Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Mais do que permitia a força humana

O Expresso esteve lado a lado com os recrutas do 127º Curso dos Comandos. Dos 67 homens que começaram, apenas 23 resistiram. Dois morreram. Durante mais de 12 semanas, foram levados além do limite. Mais do que permitia a força humana

João Santos Duarte

João Santos Duarte

texto

Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

fotos

Fotojornalista

tiago miranda

Domingo, 4 de setembro de 2016. “O segundo verão mais quente desde 1931”, dizem os jornais da manhã. No Campo de Tiro de Alcochete, 67 militares estão já a meio do primeiro dia a sério do Curso de Comandos nº 127. Dia da “Prova Zero”. Muitos já estão a ser levados à enfermaria de campanha. Os restantes continuam o tropel de exercícios.

Os joelhos e os cotovelos vão ao chão, os corpos levantam-se numa chicotada para caírem de novo de quatro, e assim sucessivamente até à exaustão. É o “Carrossel”, exercício que treina o mecanismo de reação do militar perante ameaças súbitas. Quedas na máscara, em posição de defesa, por trás das mochilas colocadas em círculo no chão, a servirem de proteção, intercaladas com exercícios de tiro, com exercício de marchas. A terra está tão seca que as botas vincadas com força no chão levantam uma poeira quente que dificulta ainda mais a respiração.

22 dos 67 irão parar à enfermaria. A intensidade, a sequência rápida dos exercícios, os curtos intervalos de descanso testam ao extremo a resistência física. E psicológica. “De todo o curso esta é a prova que nos leva mesmo ao limite”, admitirão mais tarde os instruendos que chegam ao fim do curso. Rui viu vários camaradas cair, mas aguentou. “Tive a felicidade de não me sentir mal, de ter continuado sempre de pé.” “Para o esforço que fazíamos, a água que bebíamos ali não seria talvez a mais desejável”, admite outro instruendo. “Mas, à partida, já sabíamos um pouco ao que íamos, tendo em conta as histórias que ouvíamos de outros cursos.” Estão quase 40 graus, a sucessão de exercícios prossegue, há vómitos, Rui vê a seu lado instruendos a terem alucinações.

De repente, os exercícios param. Algo está errado, mas os instruendos não entendem ainda a gravidade da situação. “Começámos a achar um pouco estranho, tanto tempo de descanso. Andávamos à nora, não sabíamos o que se estava a passar.” Receberão depois ordem para arrumar as coisas, iriam afinal voltar para a Unidade e regressariam ao quartel da Carregueira não ao fim de três dias, como previsto, mas no dia seguinte. Chegam na segunda-feira, pousam as mochilas de combate, é-lhes ordenado que formem no corredor. Duas filas separadas, encostadas a cada uma das paredes, como é hábito. À sua frente, o capitão Monteiro, comandante da companhia de formação. As palavras deixam o grupo em choque. O segundo furriel Hugo Abreu morreu.

No princípio, o sonho

Recuemos 48 horas. No sábado, o Expresso está em reportagem no Regimento dos Comandos, na Carregueira. O Exército aceitara pela primeira vez que um jornal acompanhasse um curso de Comandos. O objetivo era acompanhar o grupo de jovens desde o dia em que entram na recruta, em abril, até ao dia em que recebem a boina vermelha de comando, a 25 de novembro: perceber as suas motivações e o que passariam durante meses para alcançar o objetivo. Poderíamos estar presentes em momentos autorizados. Não na “Prova Zero” do dia seguinte, em Alcochete. Motivo invocado: não querer divulgar os bastidores de um momento considerado decisivo para o arranque do curso. A prova, além da elevada exigência física, tem vários mecanismos de ação psicológica que, na justificação do exército, não convém revelar publicamente: o relato acima é uma reconstituição a partir de depoimentos de instruendos com quem falaríamos no final do curso.

O sábado, véspera da tragédia, é um dia protocolar de arranque do curso, mas não há exercícios. Fotografamos os 67 instruendos, incluindo Hugo Abreu, que há de ser fotografia de primeira página do semanário Expresso uma semana depois. Dos 67, entrevistamos 15 que acompanhamos desde abril.

