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Morreu a mulher que lutava pela morte assistida

Laura Ferreira dos Santos, professora de Filosofia na Universidade do Minho, foi uma das fundadoras do movimento Direito a Morrer com Dignidade. Faleceu dia 16 de dezembro em casa, como era sua vontade

JOSÉ CARIA

Morreu Laura Ferreira dos Santos, autora do livro “Ajudas-me a morrer?”. Era professora universitária, tinha 57 anos, e foi uma das fundadoras do movimento “Direito de Morrer com Dignidade”

Era uma daquelas pessoas que tinha a coragem de tratar a morte por Tu, de lhe dizer que tinha medo de morrer, mas que estava cansada de tanto sofrer. Tinha 57 anos, e era doente oncológica desde desde 2001.

Foi uma das fundadoras do movimento “Direito a Morrer com Dignidade”. Em fevereiro deste ano disse à Visão que queria morrer em “casa”. A sua vontade foi respeitada. Estava “em sua casa” quando partiu esta sexta-feira, como informa um comunicado do movimento que ajudou a fundar.

“Dedicou grande parte da sua vida cívica e académica à reflexão, investigação e intervenção em torno das problemáticas do fim de vida. Em 2009 publica “Ajudas-me a morrer? A morte assistida na cultura ocidental do século XXI”, edição que constitui uma referência insubstituível na abordagem e estudo da morte assistida, o mais completo e sistematizado trabalho editado por autor português sobre a eutanásia e o suicídio medicamente assistido. Mais tarde, publicou “Testamento Vital, o que é? Como elaborá-lo?”, obra que deu um significativo impulso e um contibuto determinante para, mais tarde, a Assembleia da República aprovar a lei do Testamento Vital”, lê-se no comunicado.

Laura lutou por aquilo em que acreditava

A “14 de novembro de 2015, juntamente com o médico João Ribeiro Santos, entretanto falecido, promove no Porto a reunião que decide constituir o movimento cívico Direito a Morrer com Dignidade, cuja primeira acção é o lançamento do Manifesto pela despenalização da morte assistida, que viria a ser subcrito por 100 figuras públicas e a dar origem à Petição dirigida à Assembleia da República com o mesmo objectivo”. A petição foi assinada por mais de oito mil subscritores, e a discussão do tema está para breve.

Durante muitos anos, falou pelos doentes para quem a vida deixou de fazer sentido. A partir de certa altura, chegou o momento de falar de si própria, usando para isso a rede social Facebook onde foi relatando as enormes dificuldades que sentia no quotidiano, a falta de apoios institucionais, e a dor de sentir as pessoas a afastarem-se.... por terem medo de ser confrontadas com o aproximar da morte.

À Visão contou: “Tive um cancro da mama em 2001, uma recidiva em 2007 e desde 2011 que tenho metástases ósseas. Há pouco tempo apareceu-me uma grande metástase na coluna, que aumentou muito e me dá dores permanentes e insuportáveis. Fui operada para tentar atenuar estas dores terríveis, mas não resultou. Nada parece resultar. Ainda não sou uma doente terminal, mas começo a chegar ao momento em já não sei se vale a pena lutar e passar por tanto sofrimento. Não sei com que sequelas vou ficar quando terminar mais um ciclo de radioterapia, se vou poder sair à rua, guiar um automóvel… Se ficar como estava, não há drogas que funcionem. Os medicamentos não fazem nada, ou melhor, só me fazem mal. Os que podem funcionar deixam-me zombie, drogada de tal forma que não consigo ler nem escrever. Assim, esta não é a minha vida. Assim, não me faz sentido, por muito que eu goste do meu marido e dos meus sobrinhos. Simplesmente, não me faz sentido. Só peço o direito a não morrer aos bocadinhos.”

O movimento que ajudou a fundar em defesa da morte assisitda lembra a sua “dedicação, generosidade e humanidade”, valores que diz serem partilhados por “todos aqueles que, tal como a Laura, se batem pela tolerância perante a diferença e o respeito pela autodeterminação e os direitos humanos”.

Era licenciada em Filosofia pela Universidade Católica e doutorada em Filosofia da Educação pela Universidade do Minho, onde lecionava como professora associada.

No mural de facebook da sua amiga Ana lê-se que há uma missa às 14h30 na Igreja de S. Vítor em Braga.