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Música em “Contratempo” e em harmonia contra o estigma

Rui Duarte Silva

Em Portugal 23% da população pode sofrer de problemas de saúde mental e o estigma ainda é um inimigo. A música é uma linguagem universal e a Associação Nova Aurora, no Porto, juntamente com jovens universitários, usa-a para combater o problema

Estamos num pequeno edifício na Rua Coronel Almeida Valente, no Porto. Apesar da dimensão reduzida, aqui, cabem todos. Trata-se da sede Associação Nova Aurora na Reabilitação e Reintegração Social (ANARP), que abriu as portas ao Expresso. Um conjunto de duas dezenas de pessoas afina os instrumentos antes de mais um ensaio do grupo musical, naturalmente diferente, e que dá pelo nome de “Contratempo”. Constituído por elementos da Tuna da Escola Superior de Saúde, do Instituto Politécnico do Porto, e por pessoas que sofrem de doença mental, na sala de ensaios improvisada todos tocam e cantam, em uníssono, para combater o estigma e promover a inclusão social.

Na União Europeia 38% das pessoas sofrem de doença mental e em Portugal estima-se que sejam 23%. Ou seja, quase um em cada quatro portugueses pode ser afetado. O número pode ser ainda mais elevado, se tivermos em conta a desinformação e o medo que ainda existe de admitir publicamente. É possível até que muitos já tenham passado por um estado clínico de doença mental sem sequer o saberem.

O relatório “Portugal – Saúde Mental em Números 2015”, apresentado pela Direção-Geral da Saúde, indica também que as perturbações mentais representam 20,55% do total de anos vividos com incapacidade.

Quando falamos de problemas de saúde mental, podemos referir-nos a depressão, a patologia mais comum dentro deste grupo e que pode afetar até 800 mil pessoas no nosso país. Mas podemos estar a falar de casos de esquizofrenia, autismo, transtornos de personalidade – como borderline ou bipolaridade – síndrome de asperger, entre outros. Até mesmo a ansiedade figura nesta lista.

Por ser algo tão comum, e que pode entrar na casa de qualquer pessoa, ao longo desta reportagem não vamos colocar rótulos a nenhuma das pessoas que tivemos a oportunidade de conhecer. Nesta associação, todos têm dificuldades e todos têm a sua luta. Como se lê numa das paredes daquela sala de ensaios improvisada, “a vida é de quem se atreve a viver”.

Rui Duarte Silva

Quando o estigma vem de onde menos se espera

A ANARP foi criada, em 1986, por familiares e amigos de pessoas que padecem de doença mental. Atualmente, presta apoio a mais de 40 utentes e tem como objetivo fazer com que estes atinjam um elevado nível de funcionalidade, bem como promover a efetiva inclusão social nos mais variados contextos.

Enquanto se afinam as guitarras, as vozes e se ouvem algumas notas de acordeão, sentamo-nos à conversa com a terapeuta ocupacional Raquel Simões de Almeida, que trabalha na Nova Aurora há cinco anos e coordena o projeto “Contratempo”, resultado de uma parceria com o Instituto Politécnico do Porto, que com frequência envia jovens estagiários para desenvolverem competências na associação. A ideia para criar este grupo musical nasceu há dois anos.

“Sabemos que o estigma continua, ainda hoje, a ser uma das principais barreiras para a inclusão de pessoas com problemas de saúde mental”, afirma a responsável de 27 anos, acrescentando que a exclusão pode até vir de onde menos se espera. “Mesmo os profissionais de saúde que trabalham com estas pessoas têm elevado a taxa de estigma, baseada na crença errada do baixo potencial de recuperação”, conta a terapeuta.

Acerca do grupo musical, apoiado desde janeiro pela Fundação Calouste Gulbenkian, assegura que se criou “uma interação muito espontânea e os utentes acabam por divertir-se”, algo que é fundamental, uma vez que, acrescenta, “as pessoas com doenças de saúde mental têm alguma tendência para o isolamento e têm dificuldade em relacionar-se com os outros”.

