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Metade dos jornalistas portugueses são precários

José Carlos Carvalho

Às condições de precariedade somam-se as “baixas expectativas em relação ao seu trabalho”. Os dados fazem parte de uma investigação sobre autorregulação profissional do jornalismo

Metade dos jornalistas em Portugal tem um contrato de trabalho precário e 72% acredita que dificilmente encontraria novo emprego no setor, conclui um inquérito realizado para uma tese de doutoramento na Universidade de Coimbra.

O inquérito, com uma amostra representativa composta por 806 jornalistas e realizado em 2015, faz um retrato de uma profissão “sujeita a condições bastante precárias” e com “baixas expectativas em relação ao seu trabalho”, afirmou à agência Lusa o investigador responsável pelo estudo, João Miranda, que realiza uma tese de doutoramento na Universidade de Coimbra (UC) sobre a autorregulação profissional do jornalismo.

Metade dos jornalistas tem um contrato de trabalho “próximo de lógicas de precariedade”, sendo que 25% dos inquiridos trabalha em regime de prestação de serviços com recibo verde, 12% apresenta contrato a termo certo e 9,2% a termo incerto, havendo ainda uma percentagem residual de jornalistas em estágio profissional ou curricular, referiu o investigador.

Mais de metade (55%) afirma que a sua situação laboral afeta o desempenho do seu trabalho, sendo “sobretudo entre prestadores de serviços que estão a recibo verde que mais existe concordância” com esta ideia, sublinhou João Miranda.

De acordo com o estudo a que a agência Lusa teve acesso, 72,8% dos inquiridos acha que dificilmente encontraria um novo emprego na área, sendo que quase um terço já esteve numa situação de despedimento num órgão de comunicação social.

Mais de 40% dos jornalistas auferem um vencimento bruto entre 506 e 1000 euros, 7,3% referiu receber abaixo do salário mínimo nacional e apenas um quarto diz receber mais de 1.500 euros brutos por mês.

Quase um quarto dos inquiridos diz desenvolver outra atividade profissional que não o jornalismo e 23,5% afirma desenvolver “atividade jornalística noutro órgão de comunicação exterior à empresa com quem detém o vínculo principal”.

O inquérito constata que dos jornalistas que dizem ver os seus trabalhos publicados ou difundidos noutros órgãos da empresa onde trabalha (cerca de metade), quase a totalidade (90,8%) afirma não receber mais por isso.

Também quando se trata de desempenhar outras tarefas, nomeadamente fazer fotografias ou artigos para a edição digital do órgão de comunicação, 86% dos inquiridos não recebe qualquer suplemento por essa atividade adicional.

Cerca de 40% já realizou um estágio profissional ou extracurricular não remunerado, apontando como principais razões para o fazer a “expectativa de integrar os quadros do órgão de comunicação” ou a possibilidade de “adquirir experiência profissional”.

A esmagadora maioria concorda quer com a obrigatoriedade de detenção de um título profissional (90%) quer com a exigência de um estágio obrigatório (84%).

O inquérito, com 90 perguntas, foi realizado no âmbito da tese de doutoramento de João Miranda, na Universidade de Coimbra, onde o investigador analisa o contexto da autorregulação profissional do jornalismo em Portugal.

Os resultados do inquérito são apresentados hoje, na Faculdade de Letras, às 16h, num debate intitulado “Relatos de uma profissão indefinida. Resultados de um inquérito aos jornalistas”.

O inquérito foi aplicado via ‘online’ entre os contactos detidos pela Comissão da Carteira, a titulares de carteira profissional de jornalista, título provisório ou cartão de equiparado.