 RESISTÊNCIA. O condicionamento antes do tiro é um dos exercícios mais temidos pelos instruendos

RESISTÊNCIA. O condicionamento antes do tiro é um dos exercícios mais temidos pelos instruendos

tiago miranda

Não é comum ouvir um homem de barba rija, para mais um militar, dizer que sente “borboletas na barriga”. É dos nervos, que se sentem no ar na caserna da companhia de formação. “Estou um pouco ansioso, não sei bem o que vai acontecer. Ouvimos sempre falar de histórias, mas só quando passarmos pelas coisas é que saberemos bem ao certo”, confessa Adérito Oliveira, um dos instruendos. Fala-se já da “Prova Zero”, que tem fama e história, contam-se coisas uns aos outros. “Sinto uma mistura entre ansiedade e receio”, admite Renato Carvalho. Ambos têm 22 anos. Ambos despediram-se dos empregos em busca do sonho de ser comando.

A maioria dos instruendos está confiante de que estará preparada fisicamente, alguns duvidam da capacidade psicológica para ultrapassar o primeiro embate do curso. O receio estende-se a vários elementos no quartel. Há um ano, na mesma prova, nove instruendos tiveram de receber tratamento hospitalar. Este ano, os termómetros elevados deixam os próprios instrutores apreensivos.

Após a morte de Hugo Abreu, as atividades do curso estiveram suspensas, foram retomadas apenas a 15 de setembro. O Exército acabaria por autorizar a continuação da reportagem do Expresso, propondo um calendário de cerca de 20 dias de instrução aos quais teríamos acesso. A reportagem foi retomada seis dias depois, noutro exercício temido pelos instruendos: o tiro.

“Autoestrada para o inferno”

A máscara de esforço está-lhes bem vincada no rosto. A estrada é feita de terra batida e pedras. Primeiro rastejam de barriga para baixo, depois de costas. Os pingos de suor caem-lhes da cara. As fardas de instrução já estão todas sujas de pó, algumas delas rasgadas. Os punhos estão cerrados para protegerem os dedos de se ferirem no cascalho. Há quem pare a meio com o cansaço e fique prostrado ali na terra batida. Em fundo, uma viatura Iveco do exército, que acompanha habitualmente várias ações de instrução, está equipada com duas colunas de som à frente. A Iveco é conhecida como “o orelhas” e debita a banda sonora adequada: ‘Highway to Hell’, dos AC/DC.

Estamos a 21 de setembro, a meio de um exercício de tiro reativo, o objetivo é reagir rapidamente a uma ameaça. Depois de um primeiro treino “a seco”, sem munição, é agora a fase do “condicionamento”: pretende-se cansar os instruendos ao máximo. “Instruendo Lopes, você não é nenhuma foca! É rastejar com técnica!”, avisa o instrutor. “Se o pessoal se tivesse esforçado estava agora a dar tiro e já não andava aqui.”

Deixa de rastejar. Está de pé. Siga. Deitado. Siga. Corrida até ao crachá dos comandos e regressar. “Dúvidas? Está a contar, siga.” No regresso são 30 polichinelos, saltos abrindo e fechando os braços e as pernas ao mesmo tempo. Mais máscaras de cansaço nos rostos. Mais gotas de suor a cair da cara, faz-se a contagem de polichinelos ...28, 29 30, o caminho até à carreira de tiro é feito às cambalhota pela terra.

tiago miranda

O objetivo, dirão os instrutores, é aproximar o mais possível o tiro de uma situação limite num teatro de operações real. Os instruendos têm de acertar no alvo e ainda contar as munições num contexto em que estejam sujeitos a um grande cansaço físico e psicológico, como numa possível futura missão. Formar a linha de combate. Colocar proteções sonoras. Joelho em terra. Empunhar a arma. Disparar em direção ao alvo com os dois olhos abertos. Introduzir carregador municiado com técnica. Pancada no carregador. Manobrador da culatra à frente. Adotar a posição de transporte da arma à anca. Siga. Voz para fogo real. Fogo! Deitou. Fogo! Mais rápido a levantar! Joelho. Fogo! “Está a fechar o olho, ó instruendo? Já lhe vou tratar da saúde.”

