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Pedro foi “Daqui Ali” a pedalar até à Boa Esperança. Ao fim e ao Cabo

D.R.

Pedro Moreira pedalou quase mil horas, ao longo de 22 países, entre Portugal e África do Sul. Uma odisseia, recheada de peripécias, descrita no livro “Daqui Ali – De Portugal à África do Sul de Bicicleta”. O Expresso foi conhecer este argonauta da nave a pedal

Em dias que se perderam, quem nunca disse: “mãe, vou daqui ali de bicicleta e já venho”? Foi isso que António Pedro Moreira fez. No entanto, a noção de lonjura pode ser bastante variável. Pedro foi só “Daqui Ali” e pedalou até à África do Sul. Ao fim e ao Cabo. Não se considera especial. “Sou apenas um ‘man’ de carne e osso”, conta ao Expresso este psicólogo e escritor, de 32 anos, residente em Vale de Cambra e cidadão do mundo. O livro que narra a história da sua aventura no continente africano será lançado no dia 17 de dezembro e já se encontra disponível para compra online.

Durante uma viagem à Índia, surgiu a vontade de deambular pelo mundo e conquistar um império de experiências inacreditáveis. Do Oriente trouxe a certeza de que a sua vida iria mudar e lá deixou também ficar alguma coisa muito bem escondida. Mas a isso lá chegaremos, porque “sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”, escreveu José Saramago n’ “A Viagem do Elefante”. Prepare-se. Esta será uma viagem sinuosa. Cheia de tormentas e adamastores pessoais, rumo à Boa Esperança.

Recuemos até 2009, ano em que Pedro Moreira trabalhava em Inglaterra como psicólogo, onde auferia um ordenado que rondava os dois mil euros. Tinha aquilo que muitos consideram ser uma vida estável. “Mas não era aquela cena” que o fazia sentir-se realizado, explica Pedro, sempre num registo descontraído, porque essa é a única forma que conhece para estar na vida.

O alívio que um libertário sentiu por estar preso

Pouco tempo depois de regressar da Índia, em 2009, Pedro contou à família e à namorada que pretendia dar um novo rumo à sua vida: viajar à boleia desde Vale de Cambra até à Ásia. “Após eu ter comunicado a minha intenção, eles não levaram a sério inicialmente, especialmente o meu pai, que me questionava frequentemente: ‘não estás a pensar fazer aquela viagem, pois não?”, conta Pedro Moreira, para quem essa dúvida já não se colocava.

Essa era, para ele, a decisão certa e inevitável, apesar de saber que podia correr mal. “Eu não quero ser uma dessas pessoas que nunca chegam a lutar pelos seus sonhos. Eu não quero ser assim. Quero ter uma filosofia de vida e vivê-la”, assevera o viajante. E assim começou, em janeiro de 2011, o périplo de Pedro Moreira na rota do Oriente.

Na Europa passou por Portugal, Espanha, França, Itália, Eslovénia, Croácia, Sérvia, Macedónia, Grécia. A Turquia foi a ponte para o continente asiático. Seguiram-se Líbano, Síria, Iraque, Irão, Paquistão, Índia, Nepal, Tailândia, Malásia, Singapura, Camboja, Vietname, Laos, China e Mongólia. “Nunca pedia dinheiro. Pedia sempre coisas que não fossem implicar uma perda para a outra pessoa. Comida e guarida, essencialmente”, assegura Pedro.

Pelo meio, foram muitos os episódios caricatos. Desde logo no Irão, onde se encontrava praticamente sem dinheiro – nessa altura aceitou 10 dólares que lhe foram oferecidos – e onde descobriu que a linguagem gestual não é assim tão universal. “Explicaram-me que o gesto que nós utilizamos para pedir boleia, no Irão significa algo bem diferente. Qualquer coisa como ‘mete-o no cu’. Assim que me explicaram isso, eu deixei de o fazer”, conta entre risos.

Durante a sua jornada de nove meses e meio, houve um momento em que, pela primeira vez, pensou que ia morrer. Tudo aconteceu na remota República Democrática do Laos, quando se viu fechado numa cela minúscula com mais vinte homens. Como lá foi parar? Não se lembra. Tinha estado numa festa, na qual apenas se recorda de estar um “bocadinho lançado” e de ter “curtido imenso” numa boia pelo rio abaixo.

Pedro estava, subitamente, confinado a um espaço minúsculo, semelhante a uma cave, com as janelas tapadas com madeira e uma sanita partida, que fazia com que a urina se espalhasse por todo o pavimento. “Julguei que tinha sido raptado”, pensou na altura. Na cela ao lado, uma mulher não parava de gritar. O cenário era desolador. “Sentei-me, chorei e só pensei que ia morrer, com 27 anos, raptado no Laos”, confessa.

