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A freguesia mais multicultural de Portugal: o caldeirão de Arroios, onde cabem pessoas de 79 nacionalidades

nuno botelho

A californiana Abeth veio ensinar inglês e acabou por abrir uma escola de danças vintage americanas. O “afro-ribatejano” Nelson e o italiano Paolo juntaram-se para criar os Irmãos Makossa e levar o afrobeat a todo o lado. Tazmine, de Madagáscar, e Baddru, do Paquistão, conheceram-se em Paris e gerem um supermercado indiano junto ao Intendente. As arquitetas Elisa e Valentina apostam noutros sabores: criaram a associação Mani in Pasta, para honrar as receitas tradicionais de Itália. No caldeirão de Arroios (Lisboa), a freguesia mais multicultural do país, cabem pessoas de 79 nacionalidades

Nelson Marques

Nelson Marques

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Bom dia, bom dia, bom dia a toda a gente, eu hoje venho à escola e por isso estou contente. Bom dia!

Good morning, good morning, good morning all the children, today I come to school and I feel very happy. Good morning!

Buenos días, buenos días, buenos días a todos, hoy vengo a la escuela y por eso estoy feliz. ¡Buenos días!

nuno botelho

No Jardim de Infância dos Anjos (JIFA) a canção de "Bom Dia" é cantada em cinco línguas: português, espanhol, francês, inglês e italiano. Basta subir os degraus que dão acesso à escola para perceber que este é um lugar diferente. Nas paredes, há meia dúzia de grandes bonecas em papel e cartão inspiradas em personagens de diferentes culturas: como Sadako, a menina japonesa vítima da chuva radioativa que caiu sobre Hiroshima; ou Frida Kahlo, a pintora mexicana conhecida pelos seus autorretratos. São o reflexo da diversidade que se encontra aqui: entre as quase 100 crianças, dos 18 meses aos 6 anos, há miúdos de 19 nacionalidades diferentes. Perto de metade são filhos de estrangeiros.

Esta multiculturalidade revela-se a cada passo que se dá. Está no mapa-mundo feito de massinhas, nos globos de diferentes tamanhos e materiais, nas bandeiras de papel de vários países. Está nos olhos rasgados de Cristina, filha de chineses, e nas trancinhas da angolana Ehuliany. Está em Bimarsha, Drisana e Devin, do Nepal. Em Caleb e Peculiar, da Nigéria. Em Aiyush e Sherlin, da Índia, ou em Maha, do Paquistão. E está também na cozinha, cheia de cábulas na parede, para que tudo o que dali sai obedeça às regras de cada cultura e cada religião.

O JIFA sintetiza de forma ímpar a Torre de Babel que é a freguesia de Arroios, no centro de Lisboa. Num território com pouco mais de dois quilómetros quadrados, que se estende do Martim Moniz até à Alameda Afonso Henriques e da Penha de França até ao Saldanha, vivem pessoas de 79 nacionalidades vindas dos cinco continentes. Nenhuma outra zona no país representará tão bem a sua condição multicultural como esta freguesia nascida da agregação das antigas freguesias dos Anjos, Pena e São Jorge de Arroios.

Foi precisamente na Rua dos Anjos, nas instalações do Lisboa Ginásio Clube, que a americana Abeth Farag ergueu, há dois anos, a Swing Station, o primeiro projeto em Portugal que promove a música e as danças vintage americanas. A californiana chegou há 13 anos para dar aulas de inglês, mas acabou por se render a outra grande paixão.

A escola tem cerca de 200 alunos, muitos dos quais estrangeiros. Alguns descobriram estes ritmos em Portugal, outros já os conheciam e quiseram continuar a dançar durante a sua passagem por Lisboa. "Esta mistura de culturas através da dança é uma coisa muito bonita", afirma Farag.

Do terraço do Lisboa Ginásio Clube avista-se a Rua do Benformoso, que corre paralela à Almirante Reis, entre o Largo do Intendente e o Martim Moniz, já na freguesia vizinha, a de Santa Maria Maior. É o melhor exemplo deste caldeirão cultural de Arroios. São pouco menos de 500 metros de extensão, mas neles vivem 1500 pessoas de mais de 40 nacionalidades diferentes, segundo os registos oficiais. Haverá várias outras, porque este continua a ser um ponto de abrigo de muitos imigrantes ilegais que chegam à capital.

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Os negócios locais deram lugar a restaurantes do Bangladesh e do Nepal, a lojas paquistanesas, a cabeleiros indianos, a talhos com comida halal. Vende-se de tudo: alimentos, tecidos coloridos ao metro, quinquilharias, réplicas de relógios, brinquedos, perfumes, malas de "pele" a dois euros, calçado, acessórios, objetos kitsch. Droga também. E corpos gastos. É a Lisboa que não aparece nos roteiros turísticos.

Há brasileiros e africanos à conversa em bares, mas nas ruas pouco português se ouve. À medida que nos aproximamos do Largo do Intendente são as jelabas e os turbantes árabes que dão colorido à calçada. Está-se em Lisboa, mas quase se poderia estar numa qualquer cidade do Médio e do Próximo Oriente. Se o Martim Moniz é a Chinatown de Lisboa, o Benformoso transformou-se em Banglatown. É um mundo à parte, com todos os mundos dentro dele.

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Esta diversidade está estampada numa parede do Largo do Benformoso, que marca a fronteira entre as duas freguesias, bem junto ao local onde, no próximo ano, deverá nascer a nova mesquita da Mouraria. Numa parede branca, com manchas de tinta laranja, há um painel com alimentos e a mesma mensagem em várias línguas: "Food is culture. Cibo è cultura. Comida é cultura. Comida es cultura. Cuisine est culture. Essen ist Kultur". Foi ali colocado pelo coletivo Mani in Pasta (mãos na massa, em bom português), uma "associação culinária criativa" fundada por duas arquitetas italianas que se conheceram em Lisboa. O objetivo: "não deixar cair no esquecimento as receitas tradicionais" do seu país.

O GUETO QUE SE ABRIU À CIDADE

Foi para não deixar cair no esquecimento esta zona de Lisboa que, em 2011, António Costa, então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, mudou o seu gabinete para o Largo do Intendente. Instalou-se no edifício agora ocupado pela junta de freguesia de Arroios (liderada por Margarida Martins, ex-presidente da Abraço), tornando-se um improvável inquilino daquela praça de má fama e no primeiro agente de mudança da zona.

Desde a remodelação iniciada em 2012, o Intendente abriu-se ao exterior e transformou-se num dos lugares mais cosmopolitas e procurados da cidade. A qualquer hora do dia, o largo enche-se de gente. Habitantes do bairro, turistas, polícias. O tráfico de droga e a prostituição persistem timidamente em algumas ruas circundantes ao largo, mas foi retumbante a mudança na imagem pública da zona: quatro anos bastaram para praticamente derrubar um preconceito de décadas. Até o diário norte-americano "The New York Times" já se rendeu.

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"Lembro-me de viver no Porto e me dizerem 'Não vás para o Intendente!' O meu pai ficou verde quando lhe disse que ia viver e trabalhar aqui", conta Marta Silva, uma bailarina que está à frente da cooperativa cultural Largo Residências. O projeto, que inclui residências artísticas, um hostel, um café com sala de espetáculos e uma loja de bicicletas, partiu de outra associação, a Sou – Movimento e Arte, presente na zona dos Anjos há mais de uma década e que se dedica à formação de artes performativas e à programação cultural. "Queríamos envolver-nos nos negócios sociais e assegurar a sustentabilidade da associação. Fomos os primeiros a chegar ao Intendente. Hoje há imensa coisa, mas na altura não havia nada".

RESISTIR À 'TUCTUCTIZAÇÃO'

Quando ali chegou, há cinco anos, Marta perguntava-se muito que local era aquele. "O Intendente era uma espécie de não-lugar, não era mais do que um largo. Se não fosse a fama dos últimos 30, 40 anos, não era conhecida como uma zona à parte". Foi essa má fama que o colocou no mapa.

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A Largo Residências aproveitou a boleia do projeto de reabilitação da Mouraria, que abrangia o largo. Queria ser um agente ativo nesse processo, esperando atenuar os efeitos da gentrificação que atingiu outras zonas de Lisboa. "O Intendente tem um capital humano muito inspirador, por ser tão diverso e contrastante, e isso deve ser preservado. O grande desafio continua a ser tornar este lugar apetecível para todos sem que haja uma descaracterização absoluta, uma tuctuctização total".

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Se a SOU é uma "porta para as pessoas entrarem", a Largo faz o movimento oposto. "Vamos ter com as pessoas, principalmente aquelas que não vêm ter connosco. Esse é o público prioritário. Queremos envolver a comunidade", explica Marta. Por isso, todas as residências e atividades artísticas têm como preocupação uma ligação a este território, seja do ponto de vista humano ou físico. O exemplo mais recente é projeto GLUM (Grupo de Limpeza Musical Urbana), formado por elementos da equipa de limpeza das ruas de Arroios e que se apresentou em julho no festival Bairro Intendente em Festa.

Marta levou a multiculturalidade para casa, no Bairro das Colónias, ali a dois passos do largo. Vive com o luso-angolano Nelson Martins, acabam de ser pais de uma menina. "O meu pai é português, a minha mãe angolana e eu sou afro-ribatejano", diz ele numa gargalhada. "Nasci e cresci no Cartaxo. Identifico-me muito com aqueles costumes, à exceção das touradas".

Nelson sempre teve contacto com os sons de África, mas foi quando conheceu o italiano Paolo Balirano que nasceram os Irmãos Makossa, dupla de DJ e pesquisadores que explora as raízes e as influências da música africana dos anos 70 e 80, em especial o Afrobeat. Começaram há oito anos numa festa de amigos e desde então nunca mais pararam.

"O Intendente é uma zona com a qual nos identificamos muito", admite Nelson, que, com Paolo, anima ali muitas noites. O DJ admite que persiste algum preconceito em relação à zona, mas convida as pessoas a visitarem o lugar e abrirem mentalidades. "Ainda há um certo estigma, mas esse é vivido por quem nunca veio cá. Convido as pessoas a sentarem-se aqui numa esplanada, passarem aqui uma tarde e vão ver que aqui ninguém faz mal a ninguém".

Quando voltamos ao largo, três amigos indianos partilham um frango tikka masala dentro da escultura projetada por Joana Vasconcelos, o Kit Garden. Para quem quer trazer a cozinha da Índia para a mesa, um bom destino é a Desi Food Store, logo ao dobrar da esquina, junto ao restaurante Cova Funda, onde António Costa almoçava muitas vezes quando ali tinha gabinete. É lá que encontramos Tazmine Mitha e Badruddin Dosani, Badru para os amigos, outro bom exemplo da multiculturalidade deste território: ela nasceu no Madagáscar, ele no Paquistão.

Em 1947, com a partição da Índia em dois estados independentes (Índia e Paquistão), os avôs maternos e os pais de Tazmine mudaram-se para a ilha do Índico, e os pais de Badru para o novo país. Nascidos em sítios diferentes, conheceram-se em Paris, onde ela estava a estudar e onde ele tinha ido para as celebrações do jubileu de Aga Khan IV, o líder espiritual dos ismaelitas. Apaixonaram-se e decidiram vir a Portugal a convite de um amigo. Como a história deles, foi amor à primeira vista.

O casal vive há 12 anos na Avenida Almirante Reis, longa artéria de quase três quilómetros, "território onde melhor se constrói a ainda ténue regeneração demográfica da velha Lisboa", considera o geógrafo João Seixas. O professor da Universidade Nova de Lisboa, um dos coordenadores da reforma administrativa da cidade, lembra que a zona sempre foi um constante local de chegada e de partida de gente de todas as partes do país e do mundo. "Arroios é desde há muito, e continua a ser, a zona de maior diversidade humana de Lisboa", seja ela cultural, étnica ou comercial, por exemplo.

DE ARROIOS PARA O MUNDO

Retratar esta diversidade e levá-la às pessoas da freguesia e um pouco a todo o mundo é o papel da Arroios TV, o primeiro canal de uma junta de freguesia do país. "Somos uma televisão de proximidade. Queremos chegar a todas as pessoas sem barreiras. É essa a nossa identidade", explica Francisco Gamito, produtor executivo do canal, instalado no mercado do Forno do Tijolo.

Com emissão aberta desde 15 de outubro, todos os dias entre 10h da manhã e a meia noite (canal 5050 do MEO e em streaming na Internet), o canal tem perto de 15 propostas: há programas para aprender a falar mandarim, para conhecer os "Sabores do Mundo" que saem das cozinhas da freguesia, e para perceber as diferenças entre diferentes culturas ("Todos Diferentes, Todos Iguais"). Um canal assim só poderia ter nascido ali.

Há cidades que têm a sorte de ter lugares assim. Povoados por portugueses, africanos, indianos, chineses, brasileiros. Lugares diversos e intensos. Imensamente ricos, mesmo que pareçam muito pobres aos olhos de alguns. Arroios não é um livro porque podia ser uma enciclopédia. O mundo inteiro cabe ali. E nem precisa de passaporte.