“Vazio!”, gritam no final da sessão. Mas há falhas na contagem. “Você não vê que ainda tem aí uma munição?” É altura de contar o número de impactos no alvo. “Acertou 16 mas fechou um olho nos disparos, quando era suposto acertar com os dois olhos bem abertos.” “Não, meu tenente”, responde o instruendo. “Estou a dizer-lhe que fechou o olho, sei perfeitamente ver que fechou. Falta de lealdade!”

Falhas de contagem ou “faltas de lealdade” dão direito a “tratamento VIP”. Hoje, os VIP vão passar primeiro pelo charco, uma grande poça de água enlameada junto à carreira de tiro. Rastejam de costas pela água, depois viram-se de frente, mergulham a cara na poça e gritam “comandos!”, à saída. Em seguida atravessam um silvado a rebolar.

De fora tudo parece demasiado duro. Mas de dentro, na cabeça destes homens que estão a ser treinados para serem uma força de elite, há uma lógica: “Em combate qualquer pequeno erro pode pagar-se caro, com a própria vida. Estas situações existem para aprendermos a não cometer o mesmo erro duas vezes. Se forem só avisos verbais a malta esquece-se logo facilmente. Falhar não pode ser opção quando é a própria vida que está em jogo”, afirma um instruendo. Outro, sentado no meio do mato depois de passar pelo mesmo tratamento, explica a simulação com a realidade: “Imagine que estávamos numa situação real e agora aparecia aqui o inimigo. Estas silvas podem salvar-me a vida, eu não posso ter medo de atirar-me para dentro delas. Depois deste curso já não tenho medo de nada.” O mesmo acontece com o charco. “Como comando posso um dia ter de meter-me dentro de um esgoto. Nunca se sabe o que nos espera em missão.”

Momentos. Exercícios físicos durante o curso levam instruendos ao limite, e a prova de agressividade coloca-os frente a frente no ringue

Momentos. Exercícios físicos durante o curso levam instruendos ao limite, e a prova de agressividade coloca-os frente a frente no ringue

tiago miranda

Na Companhia de Formação, os erros também podem ser mais banais, e as pagas de outra ordem. Por exemplo, não ter o seu espaço na caserna bem arrumado. À custa disso, Renato e Deison foram ambos parar debaixo do chuveiro, abrindo à vez as torneiras de água quente e fria. A água ora lhe gela, ora lhe escalda na pele, mas Renato permanece ali, rosto impávido, como se aquele choque brutal de temperatura não fosse com ele. Ao lado, o camarada não consegue esconder a expressão de sofrimento.

À espera de notícias

Naquele dia em que o capitão anunciou a morte de Hugo Abreu houve lágrimas no corredor. “Foi um choque. Sabíamos que se tinha passado algo, mas nunca imaginei que fosse assim tão grave”, confessa Rui Santos. “Podia ter acontecido a qualquer um.” Ainda hoje têm arrepios quando se lembram daquele instante.

Ao mesmo tempo que eles estavam fechados no curso, dezenas de pais estavam cá fora com o coração nas mãos.

Durante várias horas não se soube a identidade do instruendo que tinha morrido. As famílias ficaram em pânico. “Ouvi na rádio às 7h da manhã que tinha morrido um militar no curso de Comandos. Liguei para a minha mulher, ficou aterrorizada”, recorda José Oliveira, pai de Adérito. Vários pais ligaram, em desespero, para o Regimento de Comandos e para os hospitais da região para saber se os filhos estavam bem. Só durante a tarde dessa segunda-feira, já depois das palavras do capitão ao grupo, os próprios instruendos foram autorizados a ligar para casa, para descansar as famílias.

