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Rankings. O triunfo do campo sobre a cidade

Uma sala de aulas na Escola Básica e Secundária de Vila Cova, em Barcelos, que se destaca num dos indicadores do ranking das escolas de 2016

Rui Duarte Silva

A escola de Vila Cova (Barcelos) lidera o ranking das que mais promovem o sucesso. A aposta nas tecnologias e a proximidade com os professores leva os alunos a chegar mais longe que os pais

Quando há 16 anos Alberto Rodrigues foi convidado a dirigir a Escola Básica e Secundária de Vila Cova, em Barcelos, as médias andavam no fundo das tabelas nacionais. O então professor de Educação Física deste agrupamento localizado a 10 quilómetros de Barcelos, no campo, perguntou aos pais e alunos se queriam estar entre as boas escolas ou as más. Escolheram o lado do pão que tem a manteiga, começando a subir nas listas.

E foi sem espanto que receberam este ano o título de melhor escola pública no índice da promoção do sucesso, com uma diferença de 21,8% em relação à média nacional. Alberto Rodrigues não gosta de falar de estratégias de sucesso numa escola em “cada aluno é um aluno”. Ao todo são 700 e a atitude incutida nos jovens é a de que não se inibam de abordar o diretor e os professores nos corredores.

Na EB2/3 de Vila Cova há mais de 10 anos que a grande aposta gira em torno dos livros. “Um bom leitor é um bom aluno”, diz o diretor, que depressa percebeu que se não fosse a escola a facultá-los poucos teriam um livro à cabeceira.

Num contexto social de baixa escolaridade dos pais (a maioria tem menos do 9º ano), muitas mães são operárias têxteis e os pais empregados na construção civil. Mais de metade dos alunos do básico e do secundário são apoiados pela ação social escolar.

Numa geração virada para as novas tecnologias, Alberto Rodrigues optou por inovar, dotando a biblioteca de e-readers, com capacidade até mil livros, que podem ser requisitados e levados para casa. Portáteis e telemóveis não são proibidos nas aulas. “São a roupagem deles”, admite o professor, contando que o projeto de Escola Virtual já valeu ao agrupamento um prémio de €15 mil da Fundação Calouste Gulbenkian e €20 mil do Montepio, destinados à instalação da Sala do Futuro, que rompe com o modelo tradicional de carteiras alinhadas, em que o professor debita e o aluno ouve - ou não.

Rui Duarte Silva

“As aulas têm de ser interativas e o professor um orientador dos saberes, transmitindo mais do que conteúdos formas de os pesquisarem, hoje a chave da sobrevivência profissional”, afiança Paulo Faria, professor de Português, crítico de salas que não mudam há 200 anos, apesar das renovações da Parque Escolar. “Falta mudar o paradigma, tirar partido dos tablets”, diz, referindo que acaba as aulas com um quiz em suporte digital que lhe permite saber o que os alunos retiveram da matéria.

Fátima Ponte, 16 anos, aluna do 11º, sonha ser profiler criminal, anda a ler “Inferno” de Dan Brown, ao qual acedeu através da rede pinterest da escola, antes de ver o filme nas férias. Pedro Lopes, colega de turma, aprecia na escola a facilidade com que tira dúvidas em rede com os professores e colegas. “São aulas fora da sala”, diz o candidato a engenheiro informático “se tiver médias”, explica o filho de uma operária têxtil e de um trabalhador da construção civil emigrado na Córsega.

Entre a serra e o rio

No agrupamento de Arga e Lima, o segundo público no pódio do índice de promoção do sucesso, 17% acima da média do país, voltou a não surpreender o diretor Agostinho Gomes, acostumado à fama de bons alunos da escola da pacata freguesia de Lanhases, no concelho de Viana de Castelo.

Mais conservador do que o líder da escola de Vila Cova, o professor que trocou o ensino de História pela direção há 27 anos não admite telemóveis nas salas, nem teme as críticas de o seu ensino ser “à moda antiga”. Aos reparos responde com resultados: taxas de retenção muito baixas (de 3% no 10º ano) e 60% dos cerca de 170 alunos do secundário a ingressarem no ensino superior no curso de primeira opção.

Não tem fórmulas mágicas, até porque acredita que “na mesma fornada nem todos os pães saem iguais”, mas reconhece que ajuda conhecer pelo nome boa parte dos alunos e ter um quadro estável de docentes. Outro dos seus lemas incentiva todos os professores a ensinarem português, sejam de Física, Matemática ou Biologia.

Rui Duarte Silva

Dentro dos muros do agrupamento partilham o mesmo recreio 560 alunos, do pré-escolar ao 12º ano, desmentindo “os temores infundados” de pais e avós que não viam com bons olhos o convívio entre miúdos e graúdos. “Respeitar para ser respeitado é a cartilha repetida desde pequeninos”, lembra Agostinho Gomes, orgulhoso dos raros casos de indisciplina numa escola “humanizada, asseada, ajardinada” a dez quilómetros de Ponte de Lima. À volta há a quietude do vale, delimitado pela Serra d' Arga e o rio Lima.

“A ausência de distrações acaba por ser uma vantagem sobre as escolas das cidades”, afiança, embora os mil habitantes de Lanheses, como os das aldeias em redor, vivam longe do paraíso. “O meio é pobre, os casais jovens auferem salários baixos, muitos estão desempregados ou recebem subsídios de reinserção social”, sublinha.

O apoio da autarquia

Para compensar a falta de recursos dos pais, há anos que os mais novos recebem mochilas com livros, incentivam-se os mais velhos a levar livros da biblioteca e a frequentar oficinas de treino de Física e Matemática. Na escola que acolhe alunos de três freguesias próximas, o transporte escolar “é eficaz” e o horário letivo, das 8h30 às 17h, “favorável” à aprendizagem.

“Alguns pais queriam que os filhos ficassem aqui ainda mais tempo, mas nestas idades o convívio familiar é essencial, tal como as atividades extracurriculares”, refere Agostinho Gomes.

A menos de 20 quilómetros da marítima Viana, na EB 2/3 de Agra Lima privilegiam-se os desportos náuticos, com a Câmara a subsidiar o acesso às piscinas das crianças do 1º ciclo, enquanto os alunos do 2º e 3º ciclo praticam sem custos vela, remo ou surf. Visitas de estudo e viagens a Lisboa, Madrid, Paris ou Roma são também estimuladas, pagas com receitas da escola. “É bom incentivá-los a sair do buraco”, conclui o diretor.