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Guilherme, o curioso

VENCEDOR Guilherme Figueiredo ganhou a segunda volta das eleições para bastonário dos advogados

Desde sempre envolvido em movimentos culturais e espaços de reflexão sobre o saber contemporâneo, o novo bastonário da Ordem dos Advogados é também poeta com obra publicada

Há quase um mês, uns dias depois de disputada a primeira volta das eleições para bastonário da Ordem dos Advogados, encontrámo-nos com Guilherme Figueiredo no seu escritório na rua de Sá da Bandeira, no Porto, mas para falar de Miguel Veiga, acabado de falecer. Agora já se sabe que Guilherme venceu ontem as eleições e derrotou Elina Fraga, a bastonária que recebera o apoio de Marinho Pinto. Naquela tarde tratou-se apenas de uma conversa longa, com Veiga em fundo e poesia à superfície.

Eram amigos de longa data, de muitas tertúlias e por estarem cativos de uma paixão comum: a poesia. Se a Miguel Veiga, e ao contrário do que poderia pensar-se, não escapava o conhecimento do trabalho, nem mesmo dos mais jovens dos jovens poetas, Guilherme Figueiredo acrescenta a isso a circunstância de em geral procurar conhecê-los pessoalmente. Partilha com eles conversas de todo o tipo, como o faz com pintores, escritores, atores, cineastas.

A razão é simples. Embora das habilitações profissionais deste homem com 60 anos, nascido em Massarelos, no Porto, conste a licenciatura em Ciências Juridíco-Económicas pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (1976-1981), o que lhe permitiu o exercício da advocacia ao longo de todos estes anos, em particular na área do Direito do Trabalho, ser curioso é a sua verdadeira profissão.

Naquela mesma tarde de conversa longa acaba, de novo para falar de Miguel Veiga, por pegar num opúsculo editado pelo Conselho Distrital da Ordem dos Advogados, a cujo Conselho Regional presidiu. Ao mostrar a singular linha de pensamento do advogado que tanto admirava, expressa naquele pequeno livro, acabava, de forma involuntária, por revelar uma outra faceta da sua atividade, traduzida no entusiasmo com que encarava o debate de ideias. Por isso tantas vezes se envolveu na organização de colóquios ou conferências, como aquele ciclo em que participou Veiga, intitulado “Os espaços curvos do Direito”, e para o qual convidou ainda homens como José Gomes Canotilho, Mário Cláudio, Cunha Rodrigues, Álvaro Laborinho Lúcio, ou Boaventura Sousa Santos. De todas as conversas resultaram pequenos livros com o conteúdo das comunicações dos convidados.

De Serralves à Porto 2001

Era aquela o resultado de uma experiência longa, que passara já pela organização de múltiplas conferências no Museu de Serralves, ou no âmbito da Porto 2001 Capital Europeia da Cultura, período em que coordenou uma série de iniciativas na área do cinema, antologia de poesia e exposições de pintura e escultura dedicadas ao tema “O Sangue – Entre o Sonho e o Medo”.

Em maio de 2012 uma série de intelectuais e artistas do Porto resolveu homenageá-lo com um ato público na Biblioteca Almeida Garrett. Foi editado um livro e expostas obras de arte. Foi um dia em cheio para Guilherme Figueiredo. Naquele momento, e com a presença de gente tão diversificada, como advogados, artistas plásticos, escritores, poetas, professores universitários, jornalistas, juristas, magistrados, empresários, ficava expresso todo um passado, todo um percurso de vida que o levou a ter voz no Teatro Universitário de Coimbra, a ter responsabilidades na Seiva Trupe, desde a sua fundação como cooperativa, bem como no FITEI, a presidir ao Conselho Diretivo do Teatro do Campo Alegre, ou ao Conselho de Administração do Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende, a ser redator das revistas “Vértice” e “Cinema”, ou, faceta menos conhecida, a dar conferências no King’s College, em Londres, e na Universidade de Oxford, sobre cinema e literatura.

Não obstante toda esta entrega a um mundo diverso, o direito, o exercício da advocacia, é uma outra forma de respirar. E de participar, como se vê pelas inúmeras conferências na área do direito e pelas muitas colaborações com diferentes universidades.

O tempo do Direito e o tempo da poesia

Naquela tarde de conversa, mantinham-se intensos os contactos. Ia arrancar o processo da segunda volta das eleições e Guilherme Figueiredo, sempre muito pragmático e muito confiante nas suas próprias capacidades, rejeitava, no entanto, qualquer triunfalismo.

Depois de comentar o modo como tinha abordado e entrado no sempre difícil mundo dos grandes escritórios de advogados e como tinha conseguido fazer-se ouvir, admitia a vitória como uma possibilidade. Uns dias depois, numa breve troca de palavras, dizia-nos estar perante uma caminhada que se faz “voto a voto”, mas “as perspetivas continuam boas”, concedia.

Confirmou-se. A análise feita por Guilherme Figueiredo quanto a uma hipótese de vitória estava correta. Realizada ontem a segunda volta das eleições, conseguiu 9 862 votos, contra os 9 193 da lista presidida pela até agora bastonária, Elina Fraga. A advogada que fora apoiada por Marinho Pinto perde assim a oportunidade de um segundo mandato.

Guilherme já se candidatara no triénio anterior. Desta vez tudo lhe correu de forma diferente. O processo eleitoral também se modificou. Deixou de ser automaticamente eleito o candidato mais votado. Os novos estatutos da Ordem determinam que o bastonário deverá obter mais de 50% dos votos expressos.

Em novembro, na primeira volta, Elina Fraga obtivera 8 706 votos, contra os 7 838 de Guilherme Figueiredo.

Agora que entra numa nova fase, porventura terá menos tempo para toda aquela diversidade de atividades culturais que sempre marcaram o seu percurso. Quem o conhece bem diz que porventura nada disso será prejudicado por ter de se dividir agora entre Porto e Lisboa. Talvez continue a haver espaço para a poesia. “Porque hoje é domingo”, é o título do seu livro de poemas, editado pela Modo de Ler em maio de 2013. E, para Guilherme, quando se trata de poesia, é sempre como se fosse domingo.