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Um gesto 3D

Nuno tem uma mão nova desde o início do ano

antónio bernardo

Chama-se Nuno, tem oito anos e por pouco mais de 18 euros recebeu a prótese que lhe compensa a falta da mão esquerda. Mais do que a capacidade de movimentos, o que o mecanismo aumentou foi a autoestima do rapaz

Ricardo Nabais

Qual é a probabilidade de um miúdo de sete anos que nasceu sem a mão esquerda poder receber, por um preço à volta dos 18 euros, uma mão de plástico que lhe permite agarrar objetos? E qual é a probabilidade de essa prótese de baixo custo ser feita não por um médico, mas por um artista e designer? A resposta a estas perguntas é um ‘sim’: a probabilidade é de 100%.

Após ter colocado essa mão, cujos dedos são capazes de abrir e fechar de acordo com o movimento do braço, o rapaz sentiu-se radiante e pegou numa garrafa de água. À primeira. Não se pense que se trata de um daqueles gadgets eletrónicos aos quais só falta falar. Pelo contrário, a única sofisticação tecnológica é o facto de ter ‘saído’ de uma impressora 3D, que nem é propriamente o último grito das impressoras deste género.

Nuno tem hoje oito anos e foi notícia por ter recebido uma mão feita por outras mãos habilidosas — que desenharam o modelo e o software com o design final à medida do rapaz —, um engenho descomplicador que foi ‘feito’ numa impressora 3D instalada na sede da plataforma online Patient Innovation, na Universidade Católica de Lisboa e acabada na impressora da Media Markt. Pedro Oliveira, fundador e líder deste projeto, que permite trocar experiências e soluções para problemas de saúde em qualquer parte do mundo, recorda a história: “A mãe dele apareceu num sábado à tarde. Pediu-me para lhe imprimirmos uma mão e um braço”. Após breves segundos para recuperar da surpresa, meteu mãos à obra. A façanha demorou um fim de semana.

E é neste ponto da história que entra o designer norte-americano Ivan Owen, que já tinha desenvolvido uma prótese semelhante para um jovem que entrou em contacto com ele através da internet. Carla Entrudo, mãe do Nuno, descobriu o portal de soluções em impressora 3D de Owen e trocou uma série de mensagens com ele para perceber se aquela solução, também feita numa impressora 3D, se aplicaria ao filho. Pedro Oliveira completa: “O processo exigiu algum trabalho adicional, porque as próteses são todas diferentes. Aquela que funciona no Nuno não funcionará noutro miúdo que tenha o braço com um comprimento um pouco maior, por exemplo.”

Os materiais são à base de termoplástico — que pode ser construído, ou melhor, impresso, nestes dispositivos — e linhas de pesca para fazer a ligação dos dedos e permitir-lhes os movimentos. Mas a Robohand, como foi batizada, não é uma cura. Tem condicionantes. “Para a mão ficar fechada, ele tem de ficar com o braço dobrado. Basta um pequeno movimento para a mão abrir, porque ele não tem, como nós, possibilidade de fazer o movimento de rotação do pulso”, explica Carla Entrudo. O diâmetro de um objeto como um copo pode ser também um obstáculo — se é grande, a mão não o consegue agarrar; se for pequeno, não o consegue segurar.

Uma segunda mão, 
como toda a gente

A mão é antes matéria de algo muito importante, a autoestima do Nuno. À euforia da primeira reação, seguiu-se a constatação de que nem todos os gestos são possíveis. “Mais do que precisar dela”, conta Carla Entrudo, “foi especial sentir que pode ter uma segunda mão como toda a gente. É o sentimento de ser igual aos outros”. As próteses mioelétricas, mais sofisticadas, que já se encontram no mercado podem ter preços entre os 10 mil e os 30 mil euros.

No entanto, estas próteses podem até nem ser indicadas para todos os casos. “A experiência diz-me que os miúdos que nascem assim têm um potencial fantástico de adaptação”, diz Jacinto Monteiro, chefe do serviço de Ortopedia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Frisando não conhecer o caso específico do Nuno, Monteiro corrobora o preço alto a pagar por material médico deste grau de “sofisticação eletrónica”.

Além disso, há que contar com a mudança cíclica de prótese à medida que a criança cresce. A adaptação tem de ser constante, conforme o braço aumenta em comprimento e em volume. Monteiro refere a possibilidade de comparticipação deste material pelo Serviço Nacional de Saúde, “com justificação clínica”.

De acordo com o que Carla Entrudo ouviu dos médicos, a malformação de Nuno à nascença deveu-se a uma brida amniótica, uma patologia que se caracteriza pelo aprisionamento de partes do feto por anéis fibrosos do saco amniótico no útero. “Na fase inicial de crescimento, há, digamos assim, uma prega do útero que prende e faz uma espécie de garrote numa extremidade e impede a circulação de sangue naquela zona, que deixa de crescer”.

Aos pais foi então sugerida a possibilidade de se usar uma prótese convencional para compensar o problema. Para os progenitores não houve dúvidas assim que conheceram o material: “A prótese é rija, um pedaço de antebraço e uma mão de plástico. Não se mexe, não abre, não fecha. A partir desse momento a nossa decisão foi não, e por isso temos de incentivar que ele se aceite como é e que viva o melhor possível dentro das suas limitações.”

O tal potencial de adaptação destacado por Jacinto Monteiro é visível no Nuno. Irrequieto, tinha deixado momentos antes uma festa de Dia das Bruxas na escola. Após breves minutos com a Robohand, perguntou à mãe se podia “tirar a mão” e verificar as guloseimas disponíveis no local, um complexo de cinemas num centro comercial dos arredores de Lisboa.

Mas a curiosidade de quem observa de fora é inevitável: como é que os colegas de escola se relacionam com o Nuno, que está agora no 3º ano do ensino básico? “Ao início há curiosidade; alguns assustam-se, mas normalmente chegam-se ao pé dele e até lhe agarram o braço, do que ele não gosta muito. Depois esquecem-se, ele passa a ser um como qualquer outro. Costumam até defendê-lo em situações adversas”, explica a mãe.

Carla Entrudo não deixa de sublinhar o papel da plataforma online que lhe franqueou as portas para esta solução. A Patient Innovation (ver caixa) foi fundada há dois anos com o objetivo de partilhar pela net várias soluções como esta da Robohand, ou até bem mais complexas, mas o alcance delas também pode ir até ao inusitadamente simples.

Até lá, a filosofia dos pais não se deve alterar: “O nosso percurso foi sempre de incentivar a utilização, o toque, a nunca esconder, pelo contrário, a mostrar, utilizar a mão sempre que pode nas brincadeiras, no toque, em tudo. E por isso nós não sentimos que ele precise de ter uma segunda mão. Ao longo dos anos, apercebemo-nos de que ele vai arranjando as suas maneiras de fazer tudo o que precisa”. Nuno aproveita a deixa da mãe e faz a pergunta que qualquer miúdo da sua idade faria na ocasião: “Podemos ir ao McDonald’s?”.