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Urgência, dores e “burnout” no Hospital de S. José

Este é o caso de um homem de 55 anos que passou cinco dias numa maca na área de Neurociências do Hospital de S. José sem receber a visita de um médico, que esperou 12 dias para fazer uma ressonância magnética e 16 dias para ser operado a duas hérnias discais. Passou 20 dias internado. O caso foi objeto de uma queixa à Entidade Reguladora da Saúde

Paula Torres de Carvalho

“Ouça, porque não vai para casa?”, pergunta o médico.

“Como diz?” responde o homem, incrédulo, estendido na maca, a mesma onde o deitaram quando deu entrada no serviço de urgência, transportado pelo INEM, há 14 horas. Causa: perda da marcha, fortes dores lombares e na perna direita que levantam a hipótese do agravamento de uma hérnia discal.

“Não percebo o que está aqui a fazer…devia ir para casa. Fica sujeito a apanhar uma infeção hospitalar…”,prossegue o médico.

“O que estou aqui a fazer?” geme o homem, 55 anos, lisboeta, professor de português. “Vim da urgência, estou cheio de dores, não consigo andar”, explica.

“Mas podia fazer uma terapêutica em casa”, insiste o clínico.

“Já fiz, não melhorei, só agravou. Pode ser que tenha de ser operado”

“Operado?” Responde num tom escandalizado. “Não compreendo quem lhe meteu essa ideia na cabeça. Há muito doentes à frente, com tumores…”

Era o diálogo a que se assistia na Unidade de Observação de Neurociências do Hospital de S. José, em Lisboa, na noite de 1 de novembro de 2016.

Este é um caso de urgência, dores e “burnout” num hospital central de uma cidade europeia, no final do ano de 2016. Um caso semelhante a muitos outros que se verificam hoje em vários estabelecimentos hospitalares portugueses, como indicam os relatos que, cada vez mais, enchem os livros de reclamações e chegam à Entidade Reguladora da Saúde (ERS).

Um longo “calvário” de experiências dolorosas antecedeu o internamento do protagonista desta história. É verdade que não tinha possibilidades de recorrer ao privado mas, sobretudo, ele continuava a confiar na qualidade do Serviço Nacional de Saúde, apesar das mudanças dos últimos anos que o têm delapidado de recursos. “Nos casos mais graves, é melhor o público” – acreditava.

E foi por isso que, quando os analgésicos deixaram de fazer efeito e as dores se agravaram, mal o deixando levantar-se, rumou para a urgência do Hospital de Santa Maria, meio deitado no carro que o transportou. Aplicaram-lhe medicação injetável mais forte, com indicações para voltar mais tarde para uma consulta. Nos dias que se seguiram, em vez de melhorar, piorou. Dores insuportáveis não o deixavam caminhar, pelo que decidiu chamar o médico a casa que lhe receitou outra medicação ainda mais forte.

Quarenta e oito horas depois, incapaz de se levantar, resolveu chamar o INEM que o transportou para S. José sem hipóteses de escolha.

Esperava, portanto, em vão, há dez dias, que a crise passasse quando deu entrada na urgência.

Atribuem-lhe a pulseira amarela, mas a maca é colocada na sala dos verdes porque não há lugar. Muitas outras macas em fila enchem os corredores ao longo de horas de espera.

Depois de passar por ortopedia, de mais medicação e de um RX que “não mostra nada de especial,”, é a vez de chamar o neurocirurgião que decide colocá-lo em observação, em Neurociências.

Catorze horas após o internamento, na mesma maca, o médico a perguntar:

“Ouça, porque não vai para casa?”

“Qual é o seu nome?”, pergunta o homem, a custo.

Ele aponta para o cartão colocado à altura do peito, convidando-o a ler.

“Se me dão alta, quero todos os meus exames, todos os registos”, afirma, impaciente.

A noite avança, as dores aumentam, os acompanhantes têm de sair.

Como “colegas” de quarto, tem duas senhoras que observam em silêncio a forma como uma enfermeira claramente em início de carreira se dirige a uma senhora aflita, com idade de ser sua avó. “Você, o que é que sabe?”, referindo-se à situação do marido que dera entrada após um AVC .

A muito se assiste enquanto acompanhante de um “utente”, durante horas e horas de espera.

No corredor, justificando ao familiar de um doente a brusquidão com que um médico o tratara, um responsável desculpa-o, ajeitando a gola por baixo da longa bata branca.: “Sofre de ‘burnout’ .

“De quê? Sofre de quê?” pergunta o jovem, desconhecendo o significado da palavra que entrou na moda e que se refere ao estado de esgotamento físico e emocional ligado à atividade profissional. “Eu digo-lhe do que é que ele sofre, eu digo-lhe”, responde irritado.

Mas o clínico tenta ser pedagógico. “Os médicos estão muito sobrecarregados, trabalham horas demais, ganham pouco, estão exaustos, é isso, é isso o “burnout” está a ver?

“Eu quero que se lixe o “burnout”, grita, “quero é que tratem do meu pai”.

No quarto da área de Neurociências o professor recebe finalmente a informação de que o médico afinal não lhe deu alta. Bom sinal. Vão tratar das dores que tanto o afligem. Mas nos cinco dias que se seguem, ele permanece na mesma maca, não recebe a visita de nenhum médico, continua sem informação, sem perceber porque não lhe fazem uma ressonância magnética – o exame indicado para esclarecer o estado em que se encontra – e com dores que continuam a atormentá-lo, apesar da medicação.

Ao 12.º dia, é enfim realizada uma ressonância magnética que revela duas hérnias discais “gigantescas”, como depois lhe explica um neurocirurgião. Transferido para o serviço de neurocirurgia, ao 16.º dia é submetido à “impossível” cirurgia, hoje considerada banal. A falta de anestesistas impossibilitara a intervenção antes, informam.

Vinte dias depois de uma cirurgia hoje considerada banal, volta para casa. Anda de canadianas e tem esperança que a fisioterapia lhe devolva a autonomia de antes para poder continuar a dar aulas.

Este é o caso que deu origem à queixa número 57878 apresentada à Entidade Reguladora da Saúde, em protesto pela clara violação do direito do utente de acesso em tempo útil aos cuidados de saúde de que necessitava.