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Daud veio de Mossul ensinar Alfeizerão a gostar de baklava

José carlos Carvalho

Num ano, 36 dos 512 refugiados adultos recebidos por Portugal conseguiram emprego

“Caros amigos, muitíssimo obrigado pelo magnífico livro, que muito apreciei. Com os melhores cumprimentos, António Guterres”. O cartão manuscrito chegou a Alfeizerão esta quinta-feira e no remetente não deixa margem para dúvidas: “2 UN Plaza New York, USA.” Daud al-Anazy é o destinatário do cartão. Iraquiano, refugiado, tem 25 anos, perdeu tudo e é em Alfeizerão que procura novo rumo. Mas, para já, conseguiu o que muitos portugueses não conseguem: emprego, escrever um livro e receber os parabéns do novo secretário-geral das Nações Unidas.

Faz hoje um ano que chegaram a Portugal as primeiras pessoas ao abrigo do Programa de Recolocação de Refugiados. Já foram acolhidas 720, das quais 512 adultos e 208 crianças. Ainda este mês chegam mais 50 pessoas. Chegam cansadas, traumatizadas, sem nada a não ser memórias. Daud é o nome e o rosto de um destes números de que se fazem as estatísticas. Chegou a Lisboa a 17 de dezembro de 2015 e é um dos 36 adultos que conseguiram emprego. Mas Daud não consegue fazer planos para o futuro. O passado toma conta de tudo.

Conversar com ele não é fácil. O idioma é um obstáculo, mas é o olhar perdido num ponto distante o principal entrave. No dia em que recebeu o Expresso na Casa do Pão de Ló, em Alfeizerão, onde trabalha, foi ainda mais difícil tirá-lo do silêncio em que costuma cair: recebera a notícia da morte de um tio no Iraque. Do pai, irmãs e sobrinhos que ficaram em Mossul não sabe nada há cinco meses. Mas confessa: “Apesar de tu-
do, vir foi muito bom para mim.”

Na verdade, quem faz a ligação entre Daud e o novo mundo que o recebeu é Helena Lopes Franco. Começou por ser a professora de português dos refugiados levados para Alfeizerão, ao abrigo de um protocolo com a União das Misericórdias. Dona da Casa do Pão de Ló, continua a ser sua professora mas tornou-se também a sua patroa e hoje são muito mais do que isso, são amigos e coautores do livro que visa dar uma história concreta aos refugiados que chegam a Portugal. “De Mossul a Alfeizerão em 6000 Palavras” é uma edição de autor e conta passo a passo a luta do iraquiano para sair da sua cidade natal e chegar à Europa. Foi esse o livro que encantou António Guterres.

“Os refugiados não passam de números e imagens na televisão. São estatísticas de mortes. Mas quando conhecemos histórias como a de Daud, fazem-nos abalar”, diz Helena. Daud, que já teve um táxi e um café em Mossul, atende às mesas. De aparência latina, com brilhantes olhos azuis, não causa espanto nos clientes até começar a falar. Aí perguntam-lhe: “De onde vem?” Quando descobrem, as reações variam, embora a maioria tenha sido positiva, garante Helena. Houve quem pedisse para aprender árabe e “um senhor da Nazaré comprou o livro e depois trouxe a família para o conhecer”.

Daud recebe um salário de 530 euros. Por isso, deixou de ter direito aos 150 euros mensais, do total de seis mil euros por 18 meses do programa de recolocação. Pode reaver algum deste dinheiro mediante a apresentação de faturas, como fez em relação ao tratamento dos dentes. E vai tentar fazer o mesmo com a carta de condução que está a tirar. O gabinete do ministro-adjunto explica que “nos casos em que o beneficiário mantenha uma relação laboral dentro do período acordado para a integração, igual ou superior ao valor do Rendimento Mínimo Mensal Garantido, o pagamento da prestação deverá cessar e reverter a favor de uma bolsa a ser criada pela entidade de acolhimento que a utilizará em benefício do processo de integração do beneficiário”.

Concluído o programa, “os refugiados têm direito aos apoios sociais existentes, como qualquer cidadão português”. Quanto aos 36 refugiados que conseguiram emprego, apesar de o número poder parecer reduzido, a avaliação da tutela é positiva. “Apesar de os primeiros refugiados terem chegado em dezembro de 2015, só a partir de março de 2016 é que as chegadas começaram a ser mais frequentes”, explica a porta-voz de Eduardo Cabrita.

O jovem iraquiano nada sabe do futuro, apenas que não quer regressar a Mossul. Dorme mal e não consegue responder à dúvida que mais o inquieta: “O que vou fazer quando acabar o programa? Há portugueses a sair do país à procura de emprego...” Entretanto, faz baklavas, doce típico do Médio Oriente, no forno onde se cozinha o pão de ló. E ouve Helena dizer que o nome dela ficaria bem à filha que um dia Daud poderá ter.