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Humor e redes sociais: não se pode brincar com coisas sérias?

luís barra

É uma discussão recorrente na era das redes sociais – os humoristas fazem piadas com temas mais ou menos sensíveis, os internautas indignam-se. Conversámos com quem faz rir em Portugal para saber quando é que uma piada passa a ser coisa séria

Na era das redes sociais, não é difícil iniciar uma polémica – bastam uns escassos ingredientes, como uma troca de respostas entre figuras públicas, para gerar comentários, respostas e indignações. E foi uma espécie de polémica a que se iniciou esta semana depois de Ricardo Araújo Pereira, que tem sido presença frequente na imprensa enquanto promove o seu novo livro, ter concedido uma entrevista ao “i” em que contava um episódio que lhe foi relatado por uma pessoa próxima, sobre dois amigos que entraram num bar e pediram dois gins tónicos.

O que se seguiu foi um diálogo em que o empregado do bar deixou um aviso inesperado: não tinha copos de balão e outras “paneleirices” para enfeitar o gin tónico, apenas copos altos sem mais adornos. O homem que pedira o gin respondeu então, conforme cita Ricardo Araújo Pereira: “Fico ofendido que diga paneleirices, que eu sou paneleiro e isso ofende-me”. E questiona o comediante nesta entrevista: já não se poderá porventura fazer piadas com “paneleirices” – e será que a palavra, usada naquele contexto, pretendia de facto dirigir-se aos homossexuais?

As questões deixadas pelo eterno gato fedorento não ficaram sem resposta – no blogue “Jugular”, que conta com autores como a jornalista Fernanda Câncio ou o deputado João Galamba, Paulo Côrte-Real, ativista pelos direitos LGBT, escreveu um post em que se identificava como o tal homem que pediu a bebida e se indignou com a resposta do empregado. “Sempre que oiço falar em paneleirices, acho que é sobre mim. Ou mesmo em 'mariconços'. Sabes porquê? Foi de ouvir tantas e tantas vezes palavras como estas, ao longo da vida toda (…) Sim, ouvi as piadas diárias de pessoas que infelizmente não são humoristas, as piadas sistemáticas de pessoas que até são humoristas mas não particularmente inteligentes ou sensíveis ou empáticas ou capazes de compreender o mundo em que vivem - e não te estou a incluir nesta lista”, explica Côrte-Real na publicação expressamente dirigida a Araújo Pereira.

Contamos-lhe esta história não para falar sobre o gin que foi bebido em copo alto ou sobre a polémica que daí se iniciou, mas antes sobre a discussão que mais uma vez volta às redes sociais sobre um tema recorrente – o dos limites do humor, se é que eles existem.

Ao Expresso, Côrte-Real explica que o que está em causa neste debate sobre “o peso das palavras” é uma “necessidade de sensibilizar para que as escolhas sejam mais conscientes – para as pessoas e os humoristas”. Neste caso, e falando sobre a discriminação de homossexuais, Paulo Côrte-Real enfatiza que o problema no caso das minorias é que “estamos a falar de pessoas que sempre tiveram muito pouca voz, e quebrar esse silêncio é o que está a começar a ser feito”.

Por isso, e lembrando que Ricardo Araújo Pereira é precisamente um humorista que merece “admiração” e até elogios por prestações passadas – nomeadamente na apresentação anual dos Prémios Arco-Íris pela luta contra a homofobia – Côrte-Real sublinha que há, no meio desse ódio e desses insultos, um papel que cabe a pessoas como Ricardo Araújo Pereira: “Incorporar uma visão crítica sobre a desigualdade no humor e mudar o foco, das pessoas discriminadas para as que discriminam.” No blogue, acrescenta um desejo: “(…) Que os humoristas façam humor inteligente usando os sistemas de poder que temos e invertendo-os, como tu já soubeste fazer tantas vezes.”

luís barra

Ao Expresso, Ricardo Araújo Pereira esclarece que na sua opinião existem limites para o humor – “os mesmos da liberdade de expressão, ressalvando que a linguagem humorística tem características específicas e, portanto, há coisas que se podem dizer num contexto humorístico e seriam inadmissíveis noutro tipo de contexto”. O problema, defende o humorista, poderá estar na interpretação que as pessoas fazem das piadas que ouvem: “Infelizmente, hoje há uma inclinação para a literalidade que tem tendência para tornar toda a comunicação praticamente impossível.”

