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O dinheiro também tem preço

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Usamo-lo todos os dias e nem pensamos 
em tudo o que é preciso para o produzir. Quanto custam os euros que temos 
na carteira e quantos fabricamos todos os anos? Na primavera vai chegar 
uma nova nota da série Europa. Vale €50 
e também é produzida em Portugal

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

(texto)

Jornalista

Rita Isabel Pardal

(infografia)

Infografia

Quanto custa realmente o dinheiro? É uma daquelas perguntas que quase ninguém faz. Ninguém a faz porque a verdade é que de pouco vale aos cidadãos saber quanto custa produzir uma nota ou cunhar uma moeda. Ninguém se questiona porque o valor está definido e não são as matérias-primas utilizadas que o regulamentam. Assim, limitamo-nos a ver o extrato bancário, a fazer contas e a perceber o que conseguimos comprar com o dinheiro que dispomos. No dia a dia, é isso que realmente nos preocupa. No entanto, vale sempre a pena ter uma ideia de como funciona o mundo do dinheiro, quanto custa produzi-lo e quais as decisões tomadas pelos principais bancos centrais no que concerne à moeda. E como a querem tornar cada vez mais segura (apesar do dinheiro digital).

Não é possível saber o valor exato de produção de cada nota de euro, mas sabemos que este é muito inferior ao valor facial do dinheiro que entre nós circula. As novas notas da série Europa — as de cinco, as de €10 e as de €20, às quais se junta a de €50 em abril do próximo ano — são mais caras do que as anteriores. O aumento tem que ver com as características de segurança de última geração, e os custos de produção de uma nota com uma vida útil maior (€0,06 a €0,10 por unidade) são apenas uma parte do investimento. Pode valer a pena, uma vez que se espera que notas mais duráveis compensem a aposta em novos materiais.Nos últimos dois anos, a Valora, S.A. (empresa detida a 100% pelo Banco de Portugal responsável pela produção de notas no país), foi uma das escolhidas a nível europeu para impressão desta nova série. De acordo com o BdP, em 2014 produziram-se 16,6 milhões de notas de €20 da segunda série (assim como 195 milhões da primeira), ao passo que no ano passado diversificámos a produção: dos 132 milhões de notas, 29,2 milhões eram de €20; 80,6 milhões de €5; e 22,3 milhões de €50. Todas da série Europa.

FORA DA EUROZONA

Não são apenas os euros que têm preço marcado. Do lado de lá do Atlântico, o valor de produção de todas as notas é público. A Reserva Federal faz questão de informar os cidadãos americanos, mas serão poucos os que abrem a carteira e se lembram de que o custo de produção de uma nota difere em muito do seu valor real. A discrepância é grande e cresce à medida que avançamos no valor. As notas de 1 e 2 dólares são produzidas por $0,055, com os custos a subirem para os $0,109 nas de 5 dólares. Depois voltam a descer, com as nota de 10 dólares a serem fabricadas por $0,099 e as de 20 e de 50 por $0,106. A de 100, a mais valiosa do sistema americano, é a que envolve custos de produção mais elevados, mas que ainda assim não vão além dos $0,143.

Por terras de sua majestade, a realidade não deverá ser muito diferente, embora o Banco de Inglaterra tenha optado por não revelar o valor unitário de produção das suas notas ou quantas produz. Público é apenas o valor total pago pela produção anual de notas. E isso não nos diz muito sobre como funciona a produção de notas no Reino Unido (RU). Houve uma ligeira abertura com a nova nota de 5 libras — aquela cuja polémica estalou quando se percebeu que o fabrico implicava a utilização de gordura animal. Seguindo as decisões de ex-colónias como a Austrália, a Nova Zelândia e o Canadá, o RU decidiu mudar os materiais usados. Agora a solução passa por uma nota de plástico — que se aplicará também às notas de £10, em circulação no próximo verão, e de £20, com estreia marcada para 2020). São 50% mais caras de produzir, mas também muito mais duráveis — capazes até de sobreviver a uma lavagem na máquina de roupa —, limpas (o polímero repele a sujidade) e seguras (a inclusão de uma parte transparente diminui a possibilidade de contrafação). O Banco de Inglaterra espera poupar 100 milhões de libras (aproximadamente 118 milhões de euros) em impressão na próxima década.

O SECRETISMO DAS MOEDAS

O custo de produção de moedas varia de acordo com a especificação de cada denominação, mas isso não impediria que este fosse público. A Casa da Moeda Real, no RU, explica apenas que “o valor do metal em cada moeda representa uma grande parte do custo total, no entanto também é necessário levar em consideração os custos mais amplos do processo de fabricação”, que “variam de acordo com a complexidade da moeda”. São muitas razões para algo que é comum a todas as Casas da Moeda: o custo exato de “fazer moedas específicas não é revelado pois tal informação poderia ser usada para que a concorrência tomasse vantagem”. Sim, o mundo da produção do dinheiro também é concorrencial e existe alguma competição entre os vários centros de produção. Em causa estão vários fatores e razões, entre eles o facto de haver países que não têm Casa da Moeda própria.

Por cá, o Banco de Portugal dispõe de informação pública sobre as moedas de euro, transpondo o que foi acordado aquando da criação da moeda única. “Os Estados-membros da área do euro são responsáveis pela emissão das moedas de euro, mas cabe ao Banco Central Europeu a aprovação do volume de moedas emitidas”, explica. Quanto à emissão, esta é feita “pelo Estado, através do Ministério das Finanças (Direção-Geral do Tesouro)”, sendo “produzidas pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda e colocadas em circulação pelo Banco de Portugal”. A Casa da Moeda portuguesa trata das parte das moedas.

Do lado dos cidadãos, o valor de emissão das moedas — aproximado ou até superior ao seu valor de mercado em alguns casos — também pode gerar alguma controvérsia, como aconteceu na Irlanda. “Porque gastamos muito mais dinheiro a produzir moedas do que o seu valor real?”, perguntaram os irlandeses ao descobrir quanto custava ao país a produção das moedas mais pequenas. Em outubro do ano passado, o Banco Central da Irlanda quebrou o sigilo para justificar a decisão de abandonar a utilização de moedas mais pequenas. “As moedas de um e dois cêntimos custam mais a produzir do que o seu valor”, revelou, indo mais além e dizendo exatamente quanto custava ao país utilizar essas moedas. Uma moeda de um cêntimo tem um custo de produção unitário e €0,0165 e a de dois cêntimos chega aos €0,194, muito perto do seu valor real. Agora vai olhar para as notas e moedas de outra forma.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 10 de dezembro de 2016