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A brincar, a brincar...

Mais do que um simples objeto, um brinquedo pode ser o estímulo certo ou um abrir de janela decisivo no futuro de uma criança

Katya Delimbeuf

Katya Delimbeuf

em Saragoça

Jornalista

Quando Miguel Pina Martins fundou a empresa Science4You, em 2008, em parceria com a Faculdade Técnica de Lisboa, nunca sonhou que a empresa pudesse crescer tanto em tão pouco tempo. Era o seu projeto de fim de curso, uma aposta nos brinquedos educativos. Hoje, passados oito anos, é a maior empresa de brinquedos nacional. A Science4You emprega 460 pessoas, exporta para mais de 35 países — e o volume de negócios estimado para 2016 é de €16 milhões. Um salto de gigante para a marca, que se mantém fiel à sua génese: “A aposta nos brinquedos educativos, um equilíbrio entre educação e diversão.” Hoje, essa aposta continua a fazer mais sentido do que nunca. “Para o mercado dos brinquedos, 2016 vai ser o melhor ano desde 1999”, afiança Miguel. Isto significa o quê? “Que quanto mais viciantes os tablets, mais os pais compram brinquedos educativos, para oferecerem alternativas aos filhos. E também para contrariar a individualidade dos tablets...”

A base da filosofia da empresa é que “tudo é ciência”. Como o brinquedo Fábrica do Chocolate, que une o prazer do chocolate às medições muito precisas e ao controlo das temperaturas necessárias à sua produção. Ou a Fábrica de Perfumes, que inclui toda uma aprendizagem sobre química. Lançado há três meses, o novo brinquedo Fábrica de Flores une conhecimentos de biologia e botânica, com várias sementes incluídas no kit, além de terra para plantar.

A partir de 2017, as novas lojas da Imaginarium vão ter uma oficina central, um espaço onde as crianças se podem sentar e brincar livremente. Haverá até brinquedos abertos

A partir de 2017, as novas lojas da Imaginarium vão ter uma oficina central, um espaço onde as crianças se podem sentar e brincar livremente. Haverá até brinquedos abertos

Todos os anos, o departamento criativo da Science4You — que integra 25 pessoas — tem objetivos claros no que toca à invenção de novos brinquedos. “Em 2017, o objetivo é criar 40 novos jogos.” Para este Natal, que “representa 60% do mercado e vendas de brinquedos no mundo”, explica Miguel, há sempre apostas específicas. Algumas das novidades passam pelo Junior Building, um jogo de carros pensado para crianças a partir dos quatro anos; a Fábrica de Invenções, com experiências em que se brinca a inventar a luz ou o telégrafo; a Fábrica de Cupcakes, destinada a perceber a ciência por trás da doce arte da culinária; um carro telecomandado, de construção; e um drone, para satisfazer a veia mais tecnológica das crianças de hoje. A ideia de que a ciência está presente diariamente na nossa vida é também o que sustenta os campos de férias Science4You, dos cinco aos doze anos, no Porto, Lisboa e Coimbra.

Muitos anos antes, em 1993, quem queria brinquedos diferentes ia à Papagaio sem Penas. Fundada por José Oliveira e pela sua companheira, arquiteta, começou por apostar exclusivamente nos papagaios acrobáticos e instalou-se em Cascais, ao pé da ventosa praia do Guincho, onde famílias inteiras se dedicavam à modalidade, ao fim de semana. Pouco a pouco, para combater a sazonalidade dos papagaios, começaram a ter outros brinquedos: “bumerangues, piões, ioiôs, frisbees, trotinetes, artigos de malabarismo, balões de modelar...” — no fundo, tudo o que permanecesse fiel à matriz da loja, explica José: “Vender artigos que impliquem atividade física e mental, que sejam praticados em grupo ou em família, que desenvolvam atividades motoras.” Hoje, além dos puzzles e dos quebra-cabeças, uma marca destaca-se acima de todas as outras: a Lego. É a mais vendida da loja, tanto para crianças como para “clientes acima dos 70 anos”.

Pôr os tablets de lado

Em Espanha, a Imaginarium é a loja de brinquedos para crianças que mais cartas dá. Fundada em 1992, por Félix Tena, em Saragoça, a marca das duas portas (uma pequenina, para as crianças, e outra grande, para os adultos) chegou a Portugal em 1996. Hoje, tem 382 lojas no mundo, distribuídas por 28 países. Aposta desde sempre em brinquedos pedagógicos, sendo os seus produtos desenvolvidos num laboratório da empresa onde trabalha uma equipa de 25 pessoas, em parceria com pediatras e pedagogos.