Começou a lembrar-se de alguns filmes e a elaborar um plano de fuga. Na sua cabeça, no meio daqueles vinte reclusos, havia um “inside man”, que alegadamente passava informações aos captores. “Na minha mente eu via ali gajos maus e gajos bons”, explicou.

Com medo de morrer e com vontade de ajudar os outros reclusos, a forma que Pedro encontrou para sair daquela situação foi começar a pontapear o suposto infiltrado, enquanto gritava para os restantes: “Revolution! Revolution! We can do it together!” Para seu espanto, ninguém se juntou ao motim. “Só pensei, estes aqui já desistiram todos. Não vai dar!”

Foi nessa altura que um guarda se aproximou para verificar a situação e explicou a Pedro que tinha sido detido e que estava na prisão. “Senti-me mesmo aliviado por estar na prisão. Fiquei lá duas noites e depois saí.”

Em busca da boa esperança

Em 2014 foi tempo para Pedro Moreira partir em busca de uma nova aventura: pedalar até à Cidade do Cabo, uma viagem de quase mil horas agora contada no livro “Daqui Ali: De Portugal à África do Sul de Bicicleta”.

Durante a viagem atravessou vários países: Marrocos, Mauritânia, Senegal, Gâmbia, Guiné-Bissau, Guiné-Conacri, Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim, Gana, Togo, Benim, Nigéria, Gabão, República do Congo, República Democrática do Congo, Angola, Namíbia e, por fim, África do Sul.

De África guarda boas memórias das pessoas. Frequentemente pedia direções aos habitantes locais e estes, mesmo quando não sabiam, indicavam-lhe o caminho. Ainda que fosse o errado. “Uma vez, só para experimentar perguntei como se ia para Vale de Cambra e o senhor, cheio de boa vontade, apontou-me a direção”, conta Pedro, sempre bem-humorado e de bem com a vida.

Não tão positivas foram os encontros com a polícia, que frequentemente o confundiam com um terrorista ou o retinham simplesmente para extorquir dinheiro. Na Nigéria viu-se nessa situação 23 vezes. Encontrar um gorila, a menos de cinco metros de distância, também não foi de todo agradável, mas a experiência mais intensa ocorreu junto de uma tribo no Gabão. Nesse país teve a oportunidade de servir como xamã num ritual que o levou, pela segunda vez, a sentir a morte bem perto.

“Havia lá uma raiz que o pessoal comia, que eles chamavam de ‘madeira sagrada’. E o chefe explicou-me que toda a gente iria comer daquilo, mas ele comia mais para ter umas visões sagradas”, explicou Pedro que, no entanto, disse ao líder da comunidade que também gostava de aceder a essas visões-ficções.

“Dá-me mais um bocado”, pediu, nunca pensando que rapidamente se iria tornar ele próprio no mestre-de-cerimónias. As alucinações atormentaram-no durante catorze horas, onde diz ter sentido, muito provavelmente, um desespero muito semelhante ao de um suicida. “Aquela é uma experiência que coloca os nossos maiores medos à nossa frente e não a recomendo a alguém sem um grande arcaboiço psicológico”, salientou Pedro Moreira.

Mas nem tudo foi duro. Em Angola permaneceu durante um mês, em que gastou apenas dez euros e onde garante ter sido muito bem tratado. Por fim, chegou à Cidade do Cabo, onde desfrutou da sua conquista durante uma semana. “Senti que venci os meus pequenos adamastores”, afirma, com as palavras possíveis para traduzir algo tão grande e exaustivo.

Plano B

Lembram-se de no início do texto ter sido referido que Pedro deixou alguma coisa muito bem escondida no Oriente? Pois bem, depois de ter regressado da sua viagem à África do Sul, convenceu a namorada a viajar com ele até ao Camboja. Desta vez, de avião.

Em 2011, aquando da sua viagem à boleia pela Ásia, Pedro Moreira decidiu deixar um anel escondido num conjunto de templos que visitou no referido país. A intenção era regressar lá mais tarde e naquele local pedir a companheira em casamento. “Passei lá três dias à procura do anel, enquanto íamos visitando os templos, até que percebi que não ia encontrar. Arranjei um plano B: um anel daqueles de um euro”.

Graciete, assim se chama a mulher que prendeu o coração de Pedro, aceitou imediatamente aquela proposta improvisada. “Quando gostamos de alguém isso também passar por dar histórias bonitas a essa pessoa”, considera Pedro Moreira, casado desde julho deste ano.

O próximo destino ainda não é oficial, mas existe a vontade de conhecer alguns países da Ásia Central. Uma coisa é certa: Pedro continuará, sempre, a ir daqui ali. Com maiores ou menores dificuldades.