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O que é que a (falta de) circuncisão e soldados portugueses têm a ver com a propagação do VIH?

d.r.

Uma investigação inédita liderada pelo português João Sousa, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), explica porque é que a Guiné Bissau é o país africano com maior taxa mundial de infetados com o vírus VIH-2. E desta vez, a culpa não é apenas do macaco que transmitiu a doença ao homem, é também de hábitos culturais que adiavam a circuncisão entre algumas etnias. Sem esquecer o papel dos soldados portugueses durante a guerra pela independência e da própria língua portuguesa na expansão da epidemia

“A Guiné Bissau é o único país do mundo com uma alta taxa de prevalência de VIH-2. Nos demais países, a taxa máxima não ultrapassa 2,5% na década de 80, a primeira com dados serológicos sistematizados, com tendência sempre a diminuir”, explica João Sousa, investigador da Universidade Leuven, na Bélgica, e do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) e autor do estudo “Circuncisão Masculina e Emergência Epidémica do VIH-2”, que começou a ser feito há cinco anos, publicado recentemente na revista científica internacional “PLOS ONE”.

Neste estudo foram revistos artigos que citavam dados serológicos (amostras de sangue) de cerca de 260 mil adultos africanos, entre os quais milhares de prostitutas e indivíduos hospitalizados com doenças sexualmente transmissíveis ou tuberculose. Também foram estudadas informações relativas a zonas urbanas e rurais de 16 países que permitiram aos investigadores — três portugueses, uma belga, um húngaro e um americano — tirar um retrato da epidemia de VIH-2 na África ocidental tal como esta se apresentava nos anos oitenta do século XX. Antes disso, poucos são os estudos científicos sobre o VIH-2 que permitam comparar a evidência da doença entre os vários países da África ocidental.

O papel da circuncisão na proteção dos homens já tinha sido comprovado para a epidemia de VIH-1 (vírus mais agressivo e que já infetou cerca de 70 milhões de pessoas em todo o mundo desde a década de oitenta), mas nada tinha sido pesquisado até agora sobre a importância da circuncisão na expansão do VIH-2.

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A equipa liderada por João Sousa decidiu, então, analisar relatórios sobre a infeção em 30 cidades da África Ocidental. Foram analisados dados sobre 218 grupos étnicos da região, através de literatura etnográfica e trabalho de campo. Recolhida a informação, ficou evidente que a Guiné Bissau e a Costa do Marfim se destacavam como os epicentros da epidemia, agravada nas zonas em que se registavam as mais baixas percentagens de homens a quem era realizada a circuncisão.

No VIH-1, os chimpanzés foram o berço do vírus e o consumo da sua carne terá sido responsável pela transmissão para os seres humanos. No VIH-2, a origem de tudo foram os macacos cinzentos conhecidos como sooty mangabeys. A observação dos mapas (ver imagem) revela que não há qualquer relação entre a área ocupada pelos macacos cor de fuligem e a própria prevalência do vírus. Mas a chave para a interpretação dos números surge, então, quando se articula o mapa com a informação sobre a prática da circuncisão masculina entre os habitantes da África ocidental, no início do século XX. Porque quer a Guiné Bissau quer a Costa do Marfim, países com as maiores prevalências de VIH-2, apresentavam taxas relativamente baixas de circuncisão entre 1900 e 1920.

O problema é que um pénis a que não foi realizada a circuncisão é mais suscetível de desenvolver microfissuras, além de conter uma maior quantidade de células especialmente favoráveis à proliferação do VIH. E, se na Guiné Bissau, a maior parte da população masculina era circuncidada, cerca de 30% não tinham esta prática por razões culturais. Com destaque para três etnias: os Balanta e os Manjako e os Felupe, grupos não islamizados com tradições distintas da maioria. Enquanto os Balanta só passam pela circuncisão depois dos 40 anos, os Manjako e os Felupe associam a prática a festas comunitárias que acontecem regularmente com intervalos de duas décadas.