A Science4You mantém a aposta nos brinquedos educativos, em especial na área das ciências. Drones, a Fábricas de Invenções, com experiências para inventar a luz ou o telégrafo, ou a Fábricas de Cupcakes juntam diversão e aprendizagem

A Science4You mantém a aposta nos brinquedos educativos, em especial na área das ciências. Drones, a Fábricas de Invenções, com experiências para inventar a luz ou o telégrafo, ou a Fábricas de Cupcakes juntam diversão e aprendizagem

Espalhados pela mesa da equipa de criadores, dentro do laboratório da Imaginarium, estão desenhos de vários brinquedos novos e em teste. Num quadro grande, estão afixados alguns protótipos. Os filhos e sobrinhos da equipa são as primeiras cobaias dos novos brinquedos, que cada coleção vê reinventada a 20%. Os produtos da marca são os mesmos em todos os países, por vezes com ligeiras adaptações (há uma Nicoletta árabe, com véu islâmico, no Dubai). Ensinar a diversidade é uma das preocupações da Imaginarium, que integra, há vários anos, bonecos negros, chineses e uma menina em cadeira de rodas (Emily, da coleção Amanda). A marca advoga que existem nove sentidos, e que é em torno destes que as crianças se movem. Além dos cinco tradicionais, Félix Tena acrescenta o equilíbrio, a temperatura, a cinética e a orientação. É com base nisto que os brinquedos da Imaginarium são concebidos. “Todas as bonecas da Imaginarium são multissensoriais”, asseguram-nos.

A nova aposta é vincar o regresso ao jogo e à brincadeira, demarcando-se dos equipamentos com ecrãs, como os tablets. Apesar de venderem bem, não é este o caminho que querem trilhar. A Imaginarium estreia agora um novo formato de lojas (que chega a Portugal em 2017) com um espaço central, a oficina, para onde as crianças se dirigem imediatamente, se sentam no chão e começam a brincar com os brinquedos em volta. Esta é uma forma, não só de os deixar mexer à vontade nos objetos, mas também de assegurar que os pais podem andar à vontade na loja, sem terem de se preocupar com os filhos. Os instrumentos musicais e os jogos são de sucesso imediato. Mas os bestsellers da marca, todos os Natais, são a cozinha e a casa de bonecas.

“A mente precisa de brincar”

No ano de 1992, altura em que Félix Tena (Félix pai), um homem amável, fundou a Imaginarium, já tinha dois filhos e trabalhava na indústria de brinquedos. “Mas havia uma carência fundamental, não se lhes dava verdadeira importância”, conta. “Tive vontade de fazer algo diferente”, conta-nos, na sede da marca em Saragoça. Como é natural, os filhos brincaram com quase todos os brinquedos da sua empresa. “Lembro-me do meu primeiro peluche, de um dragão de que gostava muito, de brincar com índios, cowboys e um forte, de uma pista de quatro carros e de um brinquedo de engenharia”, enumera Felix Alejandro Tena (Félix filho), que aos 26 anos foi desafiado para ir trabalhar na empresa da família. Hoje, com 31, é o braço-direito do pai, responsável pela área de marketing.

Na loja Papagaio sem Penas, que existe desde 1993, os atuais bestsellers são os brinquedos da Lego, com fãs de todas as idades. Este Porsche 911 custa €333 e é dirigido a maiores de 16 anos

Na loja Papagaio sem Penas, que existe desde 1993, os atuais bestsellers são os brinquedos da Lego, com fãs de todas as idades. Este Porsche 911 custa €333 e é dirigido a maiores de 16 anos

Agora que Félix filho é pai de um menino pequeno, vive a realidade dos brinquedos de maneira completamente diferente. “Cresci com o discurso do meu pai sobre a importância dos brinquedos — na teoria. Agora, vejo a coisa na prática. No outro dia, vinha ‘doido’ contar ao meu pai que havia uma bola sensacional, básica, muito leve, de €3, mas muito funcional.” Fazer uma loja experiencial, mais participativa, era fundamental para a marca. Em todas, haverá zonas em que os brinquedos estão abertos, para que as crianças possam brincar. “Ter tempo para brincar, entender-te a ti mesmo, e divertir-te é importante”, defende Félix filho. Termina, explicando a nova orientação da marca: “No Natal do ano passado, a prenda que mais se vendeu foi o Paquito, um tablet da Imaginarium criado há seis anos — o primeiro do mercado. Mas com a nossa nova filosofia, não fazia sentido manter aquele produto...”

Brincar é tão importante que, em países com a Finlândia, considerado uma referência em matéria educativa, esta atividade é entendida como central até a criança entrar na escola, aos sete anos. Um dos principais argumentos é que a criança não esquece aquilo que aprende de forma divertida. O pedagogo espanhol Javier Urra lembra outras vantagens do jogo tradicional: “É muito bom para criar regras, que são colocadas por outros. A isso chama-se inteligência social. Com um tablet mandas tu. Perdes, voltas a jogar... No jogo tradicional, não é assim. Os neurónios-espelho desenvolvem-se no jogo com o outro”, revela. “Também se pode brincar sem brinquedos, só com a imaginação. Vendo uma criança brincar, percebe-se muito dela. A criança não inventa, reproduz. O jogo é um bom espelho da realidade.” E deixa um aviso importante: “Os meninos têm que ter espaço e tempo para brincar. Uma criança que não brinca será patológica. Não terá tempo para os amigos, para os filhos.” Pense duas vezes antes de escolher um brinquedo. Pode ser muito mais importante do que julga.

O Expresso viajou a convite

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 17 de dezembro de 2016