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Doutor em Ciência Política na chefia do Estado-Maior da Armada

MARINHA. 42 anos depois de ter entrado para a Escola Naval, o almirante Silva Ribeiro alcança o topo da hierarquia da Armada

Apesar de nunca ter comandado um navio de guerra, o almirante escolhido pelo Governo para a chefiar do Estado-Maior da Armada até 2018, ano em que deverá subir o derradeiro degrau e tornar-se chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, tem uma longa carreira entre a universidade e a instituição militar. E tudo começou na infância, em Pombal, na casa do avô

Carlos Abreu

Jornalista

Pode o sucesso brotar da virtude protetora de talismãs ou da graça dos astros? Num passado mais ou menos longínquo marinheiros haviam que neles confiavam religiosamente, sobretudo durante os tempos passados na absoluta incerteza de quem seguia à mercê de ventos e marés em mares nunca dantes navegados. Mas num mundo dominado pela ciência e pela tecnologia “é evidente que o sucesso, em qualquer atividade marítima, tem o seu fundamento numa postura mental ordenada e em atitudes precautelares e não na influência positiva dos amuletos e dos astros”.

É assim que pensa, – e escreve-o em artigo de opinião publicado em abril no “Jornal da Economia do Mar” – o militar, professor universitário e investigador em "planeamento estratégico" e especialista em hidrografia que este sábado, ao final da manhã, assume em Belém o comando de um “navio” com 7920 militares, 1008 militarizados e 1178 civis e um orçamento de 377 milhões de euros para 2017, muito abaixo dos 500 milhões com que a Marinha sonha há vários anos.

A casa-museu do avô

Neto de um militar da Armada, seria pela influência do avô que o jovem António Manuel Fernandes da Silva Ribeiro, nascido em Pombal, Leiria, a 14 de outubro de 1957 (atualmente com 59 anos), haveria de despertar para as coisas do mar.

“Quando andava na escola primária almoçava todos os dias em casa do meu avô, que se tinha reformado da Marinha a seguir à II Guerra Mundial, e a casa do meu avô era uma espécie de museu de Marinha. E foram essas conversas com o meu avô e tudo aquilo que havia em sua casa que me fizeram vir em 1974 para a Marinha”, conta numa entrevista concedida em abril à Televisão de Lisboa (TVL), um canal online de âmbito regional.

No ano da revolução ruma à Escola Naval onde conclui, em 1978, a licenciatura em Ciências Militares-Navais. Nesse ano, tal como contou na TVL, “embarcou como imediato [2.º comandante] de um [navio] patrulha [o NRP Save, da classe Cacine, já desativado]. A seguir fui para os Estados Unidos, fazer uma especialização em Hidrografia e depois estive 11 anos no Instituto Hidrográfico (IH)”. Durante esse período comandou dois navios hidrográficos – os NRP “Andrómeda” e “Almeida Carvalho” – as únicas unidades navais onde desempenhou tais funções. O facto de nunca ter comandado um navio de guerra – ainda como subalterno chefiou o serviço de navegação da fragata “João Belo” – terá sido o único senão do seu currículo na nomeação para a chefia da Armada.

Em contrapartida, antes de assumir o comando do NRP "Almeida Carvalho" (navio de 64 mestros, 1237 toneladas e uma guarnição de 52 homens), Silva Ribeiro foi diretor de pesquisa e operações do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa e Militares (atual SIED - Serviço de Informações Estratégicas de Defesa), a secreta militar.

“Gosto muito de dar aulas”

Silva Ribeiro acabará por trocar o IH pelo Estado-Maior da Armada, onde ficaria outros 11 anos na divisão de planeamento. “Daí a minha ligação a tudo o que tem a ver com o planeamento estratégico e que suscitou depois a outra componente da minha carreira pública, ao nível do ensino universitário nessa área”, referiu à TVL, acrescentando: “A carreira académica é uma paixão e uma necessidade. A partir do momento em que entrei no Estado-Maior fui suscitado para pensar o futuro da Marinha. Ora, para isso precisei de ferramentas intelectuais e foram essas ferramentas que fui buscar à universidade. Todos os estudos que tenho feito na universidade, no âmbito da estratégia e do planeamento estratégico, reverti-os em aplicações práticas na Marinha. A universidade serviu-me para servir melhor a Marinha. Tem ainda outra função, de realização pessoal. Gosto muito de dar aulas. Tenho experiências extraordinárias de alunos com capacidades invulgares que têm realizado obras e trabalhos de grande valia e sinto-me muito realizado para, com grande humildade, contribuir para formar as novas gerações.”

