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Ver esta criação lá fora e não acreditar em Deus parecia-lhe impossível

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John Glenn, o primeiro norte-americano a orbitar em torno da Terra, tornou-se símbolo de patriotismo e perseverança. O último sobrevivente dos pioneiros da era do espaço morreu esta quinta-feira. A história dele é uma lenda

Zero gravidade e sinto-me bem. Oh, esta vista é fantástica”, declarou um John Glenn maravilhado com visões como a que teve a sobrevoar a Austrália, reparando que os habitantes da cidade de Perth tinham acendido todas as luzes como forma de o saudar. O voo era perigoso – era a primeira vez que um astronauta norte-americano percorria a órbita terrestre, numa altura em que havia dúvidas sobre a forma como o sistema respiratório humano reagiria ao espaço ou sobre se os astronautas conseguiriam alimentar-se durante as missões. Mas Glenn, como sempre, mostrava os seus nervos de aço.

Foi mesmo preciso tê-los quando o sistema de controlo automático da cápsula Friendship 7 falhou, sendo o astronauta obrigado a assumir o controlo manual logo após a primeira volta à Terra – naquelas 4 horas e 56 minutos, faria o percurso três vezes. Foi preciso manter a calma quando a cápsula emitiu um falso alarme que significaria um erro no sistema de proteção do calor, essencial para a aterragem segura do astronauta. E foi preciso muito sangue frio quando finalmente foi parar ao Oceano Atlântico, sendo resgatado pela Marinha 21 minutos depois, e voltou finalmente a pisar terreno norte-americano, desta vez como símbolo nacional de garra, patriotismo e uma esperança necessária em tempos de provação – e esta sexta-feira, com a notícia da sua morte, é assim que volta a ser lembrado.

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Os tempos eram outros – eram os tempos da Guerra Fria, da rivalidade implacável entre Estados Unidos e União Soviética por uma esfera de influência mundial, sendo uma das dimensões dessa competição a corrida ao espaço. Os norte-americanos estavam a ficar para trás – em 1961, um ano antes da incursão de Glenn, o primeiro astronauta russo, Yuri Gagarin, tinha-se aventurado no espaço, deixando os Estados Unidos nervosos. Logo de seguida, foi a vez de dois dos integrantes do primeiro grupo de astronautas americanos, Alan Shepard e Gus Grissom, voarem – mas seria Glenn, em 1962, a atrever-se a percorrer a órbita da Terra e a devolver ao país a confiança e orgulho de que necessitava naqueles tempos conturbados, numa altura em que, explica o site da NASA no perfil do astronauta, “se viviam os primeiros dias de desafio em que os humanos se começavam a aventurar para lá da atmosfera que os acolhera desde o início da espécie”.

Querer fazer algo pelo país era natural

O patriotismo de Glenn foi característica sua desde a infância, uma infância passada na pequena cidade de New Concord, no Ohio, com pouco mais de mil habitantes e uns pais que o educaram com um rígido código moral e uns princípios religiosos muito presentes. “Era um lugar pequeno, mas tinha um sentimento muito patriótico e desfiles em todos os feriados nacionais. Querer fazer algo pelo país era natural, crescendo num lugar como New Concord”, recordaria Glenn, citado pelo “New York Times”.

Foi nessas condições que Glenn, nascido em 1921, cresceu e se envolveu em diversas atividades da sua comunidade, participando no coro da Igreja, tocando trompete e praticando desportos como o futebol, o basquetebol e o ténis na escola secundária hoje batizada com o seu nome. Na mesma altura em que lavava carros para ganhar o seu dinheiro e trabalhava como nadador-salvador durante o verão, Glenn conhecia a sua namorada adolescente Anna Margaret Castor, com quem acabaria por casar – um casamento que durou 73 anos, durante os quais a apelidou de “o verdadeiro pilar da família”.