Através da música são exploradas uma série de valências, que de outro modo seria bem mais complicado, como a gestão emocional, a autoestima, a autoconfiança, a relação interpessoal e a adaptação a novos contextos e situações. “O ambiente que se cria neste grupo é bastante tranquilo e genuíno, e não há aquelas regras que se criam em contexto hospitalar”, frisa a coordenadora do projeto. “O que a literatura nos diz é que as estratégias que melhor funcionam são aquelas que se baseiam numa lógica de contacto e interação”, afirma a terapeuta ocupacional, para quem não existe melhor forma de passar a mensagem anti-estigma.

Um dos utentes é Jorge Mesquita, de 60 anos. A música sempre fez parte da sua vida e, em tempos, teve uma banda, juntamente com o irmão. Agora a realidade é diferente, toca em “Contratempo”, e tem um papel fundamental como compositor dentro do grupo. É dele a autoria da música “Quando cheguei dessa viagem”, que a formação vai apresentar nos vários espetáculos que já estão agendados e que, no futuro, pode vir a integrar o álbum que está a ser pensado.

Rui Duarte Silva

Combater todo o tipo de preconceitos

Também Luís Ribeiro, licenciado em Neurofisiologia e elemento da Tuna TS, fala do preconceito, que se sente também a outro nível. “Fazemos um combate à forma como as tunas são vistas na sociedade. São vistas como grupos boémios, em que os integrantes só querem beber uns copos, e nós pretendemos mostrar que podem ser um projeto cultural e social bastante interessante”, vinca o jovem de 23 anos que, durante o ensaio, vai dando indicações a todos os elementos.

Enquanto o entrevistamos, aproxima-se timidamente Catarina Pinheiro, uma das vozes do grupo. Tem algo para nos entregar. Duas folhas de papel com poemas da sua autoria. Um, datado de 2002 e sem título, é bastante lúgubre, com uma escrita mais soturna. A luz escasseia nas palavras grafadas a negro naquela folha de papel branca. O outro poema, mais recente, difere completamente, também ele como se fosse uma nova aurora. Mas lá chegaremos.

Catarina prefere falar daquilo que escreve do que o motivo que a levou há nove ou dez anos – não se lembra bem – a entrar pela primeira vez na Associação Nova Aurora. Garante que sente “muito estável” agora e a poesia é uma forma de exprimir determinados pensamentos. Fala com orgulho do projeto “Contratempo” e destaca o terceiro prémio atribuído pela Câmara Municipal do Porto, no âmbito da iniciativa “Porto Vivo”.

Rui Duarte Silva

“As pessoas normais não têm nada de especial”

Quem canta seus males espanta e Catarina é a prova disso mesmo. Fala-nos do bom ambiente. “É divertido e gosto muito de cantar. A convivência com os elementos da tuna e com os colegas é ótima. Há muito respeito e amiza-de”, assevera. “Eu quase não dou conta, mas mesmo sem notar, estes projetos fazem-nos muito bem”, afirma a utente de 36 anos que quando chegou à associação era extremamente insegura e que atualmente diz não sentir receio de subir a um palco e enfrentar uma plateia.

E haverá muitas plateias e grandes palcos às quais Catarina e todos os outros se irão apresentar. A 11 e 12 de abril o grupo “Contratempo” apresenta-se na Casa da Música e a 17 de junho no Teatro Helena Sá e Costa.

Além do “Contratempo”, a associação conta também com outras iniciativas que vão no mesmo sentido: “Fintar o Estigma”, um torneio de futsal que junta em várias equipas pessoas com experiência de doença mental e estudantes universitários, ou o projeto “Sincronias”, que estimula a criação artística.

Para finalizar ficam alguns versos do poema – aquele mais recente – que Catarina Pinheiro nos confiou em mãos, intitulado “As pessoas normais não têm nada de especial”.

Cada pessoa é como é
Tem é que saber viver com os seus próprios problemas
Lutar contra as diferenças impostas pela sociedade
Ser capaz de ser feliz e realizada como qualquer ser humano
Ser diferente é ser mais alto
É sentir diferente
É ser feliz
(todos diferentes, todos iguais)