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“Projetámos um centro pós-catástrofe que pode ser montado pela população”

VENCEDORES Cláudia Franco e Frederico Martinho, vencedores do concurso “C.A.S.A. (Centro de Apoio Social e Administrativo) em cenário pós-catástrofe”

d.r.

O concurso da Área Metropolitana de Lisboa (AML) e da Ordem dos Arquitetos, a que concorreram 15 projetos, convidava os arquitetos a darem uma resposta, num cenário de pós-catástrofe na AML (sismo, inundações, etc.), “às condições de crescente vulnerabilidade social e física que conduzem, numa perspetiva global, à necessidade de pensar a emergência e soluções arquitetónicas de apoio às comunidades afetadas”

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Uma ideia original, “com grande versatilidade para as colinas e os possíveis condicionamentos topográficos, e processo de montagem pouco complexo e acessível a mão de obra não especializada”. É assim que o júri do concurso “C.A.S.A. (Centro de Apoio Social e Administrativo) em cenário pós-catástrofe” justifica a escolha do projeto vencedor dos arquitetos Frederico Martinho e Cláudia Franco.

A iniciativa da Área Metropolitana de Lisboa (AML) e da Ordem dos Arquitetos, a que concorreram 15 projetos, convidava os arquitetos a darem uma resposta, num cenário de pós-catástrofe na AML (sismo, inundações, etc.), “às condições de crescente vulnerabilidade social e física que conduzem, numa perspetiva global, à necessidade de pensar a emergência e soluções arquitetónicas de apoio às comunidades afetadas”. Em causa estava um centro polivalente com funções administrativas, nomeadamente espaço para junta de freguesia, apoio social, posto médico de emergência, armazenagem (equipamentos, medicamentos, agasalhos, etc.) e sala de reuniões coletivas.

Frederico Martinho, de 28 anos, que neste momento está a desenvolver projetos de reabilitação no centro histórico de Coimbra e na Serra do Buçaco, sublinha que o projeto vencedor do concurso, ligado à chamada arquitetura de emergência, “foca-se em duas carências provocadas por uma situação de catástrofe: a urgência da construção e a promoção do sentido de comunidade”.

O centro pós-catástrofe do vosso projeto tem grande visibilidade na paisagem. Porquê?
Essa é a ideia mais forte do projeto: construir uma estrutura de andaimes alta, apenas com um piso na base, de modo a que seja, antes de mais, uma referência visual, escultórica, facilmente localizável pela população no meio dos escombros de uma catástrofe como um sismo, que as pessoas percebam rapidamente onde está. Por outro lado, a técnica adotada possibilita uma imagem que remete para o ato de construir, para a ideia de reconstrução da cidade, porque um andaime está sempre ligado à edificação ou à reabilitação.

Porque escolheram uma sistema em andaimes?
Porque permite uma construção rápida, barata e sem mão de obra especializada, para além da sua natureza modular tornar possível a sua repetição e expansão de forma a responder mais eficazmente aos desafios impostos.

VISIBILIDADE. O projeto vencedor, baseado no sistema de andaimes e na grande visibilidade na paisagem

VISIBILIDADE. O projeto vencedor, baseado no sistema de andaimes e na grande visibilidade na paisagem

d.r.

Como deram resposta à exigência do concurso da conceção de um centro que possa ser concretizado dois dias depois da catástrofe e que permaneça no local dois anos?
A estrutura em andaimes é fácil de montar, ou seja, projetámos um centro pós-catástrofe que pode ser montado pela própria população e os materiais usados são também fáceis de arranjar e de transportar. E são leves, tanto no que diz respeito aos andaimes metálicos como às lonas têxteis usadas como divisórias, como paredes, tal como numa tenda.

Um centro deste tipo para prestar auxílio às vítimas de uma catástrofe e aos desalojados é adaptável a outras funções?
Sim, a estrutura é flexível, expansível, o sistema de lonas como divisórias faz com que os espaços possam ser constantemente reajustados. Por outro lado, a construção pode também ser usada para acoplar sistemas de caleiras para recolha e escoamento de água da chuva, painéis solares ou micro-eólicas, por exemplo. E pode ser replicada facilmente noutros locais.

APOIO. Interior do Centro de Apoio Social e Administrativo para funcionar num cenário pós-catástrofe

APOIO. Interior do Centro de Apoio Social e Administrativo para funcionar num cenário pós-catástrofe

d.r.

No fundo, que respostas dá o vosso projeto?
O projeto foca-se em duas carências provocadas por uma situação de catástrofe: a urgência da construção e a promoção do sentido de comunidade. Usando a memória coletiva associada à técnica de andaimes, surge a ideia de usar o edifício não só na sua função programática mas também como elemento de congregação no contexto urbano, como objeto iconográfico. Assim, elevando o sistema de andaimes consegue-se marcar na paisagem os equipamentos de emergência ao mesmo tempo que neles se revêm os habitantes desprovidos de pontos de referência.