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Enquanto estudava Química na Universidade de Muskingum College, em plena Segunda Guerra Mundial, tinha aulas suplementares de pilotagem, o que acabaria por ser determinante para o seu futuro. O sentimento patriótico voltou a chamar por Glenn no ataque a Pearl Harbour, a 7 de dezembro de 1941, na sequência do qual se juntou aos Marines norte-americanos e se tornou piloto de combate, cumprindo 59 missões no Pacífico e 90 já durante a Guerra da Coreia, pelas quais arrecadou várias medalhas e condecorações. E então, corria o ano de 1957 e tinha Glenn quebrado um importante recorde, voando a distância entre Los Angeles e Nova Iorque em 3 horas, 23 minutos e 8,4 segundos, a União Soviética adiantava-se na corrida ao espaço e lançava o primeiro satélite artificial, o Sputnik, no espaço.

Foi nessa altura que o presidente norte-americano em funções, Eisenhower, decidiu responder aos soviéticos criando a NASA em 1958, como um impulso para as explorações espaciais em que os Estados Unidos pareciam estar a ficar para trás. Glenn, então com 37 anos, decidiu candidatar-se ao Projeto Mercúrio, o mesmo que tinha o objetivo de percorrer pela primeira vez a órbita terrestre, com outros 508 candidatos – e, conhecido pela sua persistência e preparação intensiva, conseguiu mesmo ficar no lote de 7 escolhidos, os ainda hoje conhecidos como 7 astronautas americanos originais.

Aceitámos o risco

Glenn não conseguiu ser o primeiro a voar – Alan Shepard e Gus Grissom ultrapassaram-no mesmo depois da sua campanha esforçada para se tornar o primeiro astronauta americano no espaço, e Glenn admitiria nas suas memórias, publicadas em 1999, ter-se sentido “desiludido” depois de ter “trabalhado e estudado com dedicação para esse fim”. Na altura, mal imaginava o astronauta que a sua primeira missão o tornaria mesmo um herói nacional mais celebrado do que os colegas que o antecederam e que passaria a ser considerado o pioneiro que tornou possível, sete anos mais tarde, a primeira aterragem norte-americana na Lua, na missão Apollo.

De novo, Glenn teve de mostrar os seus nervos de aço – enquanto se preparava e a sua esposa Annie “se preocupava e perdia peso”, Glenn via cápsulas a explodir após o lançamento ou a despenharem-se no meio do oceano ou esperava 6 horas dentro da nave só para a missão ser abortada. Mas uma das qualidades que distinguiram o astronauta foi a descontração com que declararia sobre a missão que o levou à órbita terrestre: “Tornámo-la tão segura quanto possível e aceitámos o risco que permanecia”.

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O risco era grande e foi apenas depois de 2 meses e 11 tentativas frustradas por problemas mecânicos ou mau tempo que finalmente a cápsula Friendship 7 foi lançada para o espaço desde os edifícios de cimento de Cape Canaveral, Flórida, no dia 20 de fevereiro de 1962, perante o olhar atento dos americanos nervosos que assistiam nos televisores a preto e branco ou ouviam a transmissão pela rádio. Com todos os imprevistos que viveu – a perda do controlo automático da cápsula, o aviso erróneo de problemas na proteção de calor e a chegada ao Oceano Atlântico -, Glenn declararia à chegada estar “em boas condições”. Detalharia mais tarde: “Achei que o escudo de proteção do calor podia estar a desfazer-se. Foi um mau momento. Mas sabia que se isso estivesse a acontecer, tudo acabaria rapidamente e não haveria nada que eu pudesse fazer”.

À chegada, acompanhado pelo então presidente John F. Kennedy, John Glenn pôde experimentar a sua nova fama de herói nacional, de responsável pela recuperação da confiança e moral nacionais, de símbolo máximo de patriotismo. Na digressão que fez pelo país, dando autógrafos às multidões que o esperavam ou sendo até inspiração para arte patriótica como a canção do cantor de blues americano Lightnin’ Hopkins, “Happy Blues for John Green”. Mas Glenn não se deixou impressionar pela fama, declarando numa entrevista anos mais tarde: “Sou a mesma pessoa que cresceu em New Concord, Ohio, e que com o passar dos anos participou em muitos acontecimentos importantes. O que atraiu as atenções, penso eu, foram os tempos tenebrosos que pensávamos estar a viver na Guerra Fria. Acho que não foi por minha causa. Tudo isto aconteceria a qualquer pessoa que fosse selecionada para aquele voo”. Aos funcionários da NASA, admitiria: “Estou a ter esta atenção graças aos milhares de vós que trabalharam para isto”.