A mãe de Adérito pediu-lhe ao telefone, a chorar, para desistir, ir embora dali. Ele decidiu continuar. Além do sonho pessoal, tinha um segundo objetivo a cumprir. Não estava ali só por ele. O pai também tentara fazer o curso de Comandos, mas foi impossibilitado de chegar ao fim por causa de uma lesão. Lembrar-se da tristeza nos olhos do pai sempre que contava a sua história motivou-o a nunca desistir do curso.

tiago miranda

Outra mãe diz que nunca mais se esquecerá da chamada do filho nessa tarde. “Quando me ligou ele não parava de chorar.” Estivera entre os que caíram durante a “Prova Zero”, sofrera uma insolação e desidratação, esteve a soro na enfermaria. Recorda o momento que o marcou para sempre no curso 127: “O Hugo Abreu morreu à minha frente.” Testemunhou os últimos momentos do camarada e como a ambulância chegou tarde demais, quando já nada havia a fazer. “Foi por isso que passei um bocado pior naqueles dias.” A mãe recorda que na primeira vez que foi a casa depois da fatalidade, ele esteve os dois dias a chorar. Mas nunca desistiu do curso. Está entre os 23 que acabaram.

Para muitos pais, as semanas seguintes seriam de intranquilidade. “Sempre que o telefone tocava, então quando era à noite, até saltava da cama”, admite uma mãe. Enquanto estão no curso, os instruendos não têm qualquer contacto com o exterior. O telemóvel é-lhes retirado e não são autorizados a ter conversas com outros elementos do regimento. O objetivo, afirma o comandante da companhia de formação, é fortalecer a união do grupo. “Um sujeito que está isolado da família e dos amigos tem de virar-se para o que tem, que são os indivíduos que estão ao seu lado. No final do dia, em vez de ir para o Facebook, vai ter de falar com o camarada do lado. Juntos criam uma amizade que depois os vai ajudar a ultrapassar várias dificuldades”, garante o capitão Passos Monteiro. Há quem não compreenda isso tão bem. “Ao menos podiam deixar-nos ligar pelo menos uma vez por semana, para podermos descansar as famílias”, desabafa um dos instruendos.

Prova de fogo

“Pode usar a parte de trás da folha para escrever à família”, dizem a cada um dos instruendos que se aproximam, à vez, de mochila e arma em punho. Ao lado do instrutor está um cartaz: “A morte sanciona cada falta.” É mais um de muitos elementos de ação psicológica exercidos sobre os militares durante o curso. “Vai realizar um percurso individual de combate. Deve seguir rigorosamente todas as indicações dadas ao longo do percurso”, avisa o instrutor. “Todos os meios utilizados são reais, munições e explosivos. O Regimento de Comandos não se vai responsabilizar pelo que lhe possa acontecer. E, para isso, vai assinar um termo de responsabilidade.”

Dedicação. Instruendos escondem muitas vezes lesões para evitar desistência, e esforço é constantemente posto à prova

Dedicação. Instruendos escondem muitas vezes lesões para evitar desistência, e esforço é constantemente posto à prova

tiago miranda

Estamos a 27 de setembro, no Campo Militar de Santa Margarida, é a Prova Individual de Combate, conhecida como PIC. Aí serão postos à prova os conhecimentos adquiridos ao longo das últimas semanas através de vários desafios colocados num percurso de pouco mais de um quilómetro. É aqui que entra o famoso “Túnel da Morte”. Os instruendos têm de passar por um túnel à entrada da qual está escrito “Se entras, morres.” Progridem de costas, às escuras, primeiro num plano seco, depois encontrando água que lhes deixa um espaço reduzido para respirar. “Não se pode pensar muito, tem de ser feito com ímpeto”, garante o instruendo Ruben Ribeiro. “É mais complicado pela fama que tem antes do curso, mas acaba por ser mais uma questão psicológica do que outra coisa.” É vista como uma prova de decisão — ou faz ou não faz. Há instruendos que não conseguem superar.