100 ameaças de morte por causa de uma piada

Não há dúvidas de que o humor sempre foi uma coisa controversa, mas se nesta conversa a polémica se desfaz com calma e até alguns elogios, a verdade é que desde que o Facebook – que Ricardo Araújo Pereira não tem - se tornou uma das principais ferramentas de contacto entre os humoristas e o seu público, as dúvidas acumulam-se: qual será a medida certa para a indignação gerada por uma piada? Se essa piada for ofensiva, gozar com uma tragédia, chocar minorias e fazer pouco das crenças dos outros, há razões para a denunciar e bloquear nas redes sociais?

luís coelho

“Não me venham dizer que um humorista que recebe 100 ameaças de morte por causa de uma piada é um humorista livre.” Quem o diz é Rui Sinel de Cordes, um dos principais nomes do humor negro em Portugal, que este verão decidiu abandonar o que definiu como o “manicómio do Facebook” por causa de uma avalancha de críticas motivadas por uma piada sua que envolvia homossexuais e a tragédia de Orlando, na Florida, onde em junho passado um homem entrou num bar frequentado por homossexuais e começou a disparar indiscriminadamente, matando 49 pessoas.

No longo texto que publicou, primeiro no Facebook e depois no seu site oficial, o humorista justificava a decisão: “Eu criei as minhas redes sociais para estar perto das pessoas que gostam do meu humor. (...) Olho hoje para isto e percebo que perco mais tempo com pessoas motivadas pelo ódio do que com as que me apetecia realmente interagir.” Enumerando as sucessivas polémicas que o foram envolvendo nesta “ferramenta mais pidesca do que a PIDE”, o humorista rematava: “O que eu quero dizer a estas baratas digitais é que com estas regras, eu não quero brincar. Neste lodo, eu não vou brincar mais. Eu saí do manicómio.”

A notícia do abandono de Rui Sinel de Cordes das redes sociais não será uma novidade absoluta para quem segue o humorista, uma vez que as suas publicações têm criado desconforto entre os internautas e até ultrapassado a barreira do ecrã do computador para tomar proporções mais sérias. Para o humorista que, numa referência à liberdade de expressão, montou o espetáculo “Je Suis Cordes”, já foi mesmo criada uma página no Facebook batizada “Fui banido pelo Rui Sinel de Cordes em nome da liberdade de expressão”.

A batalha já é antiga e tende a repetir-se: Rui Sinel de Cordes faz uma piada sobre temas como a pedofilia, o machismo ou a homofobia, a internet explode e denuncia a sua página, ele replica bloqueando utilizadores que o insultam. Fora do mundo virtual, as polémicas ganham novo eco: aconteceu há meses, quando o humorista escreveu no Facebook sobre os famosos que têm “cancro VIP” (“Tumores anónimos? Biópsias que não passam por gabinetes de imprensa? Metástases que nem à capa do CM chegam? Não, nós não temos nada disso. Nós nem sequer temos Cancro. Nós temos Cancro VIP”, podia ler-se) e a notícia chegou aos jornais e a programas de comentário televisivo, causando reações negativas, como a de Cláudio Ramos: “Humor é outra coisa diferente. E simplesmente o que tu queres é isto, é que eu esteja aqui a falar de ti, que estejamos aqui a falar de ti. Que a imprensa dê destaque à porcaria que tu escreveste. Isso é uma coisa rasteira.”

“Anda tudo ofendido por tudo e por nada”

“Hoje em dia, em que as pessoas se ofendem até com alguém que disse 'bom dia' já depois do meio-dia, parece que é cada vez mais complicado fazer humor seja com que assunto for”, defende ao Expresso Diogo Faro - mais conhecido como Sensivelmente Idiota no Facebook, onde conta com mais de 100 mil seguidores e onde denuncia: “O Pinto da Costa fez uma queixa à ERC por causa de piadas do Luís Franco-Bastos. O Correio da Manhã vai processar toda a gente que 'afirmou e propagou falsidades' sobre este. Anda tudo ofendido por tudo e por nada.” A mesma perceção é transmitida por Ricardo Araújo Pereira: “ Todos os temas são sensíveis para as pessoas a quem esses temas são caros. A religião é um tema sensível para os crentes, a política é um tema sensível para os militantes, a Madonna é um tema sensível para os seus fãs.”

Adepto de um humor menos negro do que o de Cordes, quando o tiroteio de Orlando aconteceu, Diogo Faro escreveu no Facebook: “A culpa também é vossa. De cada vez que não quiseram que os homossexuais se pudessem casar, por cada comentário violento contra os homossexuais poderem adotar, (...) também estavam a contribuir um bocadinho para a carnificina de Orlando.”

Já não é a primeira vez que usa as redes sociais e a visibilidade que em poucos anos conquistou para deixar mensagens que pouca ou nenhuma graça têm, mas Diogo Faro nega que todos os humoristas devam assumir essa responsabilidade: “Nenhum comediante tem o dever de expressar as suas reais opiniões através das suas piadas. Há quem o faça e quem não o faça, e são posições igualmente legítimas de se estar no humor.”

Único limite é o sentido de humor?