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Um recomeço político

No entanto, a popularidade e a preparação servir-lhe-iam para se lançar a novas aventuras quando a NASA lhe recusou novos voos – saberia depois que a resistência se devia à crença de Kennedy de que era um símbolo demasiado importante para colocar em risco. Saindo da NASA em 1962 e após uma carreira de anos como empresário, por sugestão do então procurador-geral Robert Kennedy pensou numa incursão pela política, anos depois de ter estado presente no Capitólio e arrancado uma ovação de pé aos congressistas.

Com a primeira campanha para o Senado em 1970, acabaria por ser eleito pelo lado democrata do Ohio em 1974, tendo a sua preparação e inteligência servido para três outras eleições como senador, num total de quatro mandatos em que se focou sobretudo nas questões do armamento, particularmente o nuclear, e da tecnologia. Falhou na missão de ser o candidato nomeado pelos democratas para disputar as presidenciais de 1984 – o rival que o venceu, Walter F. Mondale, acabaria derrotado nas eleições gerais por Ronald Reagan.

No entanto, como admitiu sempre, o seu maior sonho era voltar ao espaço. “Sim, gostaria de ter ido à lua”, diria anos depois do famoso Projeto Mercúrio, “mas não queria continuar sendo o astronauta mais velho em treino só com as esperanças de ir à lua. Por isso dediquei-me a outras coisas e foi com essa decisão que vivi”. Mas uma última oportunidade esperava por ele: o voo de 1998 que o levou de novo ao espaço, tornando-se o homem mais velho de sempre a fazê-lo, com 77 anos e tendo superado as mesmas provas físicas que os astronautas mais jovens. Mesmo criticado por este parecer um favor político ou um desperdício de dinheiro, o feito tardio de Glenn acabaria por despertar a nostalgia de muitos americanos, tendo o antigo astronauta dito que a missão era desta vez “mostrar que as vidas das pessoas mais velhas não precisam de ser ditadas por um calendário”. “Ver esta criação lá fora e não acreditar em Deus parece-me impossível”, disse na altura, num lançamento a que assistiram 250 mil americanos, incluindo o presidente Bill Clinton, de quem era apoiante entusiasta, e o ator Leonardo Dicaprio.

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O homem que levantou uma nação

Foi no fim desses 24 anos de Senado e da viagem final ao espaço que se reformou, passando a lecionar em universidades do seu estado e vivendo entre o Ohio e Washington com a esposa Annie, com quem esteve casado durante 73 anos e até à sua morte. Os problemas de saúde começaram a atacá-lo: em 2014 sofreu um problema cardíaco e fez uma cirurgia para substituir uma válvula do coração e nas últimas semanas encontrava-se internado no James Cancer Center. A notícia da sua morte, que ocorreu esta quinta-feira, aos 95 anos, foi comunicada pela faculdade da Ohio State University a que emprestou o seu próprio nome e onde mantinha um escritório.

“Quando John Glenn levantou voo de Cape Canaveral no topo de um foguete Atlas em 1962, ele levantou a esperança de uma nação. (…) E mostrou com coragem e espírito de aventura que não há limite para o que podemos alcançar juntos. [Glenn] inspirou gerações de cientistas, engenheiros e astronautas que nos levarão a Marte e mais além – não para visitar, mas para ficar”, disse Obama em reação à notícia da morte, citado pelo “Wall Street Journal”. As palavras parecem corroboradas pelas do próprio Glenn, que um dia explicou: “Se usarmos bem os nossos talentos, viveremos o tipo de vida que devemos viver”. E acrescentou: “Estamos mais realizados quando nos envolvemos em algo maior do que nós próprios”.