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Há motivos para celebrar. Mas também para praticar

josé carlos carvalho

Se Portugal apresenta uma performance negativa ao nível dos chumbos, o mesmo já não se pode dizer de outras componentes avaliadas pelos testes PISA: os alunos portugueses melhoraram a ciências, leitura e matemática. Pedro Abreu, da Sociedade Portuguesa de Física, elogia o resultados, mas pede contenção na análise. Até porque há um equilíbrio entre teoria e prática que permanece por resolver

Maria João Bourbon

Maria João Bourbon

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Jornalista

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Infografias

Jornalista infográfica

Apesar dos resultados positivos a ciências (pela primeira vez em seis edições do PISA, Portugal tem um desempenho significativamente acima da média da OCDE), o ensino cá dentro continua a ter uma forte componente teórica. Embora os resultados do PISA - o maior estudo internacional que testa a literacia a ciências, matemática e leitura - avaliem a capacidade dos alunos de 15 anos em resolver situações relacionadas com o dia-a-dia das sociedades contemporâneas, “não envolvem a componente prática de realização de experiências”.

A conclusão é de Pedro Abreu, presidente da delegação regional de Sul e Ilhas da Sociedade Portuguesa de Física (SPF). “Há razões para estarmos satisfeitos, mas não vale a pena embandeirarmos em arco. Os testes PISA não envolvem a componente prática de realização de experiências [em laboratório]”, explica ao Expresso. “E a parte experimental, em áreas científicas como a Física, Química, Biologia e talvez Geologia, é fundamental. Não basta o aluno saber resolver problemas teóricos, também é necessário saber resolver problemas práticos.”

Na verdade, os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA, na sigla inglesa) mostram que apenas 8,9% dos alunos passam tempo em laboratório ou a realizar trabalho prático nas aulas de Ciências. Cerca de 57% fá-lo apenas em algumas aulas e apenas 8,9% o fazem em todas as aulas.

Pedro Abreu sublinha que é necessário que os alunos “saibam resolver os problemas do dia-a-dia” em contexto de laboratório. “E mesmo que se diga que o PISA incide sobre problemas do dia-a-dia, estas não deixam de ser questões teóricas, diferentes daquelas que são realizadas em laboratório.”

Avaliar esta componente laboratorial no PISA seria muito difícil, admite. Mas é preciso levar a dimensão experimental às salas de aula, logo desde o 1º ciclo.

Esta é também a conclusão que o professor retira da comparação entre os resultados do PISA, apresentados esta terça-feira, e do TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Study), divulgados na semana passada. Na verdade, o teste que avalia os alunos do 4º ano evidenciou, há uma semana, um desempenho a ciências menos animador. “O que o TIMSS revela é que os nossos futuros jovens, agora alunos do 1º ciclo, até têm horizontes mais abertos em relação há alguns anos (cálculo mental, interação em sociedade, etc.), mas em termos de raciocínio já não estão tão bem.”

É isto que o leva a reforçar a necessidade de incluir mais atividades práticas onde os alunos possam ver, aplicar e interpretar os resultados. Na verdade, já existem algumas apostas neste sentido - como as parcerias com a agência Ciência Viva -, mas estas devem aumentar ao nível do 1º ciclo.

Marcos Borga

Professores portugueses são os mais flexíveis

De todos os países e parceiros da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), Portugal é aquele onde os professores revelam uma maior flexibilidade para adaptar os conteúdos das aulas às necessidades dos alunos: pelo menos um em três estudantes diz que o seu professor fornece ajuda individual quando um aluno tem problemas de aprendizagem num assunto ou tarefa em quase todas as lições (a média da OCDE é de um em cada seis alunos). Segundo a organização, adaptar as aulas aos alunos é fundamental para ensinar ciências a todos os tipos de alunos.

O ensino flexível e adaptado às necessidades dos estudantes é mais comummente encontrado nas escolas privadas que nas escolas públicas, especialmente nos casos de Portugal, Brasil, Dinamarca, Grécia, Itália e Japão. No caso português, 28,6% dos alunos referem que os professores são propensos a adaptar o conteúdo e estrutura das aulas às necessidades, conhecimentos e capacidades dos alunos, contra apenas 15,8% na OCDE.

A OCDE avança com possíveis explicações: “Talvez nestes sistemas de educação os professores das escolas públicas tenham constrangimentos relacionados com o tamanho das turmas e o currículo oficial de uma forma que os professores do privado não têm”. A possibilidade de os incentivos das escolas privadas aos professores para adaptar a forma de ensino serem maiores que nas escolas públicas é outro dos fatores equacionados.

Apesar disso, Portugal foi um dos países que mais aumentou a taxa de absentismo de professores, segundo relatam os diretores das escolas, a par de países como a Irlanda, Suíça, entre outros.