os momentos mais memoráveis nem sempre estão associados a um grande vinho. Lembro-me, por exemplo, de ter viajado para a Nova Zelândia via Taiti com os meus dois filhos mais velhos, quando eles eram ainda muito pequenos. Foi há muito tempo. A hospedeira decidiu dar-nos uma garrafa de champanhe — na verdade, um champanhe bastante ordinário, mas era champanhe. Lembro-me de estar deitada na relva tropical a beber esse champanhe e a olhar para o extraordinário céu noturno do Taiti. Foi um momento muito especial.

Alguma vez pensou em ser produtora de vinhos?
É uma coisa que eu nunca, mas mesmo nunca quis ser. Não sou uma pessoa prática. Não gosto de jardinagem. Os meus pais adoravam o enorme jardim da nossa casa e eu sempre olhei para a jardinagem como o inimigo. Quando queria um momento de atenção, eles estavam sempre focados no jardim. Além disso, como control freak [controladora] que sou, odiaria a sensação de estar dependente da natureza e de ter uma colheita inteira dizimada pelo granizo ou coisa do género. Também tenho a certeza de que seria tão protetora dos meus vinhos que odiaria ouvir críticas.

Fica chateada quando um empregado num restaurante entrega a carta de vinhos ao seu marido?
Muito chateada, mesmo. Mas ele é muito bom nisso e em geral passa-me a lista de imediato.

O seu marido faz crítica de restaurantes. Você é uma das maiores especialistas de vinhos do mundo. Ainda há quem tenha coragem de vos convidar para jantar?
Eu sei, é tão maçador! Não somos o casal ideal para se convidar, como deve imaginar [risos]. Mas Nick é um ótimo cozinheiro. Aliás, ele deve ser o único crítico de restaurantes que foi, em tempos, dono de um restaurante de muito êxito.

As notas atribuídas pelo crítico norte-americano Robert Parker são tão influentes no mercado do vinho que alguns produtores aparentemente tentam adequar os vinhos ao gosto dele. O que acha desta ‘parkerização’? Podemos falar de um tipo de vinho “ao gosto de Jancis Robinson”?
Cada pessoa tem um gosto próprio, as suas preferências e estilos favoritos. Talvez por ser mulher — talvez, não tenho a certeza —, gosto de vinhos não tão poderosos quanto os vinhos preferidos por Robert Parker.

Do que gosta mais num vinho?
Gosto sobretudo do equilíbrio. E mais do que tudo, gosto de um vinho que me refresque. Gosto de beber um copo e de querer beber um segundo copo, em vez de sentir que se trata de um líquido que me vai deixar knockout.

Numa noite de sábado, depois de uma semana inteira a fazer degustações, ainda lhe apetece abrir uma garrafa especial e beber o vinho com a família ou amigos? Ou faz uma pausa?
Nunca me canso do vinho. Mas há uma diferença muito grande entre a forma como eu encaro a degustação — com muita concentração e atenção, sempre a tomar notas das minhas reações, com alguma tensão, inclusive — e a forma como bebo. Bebo de uma forma relaxada, sem preocupação, à espera que o prazer me envolva. Estas duas formas são perfeitamente compatíveis. Aliás, a primeira [forma] ilumina e informa a segunda.

Você alguma vez bebe cerveja?
Muito pouco. A cerveja deixa-me um pouco cheia. Talvez beba num dia muito quente, mas raramente chego ao fim.

E, já agora: quem é aquele Lorenzo que é mais poderoso do que você no mundo dos vinhos?
Sim, boa pergunta! [risos] Quem é Lorenzo? Nunca tinha ouvido falar dele! Acho que estava ligado a uma marca e a marca deve ter mobilizado muita gente na votação.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 17 de dezembro de 2016