No início deste ano, o vice-almirante doutor Silva Ribeiro renovou, por um ano, o seu contrato de trabalho como professor catedrático convidado, em regime de tempo parcial (50%), no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Foi aqui que concluiu o mestrado em Estratégia e em maio de 2008, aos 50 anos, o então capitão de mar-e-guerra, prestou provas de doutoramento em Ciência Política com uma tese intitulada “Elaboração da Estratégia de Defesa Militar: Contributos para um modelo”, tendo sido orientado pelo professor Adriano Moreira.

Em julho de 2011, o então chefe do Estado-Maior da Armada, almirante Saldanha Lopes, decidiu conceder-lhe a medalha naval de Vasco da Gama “pela importância e relevância do trabalho desenvolvido, ciente de que as obras por si publicadas têm contribuído de modo muito significativo para o conhecimento, a divulgação e o prestígio da Marinha nos planos científico e cultural”. Numa síntese curricular de Silva Ribeiro enviada pelo Ministério da Defesa às redações, faz-se referência à publicação de “16 livros, três dos quais no estrangeiro”, acrescentando: “Dos livros publicados, dois tratam a teoria da estratégia, cinco versam o planeamento estratégico aplicado ao Estado, à defesa nacional, à segurança nacional e à Marinha, um debate o terrorismo (em parceria) e oito abordam temas de história militar, história marítima e história da hidrografia.”

A caminho do topo

A 22 janeiro de 2013, Silva Ribeiro abandona as funções de subchefe do Estado-Maior da Armada, que desempenhava desde outubro de 2008 e regressa ao Instituto Hidrográfico assumindo a direção-geral de uma casa que conhece bem. E pelo trabalho realizado durante cerca de 15 meses, será distinguido em abril de 2014 com uma Medalha de Defesa Nacional de 1.ª classe, apenas um das cerca de 20 louvores e distinções, nacionais e estrangeiros, que constam da sua folha de serviços, onde também de destaca a de Grande Oficial da Ordem Militar de Avis.

Na Portaria onde se formaliza a atribuição da Medalha de Defesa Nacional de 1.ª classe, publicada em “Diário da República” [n.º 269/2014, de 15 de abril], escreve o então ministro da Defesa, Aguiar-Branco: “Militar culto, leal e possuidor de um superior espírito de bem servir, é também dotado de uma ímpar capacidade de liderança, que lhe confere o respeito e a estima dos subordinados, bem como a pronta adesão aos processos de renovação técnico-científica que iniciou e perspetivou para o futuro IH.”

Antes de voltar a ser nomeado por Aguiar-Branco, a 4 de março de 2015, para diretor-geral da Autoridade Marítima e, por inerência, comandante-geral da Polícia Marítima, funções que desempenhava quando o atual Governo do PS (apoiado pelas esquerdas) decidiu propor ao Presidente da República a sua nomeação para a chefia do Estado-Maior da Armada, Silva Ribeiro teve a seu cargo um dos quatro órgãos centrais de administração e direção da Marinha: a Superintendência do Material, ao qual reportam as direções de abastecimento, infraestruturas, navios e transportes.

No preciso momento em que tome posse como Chefe do Estado-Maior da Armada, Silva Ribeiro sabe que está no cargo a prazo (cerca de 18 meses) porque, tal como o Ministério da Defesa anunciou esta semana, assumirá a partir de junho de 2018 a chefia do Estado-Maior-General das Forças Armadas, sendo assim reposto o princípio da rotatividade dos chefes dos três ramos (Marinha, Exército, Força Aérea) no posto mais alto com que qualquer oficial-general pode sonhar… Um posto que até lá será ocupado pelo general Artur Pina Monteiro que em fevereiro próximo será reconduzido para um segundo mandato de dois anos, que não poderá cumprir até ao fim porque, entretanto, fará 66 anos e terá de se reformar obrigatoriamente. Já Silva Ribeiro, só em outubro de 2023 terá de soprar tantas velas… Poderá, assim, cumprir o primeiro mandato de três anos e até ser reconduzido por mais dois no comando das Forças Armadas sem os ventos soprarem de feição. Resta saber se conseguirá continuar a fazer uma das coisas que mais gosta na vida: dar aulas.