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O nosso medo é igual ao vosso medo

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O refugiado paquistanês de 23 anos detido como suspeito de envolvimento no ataque ao mercado de Natal, em Berlim, foi libertado na terça-feira à tarde. Agora, as autoridades alemãs procuram um outro homem, tunisino, que não conseguiu asilo. Em Portugal, os refugiados Mubarak, Daud, Ahmed e Y. falam do seu medo pelo medo crescente de quem os acolhe. Em discurso direto

O refugiado paquistanês de 23 anos detido inicialmente como suspeito de envolvimento no ataque ao mercado de Natal, em Berlim, foi libertado na terça-feira à tarde. Chegou à Alemanha a 31 de dezembro de 2015, fixou-se na capital há cerca de dez meses e tornou-se, sem querer, o símbolo da há muito difundida teoria dos movimentos anti-refugiados que garantem existir uma ligação direta entre a onda migratória e a entrada de terroristas no espaço europeu.

Agora, as autoridades alemãs procuram um outro homem, tunisino. Chegou à Alemanha em julho de 2015 e em junho deste ano viu o seu pedido de asilo recusado. Só não foi deportado imediatamente por falta de documentação.

O novo suspeito, apontado como um “homem perigoso”, quis ser refugiado mas não conseguiu a proteção humanitária que legalizaria a sua residência em Berlim. Ainda assim, a detenção inicial alimentou o medo dos europeus em relação aos refugiados. Em Portugal, os refugiados Mubarak, Daud, Ahmed e Y. falam do seu medo pelo medo crescente de quem os acolhe.

“Atacar os alemães é atacar a Merkel. E isso é atacar-nos a nós”

Mubarak M. Hussein, 31 anos, natural de Mogadíscio, na Somália, está em Portugal há quase seis anos. Veio diretamente de um centro de refugiados na Ucrânia, onde trabalhou como tradutor do ACNUR, depois de se licenciar em Direito Internacional. Tem três filhos pequenos a seu cargo

Tenho cinco dedos numa mão e nenhum deles é igual. As pessoas não são todas iguais. Nem todos os portugueses são bons, nem todos os alemães são maus. O mesmo para os refugiados. Uma pessoa que hoje é simpática e faz boas ações pode amanhã ser antipática e cometer más ações. E acredito que isto se consegue distinguir. A bondade ou a maldade não pertencem a uma raça ou nacionalidade.

Não tenho medo de ser confundido em Portugal com os terroristas. A maioria das pessoas percebe que isto não é feito em nome do Islão, nem que a culpa é da religião.

Ontem estive reunido com mais refugiados e falámos sobre Berlim. Isto é como se fosse uma coisa política. Querem tirar Angela Merkel do poder, porque ela apoiou muitos refugiados, deixando-os entrar na Alemanha, e agora com isto tem mais motivos para isso. Ela disse que a Alemanha era humana, que as pessoas deviam entrar e agora está a pagar por isso.

Sinto-me muito triste pelo que aconteceu, ainda para mais num momento em que as pessoas cristãs se estavam a preparar para uma festa tão importante. Sinto-me muito mal com isto. Com Berlim, com Nice, com todos os sítios onde há atentados contra a vida humana. Mas eu já cá estou há muitos anos, acredito que os ‘novos’ refugiados sintam medo. Eles vêm a fugir do medo, da mesma guerra que estas pessoas responsáveis pelos atentados lhes fazem a eles. Não falam a língua, alguns não percebem bem o que se está a passar.

Aqui, nunca tivemos problemas de discriminação. As pessoas nunca nos recusaram. Às vezes acontece não nos tratarem bem, mas não é a maioria. Não sabemos como será agora. Acredito mesmo que em Portugal não haverá problemas. Mas ontem, quando falei com outros refugiados, também lhes disse que as coisas estavam muito difíceis. Foi a Merkel quem, na Europa, sempre esteve a suportar os refugiados. Atacar os alemães é atacá-la a ela. E isso é atacar-nos a nós. Não sei como será para os refugiados que aí vêm, que tentam desesperadamente fugir desta violência.

“Fugimos das bombas de Mossul e viemos para a Europa. Agora aqui também há bombas. O que fazemos? Voltamos para Mossul?”

Daud al-Anazy, iraquiano, refugiado, tem 25 anos, perdeu tudo e é em Alfeizerão que procura novo rumo. Mas, para já, conseguiu o que muitos portugueses não conseguem: emprego e escrever um livro

Quando fiz a minha fuga para a Europa foi para vir para uma zona do mundo onde a paz e segurança eram uma certeza. Hoje sabemos que também na Europa há problemas. Eu e todos os meus conhecidos estamos tão inquietos quanto os europeus. Nós queremos viver em paz e seguros, longe de atos terroristas. Falei com um amigo que está em Berlim e ele disse-me “fugimos das bombas de Mossul e viemos para a Europa. Agora aqui também há bombas. O que fazemos? Voltamos para Mossul?”.