A pista marca o fim da fase individual de um curso que tem ainda uma fase por equipas (cada uma com cinco elementos), e no último mês uma fase de grupo, onde as várias equipas já vão trabalhar em conjunto. A fase individual tem início na “Prova Zero”, logo na primeira semana. O momento já teve várias designações ao longo dos tempos. Chamou-se “Prova da Sede” quando o curso surgiu inicialmente em África, nos anos 60, em plena Guerra Colonial, quando o objetivo era preparar os soldados para um cenário com pouca água. Também já foi designada de “Prova de Choque” ou “Prova de Aptidão Comando”. Na lógica do sistema de formação do curso de Comandos cumpre um objetivo primordial: mostrar que os indivíduos não estão preparados, e têm muito para aprender. Isso consegue-se criando um conjunto de dificuldades iniciais tão grandes que é difícil cumprir tudo o que lhes é pedido. Ao final de um mês de instrução, quando terminar a Pista Individual de Combate com sucesso, o instruendo “vai não só aumentar os níveis de confiança em si próprio como associar esse sucesso ao instrutor que o ensinou, e [interiorizar] a não discutir ordens. Todo o curso é uma manobra de ação psicológica”, explica o major Sousa Pinto, chefe da secção de formação do regimento.

Rocky na Carregueira

“Vamos acordar e ficar a ouvir a rádio no ar, a chuva a cair...” 10 de outubro, são 6h da manhã, ainda não há luz na caserna quando o ‘Amanhã de Manhã’, das Doce, irrompe pelas colunas. A música é constante em vários momentos do curso. À hora de deitar, por exemplo, estes homens, que estão a ser preparados para integrar uma força militar implacável, eficaz e treinada para os piores cenários de guerra, ouvem o ‘Vitinho’. Aos domingos, há Nelson Ned, “O que é que você vai fazer domingo à tarde?...”

As músicas funcionam como pistas para os momentos que esperam os instruendos. Enquanto alguns se vão já dirigindo à casa de banho para fazer a barba, a música das Doce muda de repente. Aos primeiros acordes de ‘Eye of the Tiger’, alguém exclama: “Ui, Rocky Balboa...” “O que será?”, questiona o da cama do lado. “Coisa boa não deve ser...”

Há quem seja mais perspicaz. Na noite anterior tinha sido deixado nas camas um panfleto amarelo com a frase “A agressividade é uma constante do comando.” Miranda está a engraxar as botas e já não tem dúvidas: “Com esta musiquinha e a mensagem de ontem... vem aí a ‘Prova de Agressividade’”.

CONSEQUÊNCIA. Tudo se paga no curso de Comandos, e não há margem para erros

CONSEQUÊNCIA. Tudo se paga no curso de Comandos, e não há margem para erros

tiago miranda

O ringue improvisado é montado com cordas atadas a pinheiros. Duas filas de pinos são colocadas até ao ringue, simbolizando uma passadeira vermelha, no início da qual foi colocado o crachá dos Comandos. Há um mestre de cerimónias de camisinha branca e laço preto, mas de calças de camuflado. Os instruendos vão chegando dois a dois, em tronco nu, e são preparados por instrutores que lhes colocam luvas e um capacete protetor. À volta do ringue, vários comandos do batalhão vão atiçando os ânimos. “Eu quero ver sangue!” Miranda luta com Câmara. Primeiro assalto. Numa entrada de rompante, Câmara aplica um soco que deixa o nariz do adversário a sangrar. O sangue está-lhe agora na cara e no peito, mas Miranda não vai abaixo e não desiste de socar o camarada. No final do combate, os dois adversários abraçam-se.

Qual o objetivo desta prova? Para o comandante da Companhia de Formação é necessário incutir esse tipo de agressividade na formação de um soldado com esta tipologia. O objetivo não é pôr camarada contra camarada, mas que se abstraia de quem está a lutar e mostre agressividade. “Tivemos exemplos de miúdos até algo franzinos que, perante indivíduos com constituição física muito superior à deles, avançaram. É necessária uma capacidade de vencer obstáculos, com alguma agressividade.” Mas há instruendos que, mesmo assim, não ficaram muito convencidos, ao chegar ao final do curso, com o objetivo da prova: “Não percebo muito bem. Porque normalmente nós devíamos defender os nossos camaradas, não agredi-los...”

