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O reflexo amargo da internet

SEM FILTROS. Os resultados e as sugestões apontadas pelo Google obedecem a um algoritmo cego à verdade histórica ou ao politicamente correto. O algoritmo responde, essencialmente, ao comportamento dos utilizadores da Internet

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Controlar o algoritmo do Google e do Facebook será a forma mais acertada de acabar com as notícias falsas?

Já escrevi sobre o tema aqui no Expresso Diário, mas as notícias falsas que circulam no Facebook e no Google continuam a estar na ordem do dia. Aliás, basta ver AQUI o aconteceu este domingo num restaurante norte-americano quando um homem irrompeu pelo estabelecimento aos tiros. Não ficou ninguém ferido, mas quando foi detido pela polícia, o atirador, Edgar Maddison Welch, de 28 anos, afirmou que estava a investigar uma das muitas teorias da conspiração que foram lançadas durante as últimas eleições americanas. A patranha enunciava que Hillary Clinton e o seu chefe de campanha lideravam uma rede de pedofilia que operava no restaurante The Comet Ping Pong, o local visitado ontem pelo “investigador”.

NESTE ARTIGO no “The Guardian”, a autora defende que as sugestões de resultados nas buscas que fazemos no Google estão inquinadas. Dá como exemplo as sugestões que são feitas a pesquisas como: “os judeus são?”; “as mulheres são”; “os muçulmanos são”; “Hitler foi mau?”… A última questão devolve resultados que colocam em dúvida o papel de Hitler no Holocausto e alguns links branqueiam o seu papel na II Guerra Mundial. Quanto às outras questões, os resultados do Google partem do princípio que queremos saber se as mulheres, os judeus e os muçulmanos são… maus!

Ora, o que é preciso entender é que o Google funciona baseado num algoritmo. São processos matemáticos que estão na base do que é apresentado nas sugestões das pesquisas. Ou seja, não há um tipo maquiavélico com um gato ao colo a definir o que vai ser mostrado nas sugestões (exceto nas que são publicidade paga). Se elas existem desta forma é porque há um comportamento (neste caso uma repetição, uma frequência) dos utilizadores do sistema. Sim, é muito provável que exista muita gente a perguntar se “os judeus são maus” e se o “Hitler era bom”. As sugestões são para páginas que, supostamente, não têm taxas de abandono elevadas – quando alguém lá entra, fica por lá. Sempre que isto acontece, o algoritmo percebe que o resultado que apresentou à pesquisa foi correto. Tão correto que a página foi consultada com sucesso.

A questão aqui é outra: até que ponto deve o algoritmo do Google mostrar que a Internet está cheia de imbecis? Ou, colocando a coisa de uma forma mais simpática, o Google deveria estar a agir por cima do algoritmo? Se estivesse, esse comportamento levantaria uma série de outras problemáticas. Se a empresa começar a condicionar os resultados das pesquisas e as sugestões de perguntas… não estará a mudar a perceção da realidade? E qual é a agenda do Google? Que interesses vai a empresa querer promover?

O que se passa com o algoritmo criado pelo Facebook é exatamente o mesmo. É preciso não esquecer: os números, quando não são manipulados, não são bons ou maus. Limitam-se a ser números. Temos a tendência de humanizar tudo o que nos rodeia e esse é o erro que estamos a impor aos algoritmos.

É certo que devemos exigir que estes gigantes da Internet consigam limar as arestas destas imperfeições. Essencialmente, porque as falsidades que estão a ser mostradas nessas redes estão a ser tidas como verdade pelos mais crédulos.

Agora, é preciso não esquecer: sempre que exigirmos que os algoritmos se tornem mais politicamente corretos, vamos estar a transformar e a condicionar a realidade que a Internet hoje nos mostra. Porque se é verdade que o ciberespaço é terreno propício à democracia, não deixa de ser menos factual que também é um antro de ódios e de intolerâncias.

É, por isso, urgente encontrar os mecanismos que ajudem os menos esclarecidos a fazer a destrinça entre a verdade e a mentira. E é necessário admitirmos que não estamos, como sociedades, preparados para lidar com a imagem que a Internet reflete de nós.