Felizmente, em Portugal ainda estamos num espaço de tranquilidade. Somos poucos os que cá estamos, queremos trabalhar e viver entre os portugueses. E os portugueses sabem isso.

Também não podemos deixar-nos levar pelo medo. Isso é o que quer quem provoca estes atentados. Neste ano que passei em Portugal, tive um ou outro caso de receio para com a minha pessoa mas a que não dei importância. Assim como o terrorismo, a ignorância não tem nacionalidade. Temos é de nos unir contra os dois e não deixar que o medo tome conta de nós.

Já tive de me esconder do Daesh durante meses. Agora chegou a vez deles se esconderem até serem apanhados. Estes atos a que estamos a assistir são a prova do seu desespero. Os europeus têm de responder sem medo mas sem cair na perseguição aos refugiados. Os refugiados querem um refúgio, não destruir a paz e segurança dos que os acolhem - na Europa, em Portugal.

“O nosso medo é igual ao vosso medo”

Ahmed Abdalla, 58 anos, foi um dos primeiros refugiados a serem reinstalados em Portugal. Natural da Somália, veio com a família, a mulher e os três filhos de um centro de refugiados em Malta. Atravessou três países até chegar à Europa. Hoje é o presidente da União de Refugiados em Portugal e cidadão português

O mais complicado é para os refugiados que estão lá, na Alemanha. Ou os que estão noutra cidade com atentados. Porque vão ter mais medo. Eles vão ter medo porque os alemães também vão ter medo. E vão ter medo deles. Eles já são vítimas, porque estão a procurar uma vida, paz, liberdade. Procuram uma oportunidade, para alguns é a única oportunidade. Nós conhecemos a guerra, vimos de países onde convivemos com ela e com os terroristas. Também somos vítimas. Fugimos dos atentados, das bombas, da violência. É o contrário disso que procuramos cá. Não somos nós que trazemos a violência. O nosso medo é igual ao vosso medo. É muito triste ver o que estas pessoas fazem.

Com isto vão-se assustar. Eu também me assustaria. Eles estão à procura de vida, mas quando o país acolhedor na Europa sofre o que sofre o país dos refugidos, as pessoas ficam com medo. Com medo deles. É muito complicado.

A nossa religião é uma religião de paz. Não permite matar pessoas. Quem mata alguém, mata todos. Quem salva alguém inocente, salvou todos. As máfias é que querem pôr a religião muçulmana a matar. Isso não é o Islão!

Cá, em Portugal, não sinto diferença na maneira como os portugueses olham para mim. Sou muçulmano e refugiado e não me sinto discriminado. Em Portugal, a lei diz que há liberdade de religião. E é assim, sim. Temos atenção do povo português mas não nos ofendem, nem discriminam. Não sentimos que odeiam a nossa religião. Há problemas, claro, com papéis, com atrasos no SEF, há falta de emprego, temos dificuldade em aprender a língua e há famílias com muitas dificuldades. Mas as pessoas, o país, não nos rejeitam. Mantemos a nossa esperança de que aqui seremos mais felizes. Lutamos para isso. Não posso falar por todos os refugiados, mas os portugueses não se afastam de mim na rua, não ofendem o meu deus, não dizem que tenho menos direitos por ser refugiado ou por ser muçulmano. Não sinto que me liguem a estes atos.

Não será assim nos países onde há atentados. Os terroristas fazem aqui na Europa o que fazem nos nossos países. Somos todos vítimas.

“Não usem a religião como desculpa”

Y., 15 anos, aluno do Colégio São João de Brito

Quando chegámos a Portugal contactámos com uma cultura muito diferente da nossa. No início sentimos algum receio com o desconhecimento da língua portuguesa e a aceitação das pessoas para connosco (por exemplo: o olhar de desconfiança para as vestes diferentes das mulheres muçulmanas).

Ultrapassada esta primeira fase de integração, notámos que já não há tantas diferenças. As pessoas já nos conhecem e querem saber mais sobre a nossa cultura. Por isso, já está mais fácil a integração.

Uma última frase para aquelas pessoas que dizem que estes são muçulmanos e fazem terrorismo em todo o mundo, digo: não usem a religião como uma desculpa. Antes de serem muçulmanos são pessoas!