Entretanto, os homens das três etnias até passarem pela circuncisão não deixavam de ter vidas sexuais ativas, constituindo-se desta forma como potenciais fatores de disseminação da epidemia. Além disso, havia um núcleo de cabo-verdianos nas cidades da Guiné Bissau, homens que, por regra, não eram circuncidados.

Distribuição desigual

Na Costa do Marfim, a prevalência de VIH-2 era de 2,5%, mas na Guiné Bissau subia para 7,9%, enquanto em países como a Gâmbia ou Cabo Verde, eram bastante mais baixas, respetivamente de 1,4% e 1,3%, na década de 80. A Guiné Bissau e a Costa do Marfim eram mesmo os únicos países da África ocidental com evidência de VIH-2 desde a década de 60 do século XX, altura em que os dados recolhidos ainda eram bastante imprecisos. Desde então, mais de um milhão de pessoas já terão sido infetadas em todo o mundo com o vírus VIH-2. África é reconhecida como o berço da epidemia, à semelhança do que aconteceu com o VIH-1, mas, neste caso, o desenvolvimento da doença foi bastante desigual ao longo do território africano. Para agravar a situação dos investigadores, o VIH-2 sempre foi menos estudado do que o seu congénere, devido à menor incidência e virulência nos seres humanos.

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Portanto, a explicação que o estudo encontra para a desigual distribuição do vírus VIH-2 pela África ocidental deve-se, especialmente, à irregular prática da circuncisão. A aceleração da epidemia de VIH-2 na Guiné Bissau acompanhou o período da guerra pela independência. No início do movimento de libertação, a população da cidade de Bissau rondaria as 22 mil pessoas, tendo explodido para cerca de 80 mil com a chegada de refugiados fugidos das zonas atingidas pela guerra. Além desses vieram também à volta de 25 mil soldados portugueses durante a guerra, explica João Sousa, sublinhando que, mesmo que estivessem deslocados no interior, todos acabavam por passar pela capital.

Assim, as estimativas do estudo revelam que, em 1960, deveriam ser 600 os guineenses infetados. Em 1974 seriam já 1800 e nos anos 80 este total teria alcançado as 30 mil pessoas. E, pelas contas realizadas no âmbito da investigação, menos de cem soldados portugueses terão tido um papel relevante na expansão da epidemia. “Considerando a prevalência de 7,5% dos anos 80 na Guiné Bissau, pode estimar-se que na altura havia cerca de 30 mil adultos infetados no país e, com a taxa de propagação calculada para o VIH-2, percebe-se a relevância do papel dos soldados portugueses na epidemia”, conclui o investigador. Hoje, a Organização Mundial de Saúde aponta que serão entre 32 e 55 mil os guineenses infetados com VIH. Em 2012, a prevalência do vírus (1 e 2) entre a população adulta da Guiné Bissau era já de 3,9%.

Curioso é que não é só a Guiné Bissau se destaca neste movimento de expansão da doença. Também as outras colónias portuguesas foram focos relevantes. “Cabo Verde recebeu o vírus através dos soldados portugueses e o intercâmbio de cabo verdianos para a Guiné Bissau, o VIH-2 proliferou para os países de expressão portuguesa, como Angola e Moçambique, devido aos militares e à troca de imigrantes, atraídos pela língua comum”, explica João Sousa.

“Até hoje, Portugal é o país europeu com maior proporção de HIV-2, devido à grande presença de guineenses e cabo-verdianos na população. Nos anos 90, por exemplo, 15% dos infetados com VIH tinham a segunda variante do vírus, que é muito raro na Europa, com exceção para Portugal e a França, neste caso devido à ligação aos países francófonos da África ocidental. Assim, é muito provável que, nesta primeira fase, mesmo mais do que os soldados, quem tenha privilegiado a disseminação do VIH-2 tenha sido a língua portuguesa”, reflete o investigador do IHMT.