Paulo Almeida, que no Facebook soma quase 20 mil seguidores e nos palcos apresenta um espetáculo chamado “Ofensivo”, explica ao Expresso que "as pessoas se esquecem de ler a designação 'comediante'" que aparece ao lado do seu nome. "O único limite que eu tenho é o do meu sentido de humor. Eu nunca faço uma piada para chocar, faço-a porque acredito genuinamente que encontrei um ângulo com piada para falar naquele assunto", explica o humorista, garantindo que a maior parte dos ataques que lhe chegam se devem a "tudo o que meta feministas".

Num aspeto, todos concordam - sejam adeptos de um humor mais ou menos negro, façam piadas sobre feminismo ou com o Holocausto: as redes sociais exacerbam reações e levam a exageros que não teriam lugar na vida real, sem o teclado como intermediário (no texto de despedida, Rui Sinel de Cordes recorda o caso recente em que Nuno Markl foi insultado nas redes sociais por causa de uma entrevista que fizera há seis anos a José Cid e que voltou a circular no Facebook - O Markl não é meu amigo e faz um humor que está nos antípodas do meu, mas que eu me cubra de vergonha quando um dia um humorista for atacado e eu não lhe estender a mão para o ajudar").

"A maioria das pessoas transfigura-se nas redes sociais. É inacreditável a facilidade com que as pessoas conseguem soltar insultos grotescos ou ameaças de violência ou até de morte. Felizmente, acho que não chega a 1% a quantidade de pessoas que era capaz de ter este tipo de comentário cara a cara", explica Diogo Faro, que diariamente recebe comentários com trocadilhos sobre o nome artístico que escolheu ("és mais o moralista idiota" ou "a cada texto confirmas que és só idiota" são alguns dos mais recentes).

A pipoca mais doce, versão autocensurada

Ana Garcia Martins pode identificar-se como blogger e não como comediante, mas quem a segue sabe que o humor corrosivo é uma das qualidades que lhe permitem fazer do blogue profissão. O lado sarcástico continua bem presente no maior blogue português, mas a autora de A Pipoca Mais Doce admite que 13 anos depois de ter começado a publicar os seus pensamentos para a internet ver, já consegue "antecipar os temas, as frases e até as palavras que vão gerar polémica ou causar indignação". "Penso dez vezes antes de publicar o que quer que seja, revejo os textos até à ínfima, porque sei que haverá sempre alguém a procurar alguma coisa com que se indignar, mesmo nas coisas mais inócuas. Claro que isto é um exercício muito cansativo para quem vive da criatividade, mas prefiro isso a virar a polémica do dia no Facebook".

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"Aligeirar a forma de escrever" tornou-se uma escolha consciente depois de polémicas como a que envolveu a blogger em 2013, quando na habitual publicação em que comentava os visuais de quem se apresentava na passadeira vermelha dos Óscares criticou as roupas de uma portuguesa desconhecida. "Calhou essa pessoa ter cancro. Como é óbvio, não fazia a mínima ideia, nem tinha como saber. Claro que fui imediatamente crucificada nas redes sociais. A leitura que se fez foi de que eu era uma pessoa horrível e que tinha gozado, deliberadamente, com uma pessoa que estava a sofrer de uma doença oncológica. Na altura desejaram que eu tivesse cancro, que o meu filho que estava para nascer tivesse cancro, que a minha família toda morresse com cancro.”

"Curiosamente, fiz uma ação solidária na qual angariei 75 mil euros para a ala pediátrica do Instituto Português de Oncologia, algo que nunca nenhum blogger tinha feito. Mas claro que isso já não suscitou nem metade do interesse", relata Ana Garcia Martins, assegurando que em treze anos de blogue nunca foi abordada na rua com as mesmas críticas: "As pessoas assumem que estar atrás de um ecrã lhes confere total impunidade, sentem-se no direito de proferir as maiores alarvidades. Se as pessoas fizessem o simples exercício de se perguntar: 'eu teria coragem de dizer isto a alguém se estivéssemos frente a frente?', rapidamente concluíram que não e então também não o escreveriam nas redes sociais".

A blogger, que faz questão de identificar algumas das publicações que faz em tom sarcástico para evitar revoltas, acrescenta que "nas redes sociais as pessoas reagem de forma completamente impulsiva e extremada. São agressivas, violentas, mesquinhas, revelam o pior lado da espécie humana". Uma dificuldade acrescida para quem sempre teve o humor como uma das principais armas - e se estreou este ano na stand-up comedy. "Se um humorista estiver sempre a pensar que não pode fazer determinada piada porque poderá atingir esta ou aquela pessoa, então terá de se dedicar a outra coisa, porque haverá sempre alguém a sentir-se melindrado ou ofendido, independentemente do conteúdo da piada. Infelizmente, hoje em dia ser humorista é quase uma profissão de alto risco, sobretudo se decidir enveredar por um estilo mais negro e que aborde temas mais sensíveis".