Dylan

Flashback. Passaram sete dias desde a morte de Hugo Abreu, o curso está ainda suspenso, os instruendos preparam-se finalmente para ir a casa. Há vários camaradas ainda internados após a “Prova Zero”, entre eles Dylan da Silva. Alguns estão a pensar em fazer-lhe uma visita ao hospital. “Sabíamos que ele não estava bem. Tinhamos a esperança que estaria a melhorar, ou pelo menos que estaria a aguentar-se”, recorda Rui Santos, que costumava apanhar boleia com ele para o Norte sempre que podiam ir a casa. Ao contrário de Hugo Abreu, que era graduado e tinha vindo apenas para o curso, Dylan era praça e já tinha feito a instrução complementar no regimento. Tinha por isso uma maior relação de proximidade com muitos dos outros instruendos.

Era um dos mais determinados no curso. “Uma máquina”, garante Monteiro. “Um dos melhores que aqui estavam”, afiança Tavares. Um camarada que motivava todos. Bruno Borges recorda um momento, ainda antes do início do curso, em que começou a duvidar se era mesmo aquilo que queria. “O Dylan disse-me: ‘Se queres uma coisa é para ir até ao fim. Eu vou. Vamos juntos.’ Segui o conselho dele. Fomos. E depois aconteceu isto...”

Os instruendos já estavam com roupa civil, preparados para sair, quando, inesperadamente, receberam ordem para vestir novamente a farda. Formaram na parada. Desta vez, foi o próprio comandante do Regimento, coronel Dores Moreira, que lhes comunicou oficialmente a notícia. Dylan morreu no hospital à espera de um transplante de fígado. O grupo ficou devastado, diz Wilson Monteiro. “Tentámos apoiar-nos uns aos outros, mas no resto do curso procurámos não falar muito sobre isso. Evitámos as conversas, mas ninguém se esqueceu. É impossível esquecer.”

Os problemas de saúde verificados ao longo dos anos nos cursos de Comandos, nomeadamente vários casos de rabdomiólise, tinham levado o regimento a pedir a colaboração de uma equipa de investigadores da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Trata-se de uma quebra rápida do músculo esquelético devido à lesão no tecido muscular. A destruição do músculo leva à libertação de substâncias lesivas nas células sanguíneas, que podem afetar os rins. É um problema comum, também, ao treino das forças especiais nos Estados Unidos, onde houve dezenas de mortes por este motivo, bem como por golpes de calor, que têm estado em debate nos últimos anos também em países como o Reino Unido e França.

Os investigadores da Universidade do Porto, que já tinham trabalhado noutro estudo com a Escola de Sargentos do Exército, iniciaram um projeto embrionário precisamente no fatídico curso 127. À semelhança dos jornalistas do Expresso, também eles não foram autorizados a estar em Alcochete, mas tiveram dispositivos de medição de parâmetros corporais em dois dos 67 instruendos: um colete capaz de medir movimentos e posição do indivíduo, bem como a frequência cardíaca; e uma cápsula ingerível — que foi concebida para ser usada pelo exército norte-americano — para medir a temperatura interna de cada um. Em ambos foi registado stresse térmico, mas não em valores que pusessem em risco a sua integridade física.

Mortos. Dylan da Silva e Hugo Abreu, os dois militares que morreram durante o curso de Comandos

Mortos. Dylan da Silva e Hugo Abreu, os dois militares que morreram durante o curso de Comandos

tiago miranda

O estudo dos investigadores está ainda em desenvolvimento, mas há já algumas ilações tiradas. A primeira é que o exército está “parado no tempo” no que respeita aos critérios de seleção dos candidatos. “Há indicadores que já podem ser medidos e que podem identificar maior propensão para os indivíduos poderem desenvolver determinadas patologias”, explica Joana Guedes, umas das investigadoras. Uma das recomendações do estudo será, precisamente, o de criar um novo pack de análises para a triagem inicial. Depois, poderá ser também necessário adotar, no futuro, mecanismos mais adequados ao nível da nutrição e hidratação. O próprio comandante do regimento admite isso. Apesar de existir um “reforço para esforços” no caso dos instruendos do curso de Comandos, a refeição base é ainda insuficiente. “A capitação alimentar que é entregue para o almoço é igual para mim e para um militar em instrução. É mais do que evidente que as necessidades alimentares não são as mesmas”, reconhece o coronel Dores Moreira.

O comandante do regimento admite ainda falta de meios de socorro adequados para responder eficazmente a situações como as que aconteceram em Alcochete. “Falta uma ambulância devidamente equipada, apta para responder de imediato às necessidades que se possam levantar. É desadequado pensar, numa unidade desta tipologia, que o 112 deva ser o único apoio”, assume.

Maratona final

“Por esta altura já nem tenho alma, quanto mais físico”, queixa-se Tavares. Já passaram quase 30 quilómetros de um total de 42 de uma marcha, um dos momentos mais emblemáticos mas também mais árduos de todo o curso de Comandos. Aproximamo-nos do final do curso, já a 5 de 
novembro.

Choveu torrencialmente durante o início do exercício, os caminhos acidentados de terra na serra da Carregueira encheram-se de poças de água, o que dificulta ainda mais a marcha. Atrás, o “Orelhas” toca outra vez AC/DC, ‘Back in Black’. Renato segue na cauda do grupo com a cabeça ligada para proteger um olho. Magoou-se há dois dias mas não disse nada, com medo de não ser autorizado a fazer a prova. “Não comuniquei porque senão não estava aqui, estava com os outros na caserna, os que estão lesionados. E eu vim para cá não é para ficar a dever nada a ninguém. Mas a noite passada já nem conseguia abrir os olhos.” A par do cansaço e das noites mal dormidas, as lesões, nomeadamente nos joelhos, são uma constante ao longo do curso de Comandos. Com o medo de serem eliminados, ou para não darem parte fraca, muitos instruendos escondem-nas, agravando-as em alguns casos.

Dos 67 que iniciaram o curso, apenas 23 chegaram à última fase e ao Exercício Operacional de fim de curso. Durante cerca de 10 dias, em novembro, foram confrontados com vários cenários de missões simuladas em que têm de enfrentar um ‘inimigo’ que lhes coloca constantes dificuldades e desafios no terreno, e que este ano passou pelo Alqueva, no Alentejo, pelas serras transmontanas, em Vila Real, e pelo pinhal de Leiria.

A investigação às duas mortes que marcaram o curso 127 continua. O coronel Dores Moreira, comandante do regimento, declara: “Se pretendemos maior exigência na instrução é para que não haja mortes em teatros de operações. E, portanto, uma morte em instrução é uma coisa mais difícil de aceitar.” Se os inquéritos assim o apontarem, “terão de ser revistos procedimentos”. Há muitas perguntas por responder, num processo que está a ser investigado pela Procuradoria-Geral da República: sobre os meios, sobre a assistência médica, sobre o desenho do curso pelo Exército e sobre a sua aplicação concreta pelos instrutores.

Os 23 militares que acabaram o curso deste ano vão agora integrar o batalhão. Dada a falta de efetivos no regimento — há 260 comandos no ativo —, irão participar na segunda rotação da missão na República Centro Africana, prevista para meados do próximo ano. Para trás ficaram os tempos na caserna onde, durante os últimos três meses, viveram no meio de um dos cursos mais polémicos e mediáticos de sempre. E à entrada da qual está recordado, em letras grandes, o grito de guerra dos comandos, adotado de uma tribo bantu do Sul de Angola: “Mama Sumae.” “Aqui estamos, prontos para o sacrifício.”

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 10 de dezembro de 2016

  • “Só nós sabemos o que foi preciso para acabar isto”

    Começaram 67, mas só 23 conseguiram chegar ao fim. Durante três meses todos os dias foram duros, e só num não custou acordar cedo. Num curso marcado pela trágica morte de dois militares, Ruben viveu a sua própria tragédia pessoal: o pai, também ele comando, morreu enquanto ele estava fechado no regimento, a perseguir o mesmo sonho. Decidiu gravar as insígnias na própria pele, como forma de homenagem. O Expresso acompanhou o último dia do polémico curso 127 dos Comandos, e conta-lhe a história de um dos instruendos que conseguiu terminar. Com muita “vontade e sacrifício”