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Os segredos do Pessoa

JÚRI DE 1996. Mário Soares, Maria de Sousa e Pinto Balsemão (sentados); Alexandre Pomar (à esquerda, de pé, cortado), Carlos Coelho, Norton de Matos (ambos da Unisys), José Mattoso e António Alçada Baptista. O júri reúne-se sempre no Palácio de Seteais, em Sintra

FOTO RUI OCHÔA

Há 28 anos que o segredo é a alma do Prémio Pessoa, escolhido por um júri e num processo em que não há fugas de informação até ao fim. Um ponto de honra para o júri, que não quer que haja vencidos. Na altura em que está prestes a ser escolhido o vencedor deste ano - cujo nome será conhecido nesta sexta-feira -, reproduzimos o artigo sobre os bastidores deste prémio publicado originalmente no extinto caderno Atual do Expresso de 5 de janeiro de 2013

Há um pacto de silêncio que envolve o Prémio Pessoa. Ninguém fala dos nomes que entram em competição, dos que ficam pelo caminho, dos eternos candidatos. Só se fala de quem ganha. Há segredos que ficam preservados entre as paredes do Palácio de Seteais - local em Sintra onde desde sempre o Prémio se cozinha e se decide.

As regras não são para quebrar, e o nome do vencedor é guardado a sete chaves para ser revelado - sempre numa sexta-feira à mesma hora - por Francisco Pinto Balsemão.

Num país em que o segredo de Justiça é quebrado a todos os minutos, em que tudo se diz e se conta, esta é uma das coroas de glória do Prémio que, há 25 anos, foi criado com a chancela do Expresso.

JÚRI DE 1987. O júri do primeiro Prémio Pessoa (da esq. para a dir.): Miguel Veiga, Nuno Teotónio Pereira, Augusto M. Seabra, José Luís Porfírio, Vicente Jorge Silva, António José Saraiva, Fraústo da Silva, Carlos Coelho, Pinto Balsemão, Eduardo Lourenço e Francisco Lucas Pires

JÚRI DE 1987. O júri do primeiro Prémio Pessoa (da esq. para a dir.): Miguel Veiga, Nuno Teotónio Pereira, Augusto M. Seabra, José Luís Porfírio, Vicente Jorge Silva, António José Saraiva, Fraústo da Silva, Carlos Coelho, Pinto Balsemão, Eduardo Lourenço e Francisco Lucas Pires

FOTO RUI OCHÔA

“É, sem dúvida, um feito”, diz um dos jurados. O segredo é a alma do Prémio. Nem vale a pena insistir, tentar quebrá-lo, perguntar. Ninguém, em 25 anos de história, revelou qualquer detalhe das reuniões do júri. Curiosamente, só este ano, Pinto Balsemão se atreveu a levantar um pouco o véu. Pouquinho, sem dúvida, mas um facto inédito. O presidente do grupo Impresa assumiu que “pela primeira vez” na história do Prémio Pessoa, o nome do vencedor tinha sido sugerido “por uma candidatura exterior”. E até revelou os autores da proposta: “Nicolau Santos e Rui Vilar.”

Há quem proponha o marido

A verdade é que, há anos - em rigor, desde sempre -, o Prémio Pessoa admite propostas vindas de fora. Uma instituição ou qualquer pessoa pode enviar uma sugestão de candidato para análise. “No ano recorde, ultrapassámos as 30 candidaturas”, disse outro membro do júri. Mas sempre ficaram eliminadas à primeira volta. Porquê? Desde logo por, na sua maioria, fugirem aos objetivos. Surgem propostas de autodidatas que querem o reconhecimento do seu talento, que foi fruto de muito suor e lágrimas; há quem proponha o marido e quem defenda a mulher; existem ainda pedidos de ajuda, de como o valor do Prémio - este ano de 60 mil euros - seria bem útil para resolver vidas e saldar dívidas. Todas as candidaturas são analisadas, por mais desfasadas que pareçam.

Joana Frade, secretária de Pinto Balsemão há duas décadas, organiza pastas com cada uma das propostas. Acompanha-as com recortes de jornais e material de apoio. Logo no primeiro dia, o júri percorre os dossiês e faz uma primeira votação. A maioria - senão a totalidade - não resiste ao primeiro round. Mas a principal razão para que, dificilmente, uma candidatura de fora possa vencer o Prémio Pessoa é outra. E chama-se júri.

Desde o princípio que os autores do Prémio - Pinto Balsemão e Carlos Coelho, na altura presidente da Unisys - chamaram para compor o elenco de jurados personalidades de relevo em todas as áreas, da ciência às artes, da música ao cinema. A lista é vasta e composta por nomes conhecidos. Vicente Jorge Silva e Francisco Lucas Pires passaram por lá. Nuno Teotónio Pereira e Eduardo Lourenço também. E António José Saraiva e Fraústo da Silva. Mário Soares ou Maria de Sousa. Juntaram-se ex-vencedores, como João Lobo Antunes ou Eduardo Souto de Moura. No conjunto, formam um 'clã', uma elite, que não tem dúvidas em trazer para cima da mesa candidatos de peso, que defendem com toda a força e convicção.

Nem estatuto especial, nem veto. Decisão é tomada por maioria

Não há votos de qualidade, nem direito a veto ou estatutos especiais. A decisão é sempre tomada por maioria. E aí a força e o poder de argumentação de cada jurado é fundamental para o resultado. Claro, os mais eloquentes têm aqui um palco privilegiado. Miguel Veiga, advogado do Porto, é um dos veteranos. Chamado para o júri logo na primeira edição do Prémio Pessoa, em 1987, é conhecido por defender os seus candidatos com unhas e dentes. “Só à minha conta há 12 vencedores”, garante, sem deixar os seus créditos por mãos alheias e assumindo que é fundamental “fazer bem o trabalho de casa, fundamentar bem as escolhas”.

Clara Ferreira Alves é também classificada de “muito aguerrida”, a que se junta a cientista Maria de Sousa e, claro, o ex-Presidente da República Mário Soares. O poder de argumentação, a capacidade de defender o 'seu' candidato joga-se em todos os terrenos. Há campanha desde o momento em que o júri se junta. Aproveitam-se as pausas e os arranques das reuniões. Faz-se lobbying entre elementos.

JÚRI DE 2012. Clara Ferreira Alves, Rui Baião, Maria de Sousa, Viriato Soromenho Marques, Miguel Veiga, Joana Frade e Mário Soares num intervalo da reunião do Prémio Pessoa

JÚRI DE 2012. Clara Ferreira Alves, Rui Baião, Maria de Sousa, Viriato Soromenho Marques, Miguel Veiga, Joana Frade e Mário Soares num intervalo da reunião do Prémio Pessoa

tiago miranda

É todo um ritual que se mantém inalterado, aquele que rodeia o Prémio Pessoa

Começa com um jantar em Seteais sempre à quarta-feira, em que participam todos os diretores e administradores do Expresso. Têm ainda assento os administradores do patrocinador principal - agora a Caixa Geral de Depósitos -, que depois deixam os membros do júri a sós no serão. Entre whiskies, charutos e cigarros, começam a desenhar-se estratégias, a discutir-se nomes e potenciais vencedores. No pequeno-almoço do dia seguinte, mesmo que a noite tenha sido longa e divertida, há quem aproveite para continuar a campanha, mas a verdade é que só a partir das 10 horas começa formalmente a discussão. Antes do almoço de quinta-feira já grande parte dos candidatos a vencedores foi posta de parte. Cada um dos membros do júri apresentou uma proposta, sustentando com provas a razão para o destaque.

Na sala trocam-se livros, catálogos, ouvem-se peças musicais ou veem-se imagens que mostram a qualidade do candidato. Maria de Sousa não tem dúvidas de que o ambiente é especial. “Chegamos a Seteais com a imagem de um país em crise e deprimido. Lá, só falamos de gente que vence, que tem arrojo e sucesso.” O mundo real fica lá fora. “Todos os anos, encontramos um país diferente”, feito só de vitórias e de esperança no futuro. A experiência é única. E, por mais debate que haja, é certo que “não há vencidos”. “Este é um Prémio só para vencedores”, diz José Luís Porfírio. O voto de silêncio em relação a quem fica pelo caminho da discussão é fundamental. “Nunca houve fugas de informação, porque não queremos que o Prémio seja visto como sendo contra quem quer que seja. Mesmo que alguém não vença num ano, pode sempre vir a ganhar noutra oportunidade”, acrescenta o crítico de arte. Já aconteceu. Em 25 anos de história, não admira.

Uma vez, uma rádio contactou Emmanuel Nunes, o compositor, para lhe dizer que era o vencedor. Não era. Pelo menos, naquela altura. Acabaria por receber o Prémio Pessoa em 2000. E aceitou. Já o poeta Herberto Helder recusou. “Não digam a ninguém e deem o Prémio a outro”, avisou a Pinto Balsemão quando este lhe transmitiu a decisão do júri. O seu nome, porém, figura nos anais do Prémio Pessoa. Para sempre.

* Texto publicado no caderno Atual, do EXPRESSO, a 5 de janeiro de 2013