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Nos bastidores do circo do Coliseu do Porto: sem jaulas e de portas abertas

D.R.

Ir ao circo é uma tradição natalícia para várias famílias portuguesas e o Expresso foi ver como tudo acontece nos bastidores do circo do Coliseu do Porto, sem animais enjaulados e de portas totalmente abertas

André Manuel Correia

O Coliseu do Porto – ou simplesmente Coliseu Porto – continua a ter, aos 75 anos, a capacidade de inovar e uma das provas prova disso mesmo é o circo de Natal, motivo de alegria e que faz convergir um público dos oito aos 80. Esta é já uma tradição natalícia para muitos, mas até as tradições se atualizam e, pelo segundo ano consecutivo, o Coliseu apresenta uma companhia de luxo e intercontinental, com a particularidade de não incluir números com animais.

O Expresso foi assistir ao espetáculo de uma perspetiva menos habitual, nos bastidores de um circo sem jaulas, sem portas fechadas e com muitos sorrisos abertos.

Um táxi pára em frente ao Coliseu. Do interior, uma mulher ainda jovem sai cuidadosamente com um bebé nos braços, enquanto desdobra a atenção pelos outros dois filhos, duas crianças irrequietas, bastante animadas, que saem apressadas. Esta é mais uma das muitas famílias que se concentram à entrada da sala de espetáculos.

Já sentado na plateia fomos roubar por breves momentos a atenção do pequeno “Ruca”, com apenas três anos, mais preocupado em ver o Pai Natal e expectante pelos palhaços. Ao seu lado, a mãe, Dulce Cavadas, segura o pequeno Simão, que com dois meses e meio de vida vai pela primeira vez ao circo. O pai, com 31 anos, recorda ainda os tempos de infância em que se divertia a ver os números com animais. Agora os tempos são outros e, volvidas quase duas décadas de ausência, reencontra-se novamente com um chapiteau diferente do habitual. De forma muito vagarosa, A subir as escadas que dão acesso à plateia vem Alfredo, um senhor de 87 anos, apoiado pelas muletas e pelo braço cuidadoso do filho Carlos.

O espetáculo começa com Emílio Gomes, um ator que ali desempenha a função de apresentador, a desejar as habituais boas-vindas a todos os meninas e meninos, senhoras e senhores, e a chamar para o palco uma “companhia intercontinental”, com artistas provenientes de latitudes e culturas bastante diversas, desde a Colômbia até à China.

Equilibrismo, uma roda da morte, contorcionismo, ballet, truques com diábolos e malabares, acrobacias com monociclos e, claro, os inevitáveis palhaços que fazem as delícias dos mais novos. Há muito para ver neste circo que procura fazer “uma reconversão estética e artística”, como refere o presidente da direção do Coliseu, Eduardo Paz Barroso, para quem “o Porto tem atualmente um dos melhores circos de entre todas as cidades europeias”, opinião sustentada pelo feedback de alguns artistas.

Só não há magia, mas o apresentador rapidamente tenta resolver a questão “Faço desaparecer uma nota de 500 euros. Com dez de cinquenta também funciona”, garante. Todos riem. Ninguém acede. O espetáculo prossegue.

Por detrás da cortina

Abandonamos a plateia e dirigimo-nos para os bastidores, de forma a acompanhar todos os passos de uma outra perspetiva e onde o frenesim é uma constante. Por detrás da cortina, naquele espaço escuro repleto de cabos e maquinaria, realizam-se os últimos ensaios, expurgam-se os nervos e são ditas as últimas palavras de incentivo antes de enfrentar o público.

Através de um monitor, o diretor de cena Gonçalo Gregório acompanha ao pormenor tudo o que se passa e também ele vibra com o espetáculo. Ali, artistas e elementos da equipa técnica estão atentos a tudo o que se passa. Batem palmas, fazem piadas, apoiam-se mutuamente e sofrem sempre que o número de um colega não corre da maneira desejada.

E isso até já aconteceu numa das apresentações, quando um elemento dos The Gerlings, grupo de sete equilibristas colombianos, caiu e se lesionou. É uma profissão de risco e eles sabem disso. Um dos membros do grupo, Andrés Solaque, 30 anos, enfrenta a física e a sorte com perícia há 19. “Comecei como ajudante, a armar e desarmar, e fui subindo até me tornar num artista”, conta ao Expresso. Já viajou por todo o mundo com este grupo bastante premiado, que em janeiro se apresentará no Circo de Monte Carlo.

Durante o intervalo, os artistas aproveitam para descansar e, no caso de alguns, é tempo suficiente para fumar um cigarro. Até que alguém diz: “Dois minutos”. Todos se apressam. “Um minuto” e já todos estão a postos.

Um dos artistas mais animados e irrequietos nos bastidores é Barry Lubin, o reputado “clown” norte-americano de 64 anos, que interpreta a personagem de “Big Momma” – a “Avózinha”, em português – e que no final se junta a um duo de palhaços portugueses, composto por Adolfo Luftman, o palhaço pobre, e Quinjó, o palhaço rico.

Os dois palhaços portugueses que trabalham juntos há oito anos são, aliás, os únicos artistas nacionais presentes nesta edição do circo do Coliseu Porto. Ambos já nasceram no circo, mas o “formigueiro” na barriga ainda está presente antes de cada apresentação. “Tem de haver sempre um nervoso miudinho, porque se não houver também não há respeito por aquilo que se faz”, frisa Adolfo Luftman, de 37 anos, em entrevista ao Expresso já nos camarins enquanto retira a maquilhagem.

“É uma profissão bastante agradável. É muito bom ir à pista e ver uma criança com um sorriso. E os pais quando vão para casa com os filhos felizes, também eles próprios vão satisfeitos”, considera Quinjó, de 46 anos.

“O único animal irracional deve ser o apresentador”

No final do espetáculo, enquanto Barry Lubin, extenuado, aproveita para dormir um pouco, falamos com Emílio Gomes, o apresentador ou “ringmaster” na tradição anglo-saxónica. Já sem a cartola, o ator que pelo segundo ano troca o palco pela pista encara o desafio “como se estivesse a preparar uma personagem de teatro” e procura, acima de tudo, “divertir e divertir-se”.

Esta conversa com o animador de 35 anos só é possível devido ao facto de o circo do Coliseu não incluir números com animais, caso contrário, garante, não estaria ali. “Se tivesse animais, ia-me fazer confusão e não me ia sentir motivado. Eu gosto de circos só com animais racionais. O único animal irracional deve ser o apresentador”, diz, entre risos.

Até 1 de janeiro, o circo tem lugar cativo – mas sem cativeiros – no Coliseu Porto e mesmo o dia de Natal, pode ser uma boa ocasião para sair de casa e fazer algo diferente em família, com uma apresentação agendada para as 17h30 de 25 de dezembro.